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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Perfumes para a Noite: Hugo Boss Dark Blue

29.02.20, Triptofano!

Eu e o Cara-Metade até somos um daqueles casais que estamos de acordo em praticamente tudo (quando eu não acordo com o cu virado para a Lua e nessa altura mais vale não falarem comigo durante uma semana) mas não conseguimos chegar a um consenso acerca do perfume Dark Blue da Hugo Boss!

Eu adoro o perfume, o Cara-Metade não gosta sequer que eu fale dele. 

Perfumes para a Noite: Hugo Boss Dark Blue

O engraçado é que este Dark Blue foi comprado pelo Cara-Metade numa promoção fantástica, e a primeira metade do frasco foi ele que a usou, em todas as ocasiões possíveis e imaginárias, até que chegou a uma altura em que enjoou a fragrância, passando-me o perfume para as minhas mãos.

Sim, o Dark Blue é um perfume bastante intenso, sendo ideal para usar durante a noite, especialmente se formos sair e quisermos criar assim uma aura forte e energeticamente misteriosa, sendo que aguenta na pele umas boas cinco seis horas sem qualquer dificuldade, por isso pessoas que fiquem facilmente incomodadas com cheiros mais fortes podem não estar perante a melhor opção de fragrância. Mas atenção que apesar de intenso não é daqueles perfumes que basta uma borrifadela para a pessoa cair para o lado intoxicada - é sim na minha opinião penetrante e cativante.

Agora imaginem o problema que é quando eu quero colocar o perfume, que se tornou um dos meus preferidos para quando quero que as pessoas reparem no meu cheiro, e o Cara-Metade começa logo a mandar vir que ele já não suporta o cheiro e que assim não sai comigo e patati patatá.

Para piorar a situação houve alguns momentos dramáticos onde o Cara-Metade ameaçou que o perfume ia directamente para o Ecoponto depois de eu ter empestado a casa-de-banho (com o perfume, não com outras coisas tá?) no preciso momento em que ele também se encontrava lá, por isso passei a usá-lo de uma forma bastante mais cautelosa, o que permitiu que os 75 ml desta Eau de Toilette rendessem durante bastante tempo.

Em termos do mapa olfactivo o Hugo Boss Dark Blue é constituído por notas de topo de laranja, gengibre, toranja e limão siciliano, seguidas das notas de coração onde se pode descobrir o mogno, o cipreste, a sálvia, o gerânio e o cardamomo, finalizando-se o conjunto com o patchouli, o benjoin, o vetiver, o cedro e a baunilha que compõem as notas de fundo.

Perfumes para a Noite: Hugo Boss Dark Blue

E por aí, existe algum perfume que cause celeuma na vossa casa? Ou as fragrâncias que a habitam são consensuais?

 

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.5 - Nitromint

29.02.20, Triptofano!

Carolina acordou exactamente às sete da manhã, ao som do rádio despertador que inundou o quarto com a inconfundível voz de Carminho.

Bom dia, amor
Dizem as rosas da janela ao ver o sol nascer
Bom dia, amor
Tal como as rosas, espero sempre por te ver

Levantou-se de um salto, abriu a janela para que o sol da manhã entrasse sem impedimentos e espreguiçou-se demoradamente. Hoje era o dia porque tanto esperava.

Vestiu o roupão que tinha abandonado sonolentamente no chão na noite anterior e dirigiu-se à cómoda, onde acendeu três velas vermelhas e colocou uma pitada de sal dos Himalaias num copo com meia dúzia de cristais coloridos e uma foto plastificada do seu grande amor, ao mesmo tempo que declamava o feitiço:

Meu amado, meu amado

Serei o teu fado

Meu amado, meu amado