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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Prada Luna Rossa Black

Ou a tentativa desesperada de cheirar diferente que o marido

31.08.21, Triptofano!

Uma das grandes vantagens de  vivermos de forma intima com alguém do mesmo sexo é podermos partilhar um sem número de coisas. Friso a parte de forma intima porque se não for intima o máximo que se partilha é aquele iogurte que está com o prazo quase a expirar e é só porque uma pessoa é ferrenha adepta da luta contra o desperdício alimentar.

Desde as meias, cuecas e casacos, passando pelos desodorizantes, pelos produtos para limpar as miudezas e mesmo a escova de dentes (ok, se calhar a escova de dentes já é demasiado...), tudo é partilhado, numa alegria sem fim, digna de quem foi passear no campo e enfardou 1/4 de quilo de cogumelos alucinogénios.

Agora esta partilha também tem associada algumas desvantagens, sendo que a de maior relevo é uma pessoa acabar por perder um pouco da individualidade singular para ganhar uma espécie de individualidade colectiva, como se fossemos um ser de duas cabeças que por não estar em união de facto leva uma talhada nos impostos que até chora.

Eu sinto isto na minha vida especialmente por causa dos perfumes. É que uma pessoa gosta de ter aquele cheiro único, aquela fragrância que é associada à nossa pessoa, aquela aura olfactiva que faz todos os rebarbados da linha verde do metro virarem a cabeça quando passamos.

Mas com o Cara-Metade isso é impossível, porque como supostamente partilhar é ser feliz, acabamos por partilhar todos os nossos perfumes.

Ora como já vos contei, no início deste ano eu e o Cara-Metade deixámos de viver em Benfica e viemos para Queluz. Claro que como gente maravilhosa que somos ainda ponderámos alugar um quartito ou dois do palácio, mas quisemos ser mais discretos e optámos por um apartamento catita. Durante as mudanças muita coisa foi para a arrecadação e lá está meio esquecida em caixotes e caixotinhos, e foi aí que eu me lembrei que devia haver um perfume por lá perdido por estrear.

Depois de muito revirar encontrei finalmente o Prada Luna Rossa Black, um perfume com um aroma amadeirado e oriental, que aparentemente foi concebido para homens confiantes e corajosos, que não têm receio de enfrentar perigos e procurar novas possibilidades.

Prada Luna Rossa Black

A descrição deixou-me motivado e pensei para mim, ah Triptofano, este cheiro irresistível vai ser só teu, tu vais levar o perfume para o quarto e escondes-lo entre os pijamas, que é para o Cara-Metade não o usar.

Como está um calor descomunal e andamos a dormir em pelota fiquei convencido que era um plano infalível, por isso avancei com o mesmo.

Obviamente que correu mal.

O Cara-Metade assim que sentiu o cheiro das sensuais notas de angélica completadas por uma explosão refrescante de bergamota quis saber que perfume era aquele e onde estava. Quando ousei dizer que queria ficar com ele só para mim recebi em troca um olhar capaz de causar incontinência urinária.

Não sei como ele conseguiu, se treinou a Dona Custódia para o procurar ou coisa que o valha, mas encontrou o perfume e mudou-o de sítio. Agora tem-no usado todos os dias só para me chatear. Diz que é para ter a sua individualidade.

Já o procurei em todo o lado e não consigo encontrar. Ele para mostrar que é um bom Cara-Metade mandou-me a foto do perfume para matar saudades....

Klorane Cornflower Organic

Ou como o Cara-Metade acha que tenho uma fábrica de cremes em casa

31.08.21, Triptofano!

Desde que abandonei o meu trabalho como farmacêutico comunitário, para grande desgraça da minha alma, o número de cosméticos que encontra refúgio na minha casa diminuiu drasticamente. 

Apesar dos primeiros tempos terem sido difíceis, consegui reunir forças e seguir em frente, aproveitando para finalizar todas aqueles 245852 embalagens com restinhos meio rançosos que tinha espalhados na minha antiga habitação.

Quem ficou contente por este decréscimo de ácidos hialurónicos e retinóis e concentrados de papaia envolta em pepitas exfoliantes de chocolate dos Andes foi o Cara-Metade, que sempre achou que eu mais dia menos dia ia acabar num daqueles programas dos Acumuladores Compulsivos, orgulhosamente delirante sentado numa montanha de leites corporais expirados em 2003.

