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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Amo-te, Palerma : Uma Comédia Romântica em Banho-Maria

18.05.20, Triptofano!

Amo-te, Palerma, cujo título original é Te Quiero, Imbécil, é uma comédia romântica espanhola muito ligeira, que aposta numa fórmula já incrivelmente gasta mas que ainda assim consegue ser eficaz.

Amo-te, Palerma - Uma Comédia Romântica em Banho-Maria

Em Amo-te, Palerma, acompanhamos a história de Marcos, que decide pedir em casamento a namorada de há oito anos apenas para levar com uma monumental tampa.

Sem namorada, sem emprego, e obrigado a viver na casa dos pais, a auto-estima de Marcos está pelas ruas da amargura, sendo que toma uma decisão arriscada: procurar ajuda na Internet.

Com o auxílio das "boas" dicas de um guru virtual e com o apoio de uma amiga de infância que encontra acidentalmente na rua e que se vê a quilómetros que o quer papar, Marcos decide tornar-se num homem moderno, de forma a poder ter sucesso na verdadeira aventura que é conseguir encontrar alguém minimamente normal para se ter um relacionamento.

Para isso muda a sua roupa, começa a fazer exercício e vai ao SPA, onde é seduzido para fazer as virilhas à croata, que provavelmente deve ser uma técnica que está na moda no nosso país vizinho mas que felizmente ainda não chegou cá.

Amo-te, Palerma não é aquela filme quente a escaldar, mas também não se pode dizer que nos vai causar uma hipotermia - diga-mos que ronda o Banho-Maria.

Ponto alto: O rabiosque maravilhoso de Marcos na cena final do filme.

Ponto baixo: O encadeamento da história demasiado previsível que nos consegue segurar mas não surpreender.

Podem encontrar a banda sonora de Amo-te, Palerma no Spotify.

 

Sim, estou gordo, e daí?

18.05.20, Triptofano!

Não é a primeira vez, nem será certamente a última, que no meu trabalho um dos meus colegas diz que eu estou gordo.

Existem duas formas principais de abordar a questão, e ocorrem sempre quando eu estou mais à vontade e projecto o meu pneu para fora.

A primeira é com um olhar de espanto e um EIIIIIIIIIIIIII CA GORDO dito com um tom de piadola, como se tivesse sido transportado para um sketch humorístico e ninguém me tivesse avisado.

A segunda é de uma forma supostamente mais fofucha, quando me colocam a mão na barriga, como se estivessem à espera que o frango assado que eu comi na noite passada desse um pontapé, e afirmam que eu estou a ficar com um perímetro abdominal fora das recomendações da Organização Mundial de Saúde.

Existe também aquele colega que nunca tomando a iniciativa de dizer que eu estou gordo, sistematicamente quando o assunto vem à baila afirma com toda a convicção que depois dos 30 o metabolismo muda e é um caso sério para uma pessoa emagrecer.

Estou gordo e daí?

Sim, estou gordo, e daí?

Não vou dizer que este tipo de comentários não me afecta, porque se não afectassem não me lembrava sequer deles, passava à frente e siga em frente que é caminho.

Também não vou dizer que vou para casa chorar ou passar só a comer alface e beber água fervida, mas a verdade é que se não estivesse minimamente confortável com o meu corpo podia ir-me abaixo, ainda para mais numa altura em que somos agressivamente bombardeados com publicidade de todos os lados e mais algum sobre corpos perfeitos e como iremos ser infelizes se não conseguirmos perder 20 kgs, nem que para isso tenhamos de amputar uma perna.

Vocês até me podem dizer que as pessoas não abordam o assunto com maldade, mas sim apenas para fazer conversa ou é um comentário com teor meramente informativo - TRETAS.

Infelizmente as pessoas gostam de opinar acerca da vida dos outros, do corpo dos outros, das escolhas dos outros, basicamente de tudo relativamente aos outros, e até podem não ter noção do que estão a fazer quando abrem a boca, mas a verdade é que cada comentário menos simpático pode ser uma facada no coração de uma pessoa.

E quando alguém se ri e faz uma piadola acerca de um comentário espirituoso não significa que esteja tudo bem nem que isso seja um sinal verde para se continuar "no gozo". Por vezes é o mecanismo de defesa de forma a evitar um confronto - porque sim, e aqui eu falho redondamente, quando alguém nos diz uma coisa que não gostamos de ouvir devemos ser claros e informar o porquê de não nos sentirmos confortáveis com determinado assunto.

O Leitor Decide : Cicuta

17.05.20, Triptofano!

Volta e meia alguns projectos aqui do blog ficam em suspenso, ou por falta de energia minha em continuar com os mesmos ou por vezes devido a situações externas fora do meu controlo, como toda esta pandemia que estamos a viver que me deu a volta ao miolo.

O delicioso convite que me fizeram para o Desafio do Conto fez-me recordar a história que vocês estavam a decidir a evolução e que subitamente ficou parada, e como nunca é tarde para andarmos em frente decidi voltar a escrevê-la, contando com a vossa ajuda preciosa para decidir os próximos capítulos.

Como talvez já não se lembrem volto aqui a colocar toda a história, sendo que no fim há votação! 

Anastrozol

Respirou fundo!

Aquela era a segunda praia do mundo com maior nível de iodo, e a verdade é que o cheiro que lhe inundava as narinas era totalmente diferente do cheiro de qualquer outra praia que já tivesse conhecido. Talvez fosse por isso que, sempre que necessitara no passado de tomar uma decisão complicada, aquele fosse o local escolhido para reflectir profundamente no próximo passo a dar.

Naquele preciso momento estava perante uma decisão que nunca imaginara ter de tomar, e dar um passo em frente significava literalmente cair num abismo de ondas que batiam devastadoras contra uma falésia silenciosa de olhares alheios, enquanto que dar um passo atrás era sinónimo de continuar uma luta que já lhe tinha sugado a carne, o sorriso e a alma.

Tudo começara para Ana com um pequeno nódulo que a médica lhe assegurou não ser nada de especial! Uma pequena cirurgia, meia dúzia de anos a tomar um medicamento que lhe causaria dores excruciantes nas articulações, e tudo ficaria bem, garantiu-lhe de boca escancarada a mulher de bata.

As coisas não foram tão simples.

A pequena cirurgia tornou-se uma grande operação onde foi necessário retirar todo o peito. O tecido estava tão necrosado que a reconstrução mamária foi posta de lado com medo de haver rejeição por parte do corpo. A mesma rejeição que Ana sofreu por parte do marido, que deixou a casa enquanto ela estava num tratamento, mandando-lhe apenas uma mensagem a desejar sorte mas que não era capaz de continuar a vida com uma mutilada.

Era assim o amor, com prazo de validade e garantia de devolução em caso de avaria.

A meia dúzia de anos a tomar o medicamento não chegou sequer a um, com o comprimido fúcsia a ser substituído por dois amarelos, um azul e três gelatinosamente castanhos, acompanhados com uma injecção a cada três meses, porque o cancro tinha-se espalhado para os ossos.

No último exame que fez, a médica, outra, porque a primeira Ana negou-se a querer voltar a vê-la, mostrou-lhe uma fotografia dos seus ossos com várias bolinhas, umas maiores que outras, que representavam as metástases tumorais.

É como se tivesse luzes de Natal espalhadas pelo seu corpo! - disse serenamente a médica.

Podia-lhe ter chamado puta, podia ter dito para ela ir brincar com a situação para outro lado, podia ter chorado e gritado e berrado que não era justo, mas Ana já estava num ponto em que apenas se esforçava o mínimo para conseguir sobreviver.

Se o filho ainda lhe desse algum apoio, talvez as dores que a incendiavam fossem mais suportáveis, mas o curso de Nutrição Desportiva tirado numa cidade espanhola era mais importante que tudo o resto. No fim não o condenava, afinal não podia exigir que ele abdicasse da vida dele para atenuar o sofrimento da vida dela.

Foi com dificuldade que se enfiou no carro e conduziu até aquela praia onde agora se encontrava, embrenhada pelo som das ondas que rebentavam contra a falésia e por um ocasional grito duma gaivota pousada na imaculada areia.

Gaivotas em terra tempestade no mar, mas a verdadeira tempestade vivia dentro dela. Ana não queria morrer, queria simplesmente viver de outra forma, mas as únicas opções de que dispunha era esperar pela morte ou ir ao seu encontro.

Respirou fundo mais uma vez, cerrou os punhos e...

O Leitor Decide - Qual a Decisão de Ana:  a) Atira-se em direcção às ondas ou b) Dá meia volta e regressa ao carro

Campral

Se quiser que Ana atire-se em direcção às ondas siga para a página 128, caso ache que ela deva dar meia volta e regressar ao carro vá para a página 497.

Lúcia arregalou os olhos perante a necessidade de tomar uma decisão, algo que ela não esperava ter de fazer quando tinha comprado aquele livro.

Na verdade a decisão de o adquirir não tinha sido dela, mas sim do alfarrabista que visitava há anos, que literalmente a obrigou a comprar aquele exemplar decrépito, prometendo que ela não se ia arrepender, que a história era fascinante, absorvente, e que um livro assim precisava de estar com uma mulher como ela.

Lúcia normalmente não ia em conversas e comprava apenas aquilo que realmente lhe dava na gana, mas houve algo nos olhos do alfarrabista que a fizeram entregar-lhe a nota de 10 euros e enfiar o livro na bolsa, deixando o velho homem com um gigantesco sorriso de satisfação.

E agora ali estava ela, em casa, agarrada ao livro, a pensar qual a decisão que Ana deveria tomar.

Não conseguia compreender porque é que estava stressada, afinal era uma história, não é como se fosse realmente decidir a vida de uma pessoa verdadeira, mas ao mesmo tempo algo dentro dela sorria por ter o controlo, por poder brincar aos deuses em vez de ser sempre ela subjugada ao destino. Naquele momento, independentemente de ser ficcional, Lúcia era a Deusa-Toda-Poderosa que decidia se aquela mortal se atirava contra as rochas ou se por outro lado lhe dava uma nova oportunidade de viver.

Depois de muito ponderar decidiu que a deixaria viver, e foi de forma ansiosa que folheou o livro até chegar à página 497.

*Respirou fundo mais uma vez, cerrou os punhos e......deu meia volta.

Apesar de naquele momento odiar a vida, Ana não tinha a coragem suficiente para encontrar a morte. Tal como não tinha tido a coragem para ir procurar o marido e cuspir-lhe na cara, ou de telefonar ao filho e dizer que se ele não a queria ajudar então ela também não tinha obrigação de lhe transferir todos os meses para a conta uma mesada.

Era uma cobarde, e por mais ódio que sentisse dela própria não conseguia por um ponto final naquela história. Lá dentro, em algum lugar recôndito, havia uma esperança de que as coisas poderiam melhorar, de que ainda havia um lado B da vida que ela ainda não tinha encontrado.

Entrou para o carro, trancou a porta e entregou-se a um choro compulsivo, com um torrencial de lágrimas a toldar-lhe a vista. Chorava o passado, o presente e o futuro, e foi essa aceitação da sua fragilidade enquanto ser humano que a impediu de ver a figura negra encapuçada que se encaminhava na direcção da sua viatura.

Quando Ana se deu conta já era tarde demais, e só teve o instinto de proteger a cara dos milhares de pequenos pedaços de vidro que foram projectados após a figura partir com uma pedra o vidro da janela do carro.*

PUM PUM PUM

Lúcia deu um salto do sofá quando ouviu as pancadas na porta de entrada. Primeiro pensou que pudesse ter sido uma partida da sua mente, mas segundos depois a porta voltou a vibrar.

PUM PUM PUM

Quem estava a bater parecia não quer anunciar a sua chegada mas sim quase deitar a porta abaixo para entrar. Lúcia estava pálida e mesmo sem dar conta tinha sustido a respiração.

O Leitor Decide - Qual a Decisão de Lúcia: a) Vai espreitar para descobrir quem bate à porta ou b) Silenciosamente fecha-se na casa-de-banho.

Victan

Durante um momento ponderou a hipótese de se trancar na casa-de-banho e ligar para o 112, mas rapidamente ralhou mentalmente consigo mesmo por estar a ser uma medricas. Aquela zona da cidade onde morava era extremamente segura e ela era uma mulher forte e independente, e não fazia o mínimo sentido ficar assustada porque alguém estava a bater à porta - só podia ser efeito do suspense do livro que lhe estava a afectar o sistema nervoso.

Lúcia levantou-se, convencendo-se de que não havia problema nenhum nem razão para estar com medo, apesar das suas pernas trémulas dizerem o contrário.

Aproximou-se do óculo e espreitou com o coração na boca, ansiosa por ver quem estava do outro lado.

O óculo tinha sido tapado com uma folha de jornal ou assim parecia, impedindo Lúcia de ver o corredor do andar em que morava. As pancadas na porta também tinham cessado e não se ouviam nem passos nem nenhuma respiração, sinais de que poderia haver alguém do outro lado.

Num rasgo de confiança escancarou a porta e deu de caras com o vazio. Da pessoa que lhe tinha batido à porta nem rasto. 

Virou-se na direcção do óculo da porta para retirar o pedaço de papel que o cobria quando percebeu que a folha do jornal afinal era uma página de um livro. Uma ideia mirabolante atravessou-lhe o cérebro, poderia aquela ser uma página do seu livro?

Pegou nela, fechou a porta e correu para o livro abandonado no sofá. Ficou atónita quando percebeu que aquela página era a continuação da que estava a ler, tinha sido arrancada muito habilmente quase não deixando vestígio da sua existência, não fosse o salto de paginação. 

Teria sido o alfarrabista que, não querendo que a sua leitura ficasse afectada, tivesse resolvido entregar-lhe a página? Mas sendo assim como é que ele sabia onde ela morava? Será que a tinha seguido até casa? E que coincidência espantosa ter recebido aquela folha impressa no exacto momento em que iria precisar de a ler.

Mas e se não tivesse sido o alfarrabista?

Lúcia obrigou-se a deixar de ser paranóica e cingir-se às evidências. Algo ou alguém tinha-lhe entregue uma parte do livro que precisava, e esse algo ou alguém tinha desaparecido, por isso a coisa mais óbvia a fazer era continuar a leitura.

*Quando Ana se deu conta já era tarde demais, e só teve o instinto de proteger a cara dos milhares de pequenos pedaços de vidro que foram projectados após a figura partir com uma pedra o vidro da janela do carro.

Viu aterrorizada uma mão aberta a tentar alcançar a sua garganta, e a única coisa que o seu instinto primitivo de sobrevivência lhe gritou aos ouvidos foi FOGE, enquanto mordia violentamente o polegar do seu agressor, para evitar ser estrangulada naquele preciso momento.

Rodou a chave, destravou o carro e carregou no acelerador. Tinha-se esquecido completamente que estava numa descida e tinha deixado o veículo em marcha-atrás, e foi por milímetros que não bateu no muro do estacionamento, mas tinha sido o suficiente para se por momentaneamente a salvo.

Precisa de fugir dali, precisava de fugir, PRECISAVA DE FUGIR!!!!!!

Colocou a primeira e carregou a fundo no acelerador, fazendo o carro dar um verdadeiro salto e bater na figura negra encapuçada, projectando-a pelo ar.

Ana parou uns bons metros à frente, com o peito quase a explodir de adrenalina e com uma dificuldade horrível para respirar. Abriu o porta-luvas e colocou tremulamente um comprimido para a ansiedade debaixo da língua, porque sentia que a qualquer altura o seu corpo podia colapsar e desmaiar.

Quando conseguiu ficar ligeiramente mais calma olhou pelo espelho retrovisor e viu a figura estendida no chão sem se mexer. Estaria morta?*

O Leitor Decide: Qual a Decisão de Ana: a) Sai do carro e vai ter com a figura ou b) Continua a conduzir até estar em segurança e liga para a polícia.

Haldol

Ana decidiu que não se ia colocar mais em risco. Tanto podia estar efectivamente morta como podia estar viva e à espera que ela se movesse pela curiosidade de saber quem era a figura para lhe desferir uma facada fatal no pescoço.

Continuou a conduzir até estar a uma distância segura, altura em que estacionou na berma da estrada, tirou o telemóvel do bolso e ligou para o 112.

Quando do outro lado da linha ouviu uma voz despejou entre lágrimas e soluços a sua história, de como alguém desconhecido lhe tinha partido o vidro do carro para depois a tentar estrangular, e como ela na sua ânsia de fugir tinha deixado um corpo atropelado para trás.

O operador pediu-lhe que se acalmasse e que não saísse de onde estava, que iria enviar um carro da polícia ter com ela o mais rapidamente possível.

Ana saiu do carro com todos as moléculas do seu corpo a vibrar descontroladamente. Colocou mais um dos comprimidos para a ansiedade debaixo da língua e respirou fundo. Precisava de se controlar e de ter a cabeça fria para quando os polícias chegassem. É verdade que ela tinha sido atacada mas não era menos verdade que ela tinha atropelado alguém e fugido sem prestar auxílio! Será que poderia ser presa por homicídio?

Nem dez minutos tinham passado quando o carro da polícia chegou. Lá dentro vinham dois homens, um alto, louro, com bigode farfalhudo, e um mais baixo, com umas ripas de cabelo seboso e um perímetro abdominal que faria pesadelos a qualquer nutricionista.

O polícia louro trocou algumas palavras com o colega antes de sair do carro e ir em direcção a Ana, que lhe explicou detalhadamente tudo o que tinha acontecido, esforçando-se ao máximo para não começar a chorar descontroladamente.

Depois de a ouvir atentamente, o polícia pediu-lhe para a acompanhar até ao local onde o suposto ataque tinha acontecido. Ana rangeu os dentes a ouvir o termo "suposto ataque" mas compreendia que aquela era a forma de actuar da polícia. Estava a começar a encaminhar-se para o carro deles quando o polícia louro lhe pediu, caso ela não se importasse, que preferia que fossem os dois no carro dela.

Pelo canto do olho Ana viu que o polícia seboso tinha desapertado o cinto e estava a atacar com vontade um dónut cor-de-rosa - que cliché digno de um filme rasca.

Em poucos minutos ela e o agente estavam no local do ataque, mas não havia qualquer sinal do corpo. 

- Tem a certeza que foi aqui que foi atacada Sra. Ana? - perguntou o polícia com um sorriso escarninho no rosto. - É que não encontro nem sinais de sangue nem de estilhaços de vidro ou qualquer outra coisa que possa indiciar que tenha havido uma tentativa de homicídio. Já agora - continuou ele sem lhe dar tempo para responder - o que é que estava aqui a fazer? Esta altura do ano não é a mais indicada para vir tomar banhos de sol não acha?

Ana sentiu-se a ficar ruborizada e logo depois branca como o cal. Não queria dizer àquele homem que tinha vindo ali na intenção de se suicidar. Iria ele achar que ela estava louca? Ou pensaria que tudo não passava de uma invenção de uma mulher com demasiado tempo livre? A pergunta que ele fez a seguir deu-lhe a certeza de que ele não acreditava em nada do que ela tinha contado.

- Sra. Ana, tomou algum estupefaciente que pudesse, digamos, tê-la feito imaginar coisas?

- Eu não imaginei nada Sr. Agente, tudo o que eu lhe contei é a mais pura das verdades!!! - quase que gritou Ana com os olhos marejados de lágrimas de fúria.

- Ok, ok, não precisa de se exaltar. De qualquer das formas não há mais nada que possamos fazer aqui. Vou levá-la à esquadra para recolher o seu depoimento e depois decidiremos o próximo passo a tomar. Permita-me que eu conduza o carro de forma a você descansar um pouco.

Ana anuiu com a cabeça. Estava completamente de rastos e a última coisa que queria era voltar a pegar no volante.*

O alarme do telemóvel de Lúcia tocou, relembrando-a que em uma hora tinha que se encontrar com Jaime no novo restaurante italiano da cidade.

Jaime era um ex-colega de trabalho que Lúcia tinha reencontrado no Instagram, e com quem tinha saído um par de vezes. Não se orgulhava de ter de usar redes sociais para encontrar homens, mas estava à demasiado tempo solteira e Jaime era um bom partido, tirando a obsessão patológica com as horas. Se Lúcia chegasse atrasada um minuto que fosse ele ficaria furioso, por isso fechou o livro e começou a preparar-se para tomar banho. A história podia ficar para depois.

Quando já estava a secar o cabelo, depois de ter lavado e exfoliado e tonificado o corpo todo, o telemóvel voltou a tocar, anunciando que tinha recebido uma mensagem. Provavelmente era Jaime a avisá-la que já estava a caminho e que esperava que ela não chegasse atrasada, mas quando carregou no símbolo do envelope e a mensagem se abriu o que a esperava era algo completamente diferente!

O Leitor Decide

Lúcia demorou alguns segundos a assimilar o conteúdo da mensagem.

Porque é que ela se tinha ido embora e o deixado lá? Lá onde? E quem é que lhe estava a enviar aquela mensagem? Uma ideia maluca passou-lhe pela cabeça mas não, não podia ser.

O telemóvel voltou a tocar, anunciando nova mensagem.

O Leitor Decide

Apoiou-se no lavatório porque uma sensação repentina de mau estar tomou conta dela, e foi por muito pouco que conseguiu controlar um arranque de vómito.

Quem é que lhe estava a mandar aquelas mensagens?

Só podia ser uma brincadeira de mau gosto relacionada com o livro que ela estava a ler, mas quem é que poderia estar a fazer aquilo? Quem é que saberia em que parte do livro estava ela agora? Obviamente que não podia ser a figura que Ana tinha atropelado no história que lhe estava a mandar as mensagens, era surreal, era simplesmente esquizofrénico.

Mas estava ali, no telemóvel dela, escrito preto no branco que ela teria de morrer, porque a outra não tinha morrido. Será que Lúcia devia ter escolhido de forma diferente?

Fechou os olhos com força e respirou o mais calmamente que conseguiu. Tudo aquilo tinha de ser um pesadelo, não era possível que aquilo pudesse estar a acontecer-lhe. Abriu os olhos e as mensagens continuavam lá, a brilhar de forma ameaçadora. Tinha de tomar uma decisão...

O Leitor Decide - Qual a Decisão de Lúcia: a) Pega no livro decidida a queimá-lo ou b) Vai ter com Jaime e conta-lhe o sucedido na esperança que ele a ajude ou c) Desmarca o encontro e vai à procura do alfarrabista que lhe vendeu o livro

Modafinil

Lúcia pegou no telemóvel e mandou uma mensagem rápida a Jaime:

Surgiu um imprevisto, não vou poder ir jantar. Desculpa. Depois falamos.

Sabia que se lhe contasse ele não iria acreditar, porque na realidade nem ela própria acreditava muito bem em toda aquela história, mas as mensagens que tinha recebido do número desconhecido continuavam a brilhar aterrorizantemente no seu telemóvel. Algo ou alguém tinha acabado de a ameaçar e ela não podia ficar simplesmente sem fazer nada.

Voltou a pegar no telemóvel e pediu um Uber para a levar até ao alfarrabista que lhe tinha vendido o livro. Podia ir de carro, mas estava demasiado nervosa para conduzir e aquela zona da cidade não era propriamente fácil para estacionar. A aplicação soltou um zumbido metálico mostrando-lhe que o seu motorista chegaria em 3 minutos.

Lúcia vestiu-se em tempo record, pegou na mala e lançou lá para dentro o livro. Talvez devesse queimá-lo, mas algo lhe dizia que não era isso que resolveria a situação.

O Uber já estava à espera dela quando saiu da porta do prédio. Era um Tesla cinzento com os vidros fumados, que deixou Lúcia ligeiramente surpreendida. Que ela se lembrasse não tinha pedido o upgrade de veículo, mas com os nervos se calhar tinha carregado em alguma parte da aplicação sem dar conta, mas isso também não era importante.

Abriu a porta, entrou para dentro do carro e cumprimentou o motorista, que apenas lhe lançou um olhar mortiço pelo espelho retrovisor.

Os motoristas estavam cada vez mais simpáticos, pensou Lúcia com ironia, mas pelo menos não tinha que fazer conversa fiada. Fechou os olhos embalada pelo silencioso deslizar do carro e quase desejou adormecer, na esperança de quando acordasse tudo não tivesse passado de um sonho mau. Mas não, tinha que ser forte, ir ter com o alfarrabista e arrancar-lhe as respostas que ela precisava, de uma forma ou de outra.

Faltava um quarteirão para chegar ao seu destino quando subitamente o veículo virou à direita afastando-se da loja do alfarrabista. A estrada não estava cortada nem havia sequer trânsito que justificasse aquela mudança de rota, por isso porque raio é que estavam a ir noutra direcção?

Desculpe - disse Lúcia - acho que se enganou. Era suposto continuar em frente.

O motorista voltou a olhar pelo espelho retrovisor mas não disse sequer uma palavra. Apenas um ligeiro sorriso assomou nos seus finos lábios. Um sorriso que gelou Lúcia dos pés à cabeça.

DESCULPE, MAS ESTAMOS NA DIRECÇÃO ERRADA. ESTÁ-ME A OUVIR?

Naquele momento ela já estava fora de si. Do banco do condutor não vinha qualquer resposta e o carro continuava a deslizar silenciosamente, dirigindo-se para uma zona da cidade que estava abandonada e só era frequentada por sem-abrigo e toxicodependentes.

O carro parou e antes de Lúcia sequer perceber o que se estava a passar o motorista virou-se para trás e tentou alcançar-lhe a garganta com a mão aberta, exactamente como tinha acontecido com Ana no livro, por isso num impulso também ela lhe mordeu o polegar violentamente.

O homem recuou com a dor durante um instante o que deu a Lúcia a oportunidade de se atirar para o fecho da porta tentando abri-la, só que estava trancada centralmente. 

Aquilo não lhe podia estar a acontecer, aquilo não podia ser verdade, porque é que aquele homem estava a atacá-la?

O motorista voltou à carga e lançou-lhe as duas mãos ao pescoço, apertando com tanta força que Lúcia temeu que ele se partisse em dois. Tinha de fazer alguma coisa antes de ficar sem ar e desmaiar.

Eu tenho dinheiro, se é dinheiro que quer eu tenho muito - balbuciou ela na esperança que ele a largasse.

Ela não morreu, por isso agora tens de morrer tu! - sibilou o homem com os olhos injectados de sangue, apertando cada vez com mais força o pescoço dela.

Era o fim, não ia conseguir fugir, a não ser que.....

O Leitor Decide: Qual a decisão de Lúcia: a) Finge que desmaiou para o homem a largar e depois tentar fugir ou b) Tenta procurar na mala algo para usar como arma ou c) Bate com os pés no vidro do carro na tentativa de chamar a atenção de alguém ou d) Oferece o livro ao homem em troca de a deixar ir embora

Atropa Beladona

...fingisse que desmaiava para o homem a largar.

Nessa altura, quando ele estivesse desprevenido, tentaria fugir para fora daquele carro e correr o mais depressa possível para uma zona em segurança.

Lúcia colocou o plano em prática, deixando cair a cabeça para trás e fechando os olhos de forma vagarosa, como se toda a energia do seu corpo a tivesse abandonado.

Só que o homem continuava a apertar o seu pescoço, cada vez com mais força, como se ele quisesse assegurar-se de que ela estava efectivamente morta.

Lúcia já não aguentava mais, os seus pulmões gritavam desesperadamente por ar e o homem continuava com as mãos à volta do seu pescoço. Tentou ao máximo manter a farsa, o ar sereno e sem vida, mas os instintos do corpo foram mais fortes e esbugalhou olhos e boca, enquanto que as mãos tentavam desesperadamente agarrar um pedaço de oxigénio.

Espertinha, achas mesmo que ia cair nessa? - riu-se o homem sarcasticamente, antes de lhe pegar pelos cabelos e bater com a cabeça no vidro do carro, fazendo Lúcia perder automaticamente os sentidos.

*

Acordou estremunhada com uma dor horrível na cabeça. Uma pasta de sangue cobria-lhe os cabelos e o cheiro metálico fez-lhe ter um arranque de vómito. Onde é que estaria?

Os olhos ainda não se tinham acostumado à escuridão por isso voltou a bater com a cabeça quando se tentou sentar. Mas que local seria aquele?

O deslizar das rodas e o barulho do motor rapidamente deram-lhe a resposta: tinha sido presa no porta-bagagens do carro.

O veículo inclinou-se para subir algo, projectando o corpo de Lúcia contra uma das paredes do porta-bagagens, como se fosse uma boneca de trapos.

O motor desligou-se. Ouviu uma porta a abrir e a fechar-se com estrondo. Risos. Será que a vinham buscar? 

Pum Pum Pum

Três sonoras pancadas ressoaram mesmo por cima da sua cabeça.

Querida, é só para te desejar uma boa viagem - a voz era a do motorista.

O porta-bagagens não se abriu, mas ao invés o som de uma maquinaria pesada invadiu o espaço.

Lúcia não precisou de muito para perceber aterrorizada o que tinha acontecido. Estava num ferro-velho e o carro ia ser triturado. Bastaram breves segundos para o seu corpo transformar-se numa mescla de ossos e tendões com partes metálicas.

FIM

Não ficaram satisfeitos com o fim da história? Acham que Lúcia devia ter tomado outra decisão? Podem escolher um caminho diferente, não deixem a Lúcia morrer desta forma, ela precisa de vocês!

O Leitor Decide: Qual a decisão de Lúcia: a) Finge que desmaiou para o homem a largar e depois tentar fugir ou  b) Tenta procurar na mala algo para usar como arma (2 Votos) ou c) Bate com os pés no vidro do carro na tentativa de chamar a atenção de alguém (4 Votos) ou d) Oferece o livro ao homem em troca de a deixar ir embora (3 Votos)

Era o fim, não ia conseguir fugir, a não ser que.....

... batesse com toda a força possível com os pés no vidro do carro para chamar a atenção de algum dos sem-abrigo que estava naquela área.

Lúcia rodou o corpo de forma a ficar com as pernas a apontar para a porta do carro, flectiu os joelhos e disferiu uma patada com toda a força que ainda possuía no vidro.

O homem ficou visivelmente surpreendido com a reacção dela porque deixou de lhe apertar o pescoço durante alguns instantes, dando-lhe tempo de encher sequiosamente com ar os pulmões e gritar mais alto do que algum vez tinha gritado na sua vida.

-SOCORRO, ALGUÉM ME AJUDE POR FAVOR!

O motorista desatou a rir-se, um riso mau de escárnio, que lhe rasgava a boca de tal forma que era visível o espaço vazio causado pela falta de um par de dentes de trás.

Pensei que estavas a tentar partir o vidro, que só por acaso é blindado - disse ele com a voz carregada de troça - mas afinal estavas a tentar chamar a atenção de alguém! - Uma nova onda de gargalhadas invadiu o veículo. - Estavas à espera que aparecesse um drogado com uma capa de super herói para te ajudar era minha parvinha?

Antes que Lúcia pudesse pensar em outra forma de escapar o homem fez um gesto rápido e seco e partiu-lhe o pescoço em dois.

*

A porta do carro abriu-se e o corpo de Lúcia escorregou inanimado para o chão. Meia dúzia de toxicodependentes sem-abrigo tinham sido atraídos pelo barulho do pontapé no vidro e pelo pedido de socorro, e esperavam ansiosamente que o carro se afastasse silenciosamente nas sombras da noite.

Quando ele dobrou a esquina precipitaram-se quais abutres sobre o corpo de Lúcia. Não lhes interessava minimamente saber se estava ainda viva ou não, apenas queriam encontrar algo de minimamente valioso.

Um deles descobriu a bolsa que tinha sido arremessada pela janela e vasculhou avidamente o seu interior carregado de tudo e mais alguma coisa. Debaixo de um livro velho que atirou para a sarjeta encontrou algo que lhe fez brilhar os olhos de contentamento - a carteira cheia de notas de 20 euros. Arrebanhou-as com um sorriso e correu para longe dos outros drogados com o sentimento de ter ganho a lotaria. Já podia comprar heroína suficiente para uma semana.

FIM

O Leitor Decide

 

Não ficaram satisfeitos com o fim da história? Acham que Lúcia devia ter tomado outra decisão? Podem escolher um caminho diferente, não deixem a Lúcia morrer desta forma, ela precisa de vocês!

 

O Leitor Decide: Qual a decisão de Lúcia: 

a) Finge que desmaiou para o homem a largar e depois tentar fugir 

b) Tenta procurar na mala algo para usar como arma 

c) Bate com os pés no vidro do carro na tentativa de chamar a atenção de alguém

d) Oferece o livro ao homem em troca de a deixar ir embora 

 

Fico a aguardar o vosso voto nos comentários!

O Rapaz do Pijama às Riscas

16.05.20, Triptofano!

Claro que tudo isto aconteceu há muito tempo, e nada parecido poderá voltar a acontecer.

Não nos dias de hoje, não na época em que vivemos.

O Rapaz do Pijama às Riscas

Obra publicada pela Leya

O Rapaz do Pijama às Riscas foi o primeiro livro que li este ano e antes de me vir parar às mãos esteve nas da minha mãe, que em menos de um fósforo o leu, atravessando fases de riso, de revolta, de compaixão e de choro.

A história foca-se em dois rapazes, Bruno e Shmuel, nascidos no mesmo dia mas com destinos completamente diferentes, cada um do seu lado da barricada na horrível guerra que foi o Holocausto.

Se a leitura em si é fácil e fluida, é inevitável que o tema que o livro aborda, o dos horrores cometidos nos campos de concentração, nos faça reflectir sobre o potencial de perversidade do ser humano.

Mas uma coisa assim, um genocídio dos direitos humanos, nunca poderia acontecer na época em que vivemos pois não?

Ou será que podia?

                                                                                                                                                                    Classificação do Triptofano:

 

Desafio do Conto - Clariana e a Metamorfose da Noite

15.05.20, Triptofano!

Quando o Filipe me convidou para participar no Desafio do Conto não pude deixar de sorrir. Primeiro porque tenho acompanhado a história e a pobre Clariana a este ritmo vai acabar careca, tal é o número de peripécias em que se envolve. Segundo porque estava mortinho para enfiar a minha colher e a transformar num faqueiro de 96 peças.

O meu obrigado especial à Ana de Deus, que lançou a primeira pedra nesta empreitada, a todos os que ajudaram a construir o destino da Clariana e por fim à Maria Araújo, que desafio a continuar este conto e que sei que vai fazer o seu melhor para não colocar a moça em mais encrencas! 

Clariana e o Ganso - Ilustração de Olga Cardoso PintoINTRODUÇÃO POR ANA DE DEUS

Era uma vez uma jovem mulher, de seu nome Clariana, que pastoreava gansos. Ela era o primeiro ser vivo que os gansos reconheciam, desde tenro berço, e eram lhe totalmente fiéis. Aprendera com o avô todos os segredos desta mestria.

PRIMEIRA COLABORAÇÃO POR: AMOR LÍQUIDO

Clariana era a mais velha de três irmãos, todos eles filhos de Izabel e João Bernardo. Uma família de origens humildes que ocupava os seus dias na tranquilidade do campo, entre a lavoura do trigo, da batata, e a agropecuária. Izabel ocupava-se de todos os assuntos relacionados com a atividade económica do que produziam, contando com a ajuda de Clariana no terreno, junto dos animais, e Juca, a forma carinhosa como o pai era tratado, debruçava-se sobre a contabilidade da família. Os gémeos Tiago e Guilherme eram ainda pequenos, pelo que o seu maior contributo era a alegria constante que ofereciam àquela herdade. Construída em 1950, tinha sido herdada pela filha do avô Eurico. 

COLABORAÇÃO DA BII YUE

A vida era pacata, a rotina de vida campestre pouco variava até um dia, que Clariana estava a alimentar os seus gansos e vê um vulto a esconder-se por entre as árvores. Com o coração a bater de medo, mas com a sua faceta corajosa a vir ao de cima, começa a caminhar devagar e numa tentativa de fazer barulho. O vento fazia com que as folhas batessem umas nas outras, os gansos grasnavam baixinho. O vulto parecia estático e Clariana tentava movimentar-se silenciosamente, sentia o suor frio a escorrer pela sua pele, o seu corpo tremia com o medo e adrenalina. Estava bastante perto do vulto quando os gansos começam a grasnar alto e entram em luta uns com os outros, com o susto ela manda um grito, olha na direção dos gansos e quando volta o seu olhar para as árvores não podia acreditar no que via.

COLABORAÇÃO DO JOSÉ DA XÃ

Uma velha muito velha, baixa, de faces lavradas pelos anos e quiçá pelas demasiadas intempéries, olhava com curiosidade para a pastora. Nas mãos, magras e engelhadas, balançava um cajado preto da sujidade e assaz puído do uso.

Trajava uma roupa suja, aqui e ali deveras esfarrapada. O cabelo cinza encontrava-se escondido por debaixo de um lenço, também ele viúvo de cor e lavagens. No entanto os olhos pequenos e escuros permaneciam muito atentos ao que se passava em seu redor.

Entre o susto e o espanto Clariana encheu o peito de ar e enfrentou a anciã:

- Quem é vossemecê?

A idosa pareceu querer sorrir, mas a única coisa que conseguiu mostrar foi uma boca desdentada. Aproximou-se e passou os dedos sujos pelo cabelo bonito da jovem. Depois pela face. Esta desviou-se para trás alguns passos.

Curioso é que os gansos, sempre tão barulhentos, haviam-se silenciado por completo.

- Diga lá quem é vossemecê? – insistiu em tom peremptório, sem denunciar qualquer receio.

Novo sorriso da idosa que mais parecia um esgar… Por fim endireitou-se, abriu os braços e aproximou-se novamente da miúda, como se a quisesse envolver nos seus trapos rotos e nojentos.

 Disse então numa voz rouca e cavernosa:

COLABORAÇÃO DA ZÉ

- Como assim, quem sou eu?!... que raio de pergunta é essa Clariana?!...

- Vossemecê não se faça de desentendida e diga-me quem é, que eu já começo a perder a paciência!!! – disse, franzindo o sobrolho, em sinal de desagrado.

- Eu sou tu!... bem-vinda ao futuro! – disse a velha, abrindo os braços na sua direcção e soltando uma estridente gargalhada!

Clariana empalideceu, as pernas tremeram-lhe e caiu desamparada no chão.

Os gansos, agitados, começaram a grasnar de forma intempestiva, gerando um ruído ensurdecedor que atraiu a atenção de quem passava.

Clariana sentiu uma mão macia a afagar-lhe o rosto, abriu os olhos lentamente e foi surpreendia pela imagem de um belo jovem ajoelhado a seu lado, que lhe perguntava:  - a menina está a ouvir-me?!...

Assustada, e sem perceber o que havia ocorrido, tentou levantar-se rapidamente mas a sua tentativa foi infrutífera… a cabeça pesava-lhe e parecia que tudo girava à sua volta…

O rapaz disse-lhe, com voz doce: - fique calma e não tente levantar-se… a menina caiu e perdeu os sentidos… vamos levá-la ao hospital para fazer alguns exames e garantir que está tudo bem. Eu acompanho-a na ambulância!

COLABORAÇÃO DA LUÍSA DE SOUSA

Clariana não queria acreditar na beleza do jovem rapaz. Louro, elegante, bem vestido e cheio de modos da cidade. Nunca tinha visto um rapaz tão bonito! E queria acompanhá-la ao hospital!

- Não se preocupe, eu estou bem, foi só uma queda. Em vez de irmos ao hospital poderíamos ir ver como estão os meus gansos! Tenho a certeza que vão simpatizar consigo! – disse Clariana.

O jovem rapaz concordou, pois achou a ideia maravilhosa. Como vivia na cidade, nunca tinha visto gansos. Esta seria uma oportunidade maravilhosa para escrever sobre animais de quinta na sua tese de mestrado.

Assim que se aproximaram da casa de Clariana, os gémeos vieram a correr abraçar a irmã. O jovem rapaz ficou encantado com a cumplicidade que reinava naquela família.

Izabel, assim que viu a filha a aproximar-se com o belo rapaz, pensou que seria um bom partido para "desencalhar" Clariana, e, amavelmente veio cumprimentá-lo.

Juca, ao contrário, não gostou nada de ver a sua Clariana com um estranho, ainda mais um rapaz da cidade, que com certeza queria aproveitar-se da jovem do campo. Foi ao armazém buscar a caçadeira e saiu a disparar, “que nem um louco”, por todos os lados …

COLABORAÇÃO DA ISABEL

Alguns pardais, apanhados desprevenidos pelos tiros, desalvoraram pelos céus a pensar no que se teria passado.

 -Oh paizinho, pelo amor de Deus, este simpático rapaz ajudou-me depois de eu ter desmaiado e nem queiras saber porquê, ainda estou para saber se encontrei uma bruxa ou se alucinei.

 - Oh homem tem calma, não há razão para isso tudo, olha se tens acertado em alguém, tinhamos a vida desfeita - disse Izabel - E o senhor desculpe esta reação do meu marido, mas quando diz respeito à filha, perde as estribeiras.

 - Claro, compreendo. Já agora o meu nome é Rodrigo, Rodrigo Mendonça. Peço desculpa pela intromissão, mas assustei-me quando vi a sua filha desmaiada.

 - E tu filha, estás bem? Tens a certeza que não é preciso ir ao hospital?

 - Estou bem mãe, não passou de um susto. Convidei o Rodrigo para vir ver os gansos. Não fiz mal, pois não?

 - Claro que não filha, e Rodrigo, o almoço está quase pronto, gostaria de nos fazer companhia? É um agradecimento pelo que fez.

 - Bem, realmente não tenho pressa de seguir caminho, por isso, aceito com muito gosto.

Aí, João Bernardo viu-se na obrigação de pedir desculpas, que foram imediatamente aceites pelo jovem.

Mas foi quando...

COLABORAÇÃO DA OLGA CARDOSO PINTO

Rodrigo se virou, para ir acomodar-se à mesa, eis que Juca se apercebeu de algo a remexer-se sob a gabardina. E agora que reparara com mais pormenor, o rapaz caminhava de um jeito estranho. Tentou aproximar-se, mas Rodrigo acabara de se sentar, tinha perdido a oportunidade.

A tarde foi decorrendo num lento remanso, só se ouvia a passarada lá fora e a voz melodiosa de Rodrigo. Talvez fosse do tempo ameno ou da conversa desfiada, em tom relaxado e levemente sibilado pelo jovem, todos estavam a ficar ensonados. As pálpebras pesavam aos pais, não conseguiam evitar o bocejo constante. Porém, Clariana estava embevecida, sorvendo as palavras de Rodrigo que lhe pareciam mel, num encanto que a envolvia numa dormência irresistível. Juca e Izabel não resistiram e acabaram adormecendo de cabeças encostadas, em ligeiros roncos e desfalecidos, pesadamente recostados no banco arca da cozinha.

A noite caíra. O céu adornado pelo pontilhado brilhante das estrelas, refulgiu quando as nuvens revelaram uma imensa lua cheia. Clariana acordou sobressaltada, não sabia onde estava. Sentia frio. Olhando em volta levantou-se, perguntando assustada:
— Onde… Onde estou? — ouviu passos no cascalho e apercebeu-se que estava numa gruta ao ouvir o eco da sua voz.

COLABORAÇÃO DA SARIN

Um gemido respondeu ao eco ecoando quando Clariana se ergueu, os olhos procurando quem assim plangente. Não era gente mas a Noite, dorida da queda antecipada pela voz dourada de Rodrigo, Clariana amargando o mel que lhe escorrera nos ouvidos e tentando encontrar um norte ou um sul para aquele tão sem sol onde se encontrava. A Noite percebeu-a perdida e um sorriso iluminou-lhe os brancos dentes perfeitos na cara de lua cheia, o traje de lua nova esvoaçando no estender de mão daquela criança.

- Nada temas, Clariana, eras esperada. Mas não te sabia tão perto e precipitei-me...
- Estás magoada?
- Estou, mas melhorarei, agora que tu aqui. Vem, adentremos a Gruta dos Tempos e ouçamos Eurico, o presbítero que a habita. O Avô vai adorar receber-te!
A saudade em Clariana suspirou, cheia de penas.
- O meu Avô também era Eurico. Foi quem me ensinou a amar os gansos e…
E a Noite, impaciente, cortando:
- Sim, eu sei, o Avô já me contou. E por te saber tão boa aluna enviou o Ganso Rodrigo para te trazer… o nosso Futuro precisa de tal arte!
Clariana olhou-a e percebeu nela um espelho, as semelhanças luzindo e as (...)

COLABORAÇÃO DO FILIPE VAZ CORREIA

As entrelaçadas rugas que uniam, uniriam naquele instante, memórias da velha bruxa de outrora, desta noite que ali a espera, da menina que ali se encontra.

No meio das dúvidas, das vozes, da luz trancada naquela gruta, algo maior se levantava, por entre o assobio do vento que parecia correr por aqueles túneis, num rebuliço constante e permanente.

- Para onde vais, Clariana? -Por que trilhos te leva este presente, futuro?

Palavras que ecoavam em sua mente.

No meio da estreita gruta, um lago profundo, repleto de cristais-de-rocha, num fumegar de águas tão azul como intenso.

Os sons dos Gansos que ali não estando, pareciam se perpetuar...

- Clariana! Parecia a voz de seu avô.

-Avôzinho? Questionava emocionada a jovem menina.

Do fundo daquele lago, daquele local especial, repleto de uma estranha e intrigante magia, algo parecia surgir...

Um suspirar intenso, imenso...

Cores e luzes misturadas com o agitar de águas...

Uma cabeça, um focinho, dois olhos desmesuradamente gigantes, num reflexo penetrante e asfixiante.

Um dragão...

- Quem sois vós?

 Clariana caiu com o tamanho susto, o medo que lhe tocara a alma.

- Quem sois vós? Insistia a pequena Clariana.

- Não tenhais medo! Expressava aquele Dragão chegando cada vez mais perto, da menina, o seu focinho.

Aquela voz...

- Avô?

- AVÔÔÔ?!?!

Ana Clara ergueu-se da cama acordada pelo seu próprio grito, encharcada em suor.

Demorou alguns minutos para perceber onde se encontrava, no seu quarto no centro do Porto. A cabeça latejava e quase que ia jurar que tinha febre. Será que estava infectada com o Covid?

Enquanto bebia um sôfrego gole de água começou a recordar as últimas horas. A saída à noite com as amigas, a insistência delas para experimentar um comprimido de LSD, a libertação do corpo ao som da música e depois…um sonho mirabolante com grutas e dragões, velhas enrugadas e uma vida no campo a cuidar de gansos.