No entanto, o senhor doutor Cara-Metade continuou diariamente a usar o seu cremezinho de rosto, que obviamente, é finito, por isso há uns dias atrás ele veio todo mansinho, qual gato à espera de comer uma sardinha pingona, a perguntar se eu lhe podia arranjar um creme novo...naquele momento!

Sim, o Cara-Metade tem 1001 qualidades, mas gerir o creme do rosto não é um deles. Ora aqui o vosso amigo Triptofano teve de revirar sacos e saquinhos e sacolas e diabo a sete (ainda não fiz todas as arrumações depois das mudanças e cheira-me que nem para o ano estarão acabadas) até descobrir um dos últimos cremes que tinha trazido da farmácia: o Klorane Cornflower Organic, um creme diário hidratante que dá para por em tudo o que é sítio, seja cara, pescoço ou contorno de olhos.

Klorane Cornflower Organic

Este creme da Klorane, com água de flor de Centaurea cyanus (sejamos correctos e chamemos as flores pelos seus nomes) bio e ácido hialurónico de origem vegetal, tem na verdade uma textura gel-creme, óptima para quem quer uma coisa fresquinha que seja bastante hidratante.

Mas não falando dos 98% de ingredientes de origem natural, ou de como este creme redensifica e ilumina a pele, minha gente, eu não sei o que é que colocaram dentro do tubo, mas o raio do bicho cheira bem mas bem mesmo.

Só sei que quando o Cara-Metade chega ao pé de mim depois de se besuntar eu não consigo evitar esfregar o nariz todo na cara dele.

Ele fica feliz e diz que é o charme natural que me deixa maluco. Eu sorrio de forma amarela porque a minha mãe sempre me ensinou que os loucos não se contrariam...

 

Respeitar os (nossos) horarários!

31.08.21, Triptofano!

Se fosse possível mandar objectos pontiagudos via ligação de Internet muito provavelmente já tinha sido atingido com um ou dois pedregulhos, visto ter tido o descaramento de dizer que tinha voltado para depois ficar um mês sem dizer nem água vai nem água vem.

Ter saído da farmácia comunitária para um trabalho totalmente diferente, que posso fazer a 100% em casa, teve a sua parte boa e a sua parte má, como provavelmente muitos daqueles que ficaram em teletrabalho puderam experienciar.

Obviamente que é bom perdermos menos tempo em transportes até ao trabalho, saber que podemos ir fazer um xixizinho na nossa casa-de-banho sem termos um colega a fazer pressão do outro lado da porta e atacar todos os pacotes de batatas fritas que temos guardados no armário sem termos de dar cavaco a ninguém.

Mas depois existe a parte má de não conseguirmos compreender que lá pelo trabalho estar em casa não significa que tenhamos de estar sempre prontos para o trabalho. Ou pelo menos eu não consegui compreender isso durante muito tempo. E volta e meia estava a responder a e-mails ou a fazer outras actividades bem depois do meu horário de trabalho só porque já que tinha as coisas ali à mão mais valia despachar serviço. Só que o serviço para quem despacha serviço nunca acaba - é uma verdadeira bola de neve.

Não quero dizer com isto que tenhamos de cumprir ao nanosegundo as horas do nosso contrato laboral - deve sempre existir flexibilidade, tanto da parte do empregado como do empregador, e se for preciso fazer um pouco mais ou um pouco menos ter esse jogo de cintura. Mas não criar o hábito, que foi o que me aconteceu. Trabalhar sempre  mais um pouco. Estar sempre um pouco mais ligado. E não perceber o impacto do telefonema que se vai adiando, do post que se vai atrasando, do restaurante que não se visita, porque há sempre mais qualquer coisa a fazer no trabalho.

Nos últimos dias, por mais que me custe, tenho cingindo o meu trabalho às horas que realmente tenho de fazer. Acordo cedo, pico o ponto logo de manhã, faço as minhas horas, e dou por mim livre antes das 17 h. E o tempo rende. E a vida rende. E percebo que a virtude está mesmo no equilíbrio de todas as vertentes da nossa vida.

Desta vez voltei mesmo. Custe por onde custar. Por mim. Por vocês. :)