Logo ela, filha de médica e advogado perdida numa fantasia de agrobeta.

Ana Clara não conseguiu conter uma gargalhada de escárnio, que foi imediatamente interrompida por um ataque de tosse. Se calhar tinha mesmo apanhado o Covid!

Quando finalmente deixou de tossir sentiu que algo lhe tinha vindo parar à boca, uma coisa que lhe provocava pequenas cócegas nas bochechas. Cuidadosamente retirou o corpo estranho e incrédula deparou-se com uma pena de ganso, que não era da almofada.

Será que o sonho não tinha sido um sonho?

Vamos fazer um Upgrade da nossa Caixa de Comentários?

14.05.20, Triptofano!

Se repararem, a maior parte dos blogs aqui do Sapo que visitam tem uma caixa de comentários com esta apresentação!

Vamos fazer um Upgrade da nossa Caixa de Comentários?

Se calhar já notaram, mas a caixa de comentários aqui do blog é ligeiramente diferente, permitindo a formatação do texto, com as opções de negrito, itálico, sublinhado, a colocação de marcações e até mesmo de hiperligações para o comentário ficar todo mais bonitinho!

Eis um exemplo do que podem fazer na minha caixa de comentários:

Vamos fazer um Upgrade da nossa Caixa de Comentários?

E não, não é por eu ser o aminoácido mais giro de todo o sempre que tenho direito a esta caixa de comentários catita. É sim pelo facto da Sarin, a mulher que percebe de tecnologia 1000000 mais vezes do que eu, me ter ensinado a como fazer o upgrade da minha caixa de comentários.

Vejam como é simples:

Vamos fazer um Upgrade da nossa Caixa de Comentários?

Basta irem ao menu definições - comentários - e seleccionarem a opção Rich Text na quinta entrada, onde diz Caixa de comentários, e clicarem em Guardar.

Nada mais fácil e assim, em menos de um minuto, acabaram de fazer o upgrade da vossa caixa de comentários!

 

 

Ficção Apocalíptica: Os livros do fim do mundo essenciais desta quarentena!

13.05.20, Triptofano!

Não gosto de fazer cópias descaradas de publicações de outras pessoas - acho que o conteúdo deve ser o mais original possível, mesmo que muitas vezes as fontes sejam as mesmas - mas quando vi a lista de livros do fim do mundo essenciais para esta quarentena do Los Angeles Times, soube que tinha de a plagiar.

Não porque seja o maior fã de livros de ficção apocalíptica e tenha tido um orgasmo ao ver os títulos, mas porque fiquei inchado de orgulho ao deparar-me com a recomendação do Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago.

Numa altura em que existe uma necessidade urgente de valorizarmos o que é português, é bom saber que lá fora há quem não se esqueça de nós, mesmo que por vezes nós tenhamos ataques de amnésia.

Sem mais deambulações filosóficas fica a lista, e aproveito para perguntar se já leram algum dos livros mencionados!

Ficção Apocalíptica: Os livros do fim do mundo essenciais desta quarentena!

"Um Cântico para Leibowitz" de Walter M. Miller Jr. - A acção deste livro, publicado pela primeira vez em 1959, passa-se num mosteiro católico localizado num deserto dos Estados Unidos da América, depois de uma Guerra Nuclear, que praticamente destruiu a humanidade. A história desenvolve-se em três períodos separados por vários séculos, à medida que a civilização é reconstruida.

"Fahrenheit 451" de Ray Bradbury - Publicado pela primeira vez em 1953, este romance apresenta um futuro onde todos os livros são proibidos, as opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas, e o pensamento crítico é suprimido. A personagem central, Guy Montag, trabalha como "bombeiro" (o que na história significa "queimador de livros") sendo que o número 451 é a temperatura em graus Fahrenheit a que os livros entram em combustão espontânea, equivalente a 233 graus Celsius.

"Fiskadoro" de Denis Johnson -  60 anos após um holocausto nuclear, onde aparentemente apenas Florida Keys e Cuba sobreviveram, esta história distópica relata as tentativas dos sobreviventes de salvar resquícios do velho mundo e de reconstruir a sua cultura. Foi publicado pela primeira vez em 1985.

"O Último Homem" de Mary Shelley - Foi em 1826 que "The Last Man" viu pela primeira vez a luz do dia, para descrever uma futura Terra no final do século XXI, após ter sido devastada por uma pandemia desconhecida que rapidamente varreu o mundo.

"An Unkidness of Ghosts" de Rivers Solomon - A história passa-se numa nava geracional de seu nome Matilda, sendo que uma nave geracional é um tipo hipotético de nave interestelar que viajaria através de grandes distâncias entre as estrelas a uma velocidade muito mais lenta do que a velocidade da luz. Uma vez que essa nave poderia levar centenas ou milhares de anos para chegar até as estrelas vizinhas, os ocupantes “originais” da nave geracional iriam envelhecer e morrer, deixando os seus descendentes para continuar a viagem. Neste livro de 2017 relata-se uma segregação racial: os negros estão nos pisos inferiores fortemente policiados por guardas e supervisores cruéis, fazendo o trabalho duro que permite que os brancos nos pisos superiores acumulem riqueza, calor e conforto.

"The Four-Gated City" de Doris Lessing - The Four-Gated City, publicado em 1969, é o romance final da série semi-autobiográfica de cinco volumes da autora britânica Doris Lessing, que se passa numa Grã-Bretanha pós Segunda Guerra Mundial.

"The Apocalypse Triptych" - Três antologias publicadas entre 2014 e 2015, onde cada volume é definido por um estágio específico de um apocalipse. "The End is Nigh" contêm histórias que relatam a iminência de um apocalipse, "The End is Now" analisa como seria a vida durante um apocalipse, enquanto que "The End Has Come" retrata a vida daqueles que tentam reerguer a civilização das cinzas.

"A Estrada" de Cormac McCarthy - Este conto de ficção pós-apocalíptica de 2006, descreve a jornada empreendida por um pai e o seu jovem filho ao longo de um período de vários meses, através de uma paisagem devastada anos antes por um cataclismo sem nome, o qual destruiu a civilização e boa parte da vida na Terra. 

"Estação Onze" de Emily St.John Mandel - Uma pandemia de gripe que destruiu quase por completo a humanidade e um grupo de pessoas que arriscam tudo em nome da arte e da sociedade humana, levando música e representações de Shakespeare às comunidade dispersas de sobreviventes, são os alicerces para este livro de 2014.

"Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago - «Um homem fica cego, inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito. A cegueira alastra como “um rastilho de pólvora”. Uma cegueira colectiva. Romance contundente. Saramago a ver mais longe. Personagens sem nome. Um mundo com as contradições da espécie humana. Não se situa em nenhum tempo específico. É um tempo que pode ser ontem, hoje ou amanhã. As ideias a virem ao de cima, sempre na escrita de Saramago. A alegoria. O poder da palavra a abrir os olhos, face ao risco de uma situação terminal generalizada. A arte da escrita ao serviço da preocupação cívica.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998) Uma obra imperdível que nasceu em 1995.

Ingrid Goes West : #Vidas (Im)perfeitas

12.05.20, Triptofano!

Ingrid Goes West, ou #Vidas (Im)perfeitas em português, é um filme estadunidense de 2017 que agora chega à Netflix.

Ingrid Goes West : #Vidas (Im)perfeitas

Existem duas coisas logo de partida que precisam de saber: a primeira é que Ingrid Goes West não é uma comédia, nem negra nem de outra cor qualquer, mas sim um drama; a segunda é que Aubrey Plaza faz um papelaço de se lhe tirar o chapéu.

Ingrid Thorburn, a personagem que Aubrey Plaza dá vida no filme, é uma sociopata com traços psicótico-esquizofrénicos que vive para as redes sociais, o que faz com que desenvolva relações interpessoais tudo menos saudáveis, já que são obsessivas, manipuladas, ilusivas e com uma quantidade assustadora de stalking à mistura.

Na verdade, #Vidas (Im)perfeitas é daqueles filmes que se vê com um misto de vergonha alheia, ranger dos dentes e desconforto no estômago, levando-nos a pensar o quão vulneráveis estamos quando nos tornamos acessíveis através de um Instagram, de um Facebook ou mesmo de um blog.

Para grande parte das pessoas, a personagem de Ingrid é simplesmente uma mescla de loucura com desespero por atenção e uma auto-estima totalmente destruída algures no seu percurso, que nos faz deambular entre sentimentos de incredulidade, medo e pena.

Aqueles que infelizmente em alguma altura da sua vida já sofreram de stalking, irão ver Ingrid Goes West de uma forma ainda mais pesada, porque se em certas alturas o filme parece absurdo, a verdade é que quem persegue e assedia é capaz de fazer tudo e mais um bocado.

Quem persegue e assedia entranha-se, manipula, faz-se de vítima, vira o bico ao prego, mostra uma cara no geral mas possui outra bastante diferente no particular, começa de mansinho à espera de uma abertura para fincar as garras. São pessoas perigosas, para os outros e para elas próprias.

Ingrid Goes West serve para reflectir sobre o quão facilmente podemos vender uma ilusão mesmo quando nunca tivemos a nossa própria realidade, e se o fim a meu ver desaponta, todo o resto do filme merece os minutos que lhe dedicarmos.

Podem encontrar  a banda sonora de Ingrid Goes West no Spotify!

O que é uma Essência de Água?

Diferenças entre essência e serum!

11.05.20, Triptofano!

Recentemente chegou-me à farmácia a Essência de Água da Uriage, e a primeira coisa que eu fiz foi tentar perceber o que é na realidade uma Essência de água. Será um Serum, um Tónico, ou a Essência é um produto totalmente diferente?

O que é uma Essência de Água? - Essência de Água UriageUriage Essência de Água Iluminadora

Certamente já ouviram falar das famosas rotinas de beleza coreanas, com 10 a 12 passos, que mostram que ou as coreanas acordam às cinco da manhã ou não trabalham de todo, porque uma pessoa normal muitas vezes já luta para conseguir colocar creme e protector solar quanto mais 12 produtos. Pois bem, a Essência é um dos passos mais amados na rotina coreana, e é normal que agora este produto esteja a chegar em força aos mercados ocidentais.

A Essência é um produto aquoso, que possui uma leve concentração de ingredientes activos que vão fornecer à pele hidratação, trazer aquele brilho interno capaz de fazer parar o trânsito e dar uma ajuda na uniformização, tanto a nível do tom como da textura. Como uma Essência é aquosa e muito leve a evaporação da mesma vai ser rapidíssima, mas isso é perfeitamente normal por isso não pensem que foram enganados quando estiverem a colocar o produto e de repente já não sentirem nada.

Quando é que se usa uma Essência?

Se costumam usar Tónico vão perceber que uma Essência tem um aspecto e uma sensação na pele muito semelhante a este produto, mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Um Tónico serve para finalizar a limpeza, enquanto a Essência serve para iniciar o ritual de hidratação, deixando-nos a pele carregadinha de água mas sem gordura.

Se não usarem Tónico não há problema algum, depois de fazerem a limpeza com o vosso produto habitual colocam a Essência. Podem aplicar com um disco de algodão com pequenos toques até ao produto ser absorvido ou podem ser práticos e despejar na mão e esfregar na cara - é ao gosto do freguês.

O que é uma Essência de Água?   Wild Dew Treatment Essence

Então uma Essência e um Serum são diferentes?

Sim, uma Essência e um Serum são diferentes e a grande diferença vai estar a nível da composição e da textura.

Uma Essência vai estar sempre mais focada na hidratação, sendo que é muito comum ter ácido hialurónico na composição, e como tem uma concentração de ingredientes activos mais ligeira a sua textura será sempre aquosa. O facto de não ser tão concentrada não significa que não seja na mesma um produto eficiente, tornando-se a melhor opção para quem sofre de sensibilidade a nível do rosto ou eventualmente para quem tenha uma pele muito oleosa.

Um Serum pode estar ou não focado na hidratação - existem produtos para as rugas, para as manchas, para a firmeza, etc, - e como é mais concentrado em substâncias activas, vai acabar por ter também uma textura mais espessa do que a Essência, mas que mesmo assim é bem absorvida.

O que é uma Essência de Água? Vitarice Essence Water

Então Trip, andei enganada (ou enganado que a beleza não possui género) este tempo todo e preciso de usar uma Essência e um Serum?

Se querem a minha opinião mais honesta, não, não vale a pena usar uma Essência e um Serum.

Claro que se tiverem vontade e tempo para o fazer obviamente que podem usar os dois produtos, não se esquecendo que a Essência é o primeiro produto a aplicar depois da limpeza, e quando evaporar podem aplicar o Serum.

Agora para mim não faz sentido estarem a gastar ainda mais tempo do vosso dia aumentando a vossa rotina com um passo extra. Ou escolhem usar a Essência, ou escolher usar o Serum - tudo vai depender das vossas necessidades e do objectivo que querem atingir.

Imaginem que odeiam sentir produto na cara e acham que o vosso creme já não está a hidratar o suficiente - então vamos apostar numa Essência. Agora se a vossa preocupação é mais as manchas de envelhecimento e o vosso creme até vos deixa a pele que é um mimo - escolhemos um bom Serum despigmentante e usamos religiosamente.

Claro que podem existir casos específicos em que faz sentido associar os dois produtos, mas isso terá de ser visto sempre pessoa a pessoa, pele a pele.

 

Aí desse lado, já conheciam as Essências? Alguma vez usaram uma Essência de água? Ou ainda é um universo que não exploraram?

Valéria: Nem Comédia nem Romance

10.05.20, Triptofano!

Valéria é a nova séria espanhola da Netflix que não é carne nem é peixe, e numa tentativa de agradar a muita gente acaba por agradar a quase ninguém.

Valéria: Nem Comédia nem Romance

Com 8 episódios, a primeira coisa da qual nos lembramos ao ver Valéria é no Sexo e a Cidade.

Tal como na icónica série de Nova Iorque, a série de Madrid relata a vida de quatro amigas (Valéria, Lola, Carmen e Nerea), sendo que se Valéria é a única que não é solteira, melhor faria se o fosse. Assim como Carrie também Valéria é solteira, e novamente tal como Carrie, Valéria é a personagem com mais destaque e aquela que acaba por menos interessar, por mais engonhar na história e que menos empatia conseguimos criar com ela, deixando-nos até com um bocadinho de raiva pela sua pessoa.

Netflix apresenta Valéria como uma série de comédia, mas não me lembro de ter rido uma única vez, no máximo terei esboçado um ligeiro sorriso. Valéria poderia ser uma série romântica, mas a infidelidade e a falta gritante de comunicação num casal não são bem as coisas que me aquecem o coração, fazendo em certos momentos até ranger os dentes.

Valéria não cativa, não envolve, e não explora as outras personagens como poderia explorar, de forma a salvar a produção. Três mulheres que apesar de serem apresentadas como independentes, estão cada uma delas presas a relações presentes e passadas tóxicas, que no decorrer dos episódios parecem apenas agravar-se e não superar-se.

Talvez haja vontade de haver uma segunda season, destas mulheres terem uma nova oportunidade para um futuro melhor, mas estaremos nós dispostos a outra temporada de Valéria? Mesmo sabendo que certamente estará repletas de cenas de sexo como a primeira - só que chega a um ponto que ver cus e mamas já não é o suficiente para nos prender a atenção.

Valéria tentou ser um buffet para todos os gostos, mas não se definindo enquanto alimento, corre o risco de ficar à beira do prato!

Se tiverem interesse podem descobrir a banda sonora de Valéria no Spotify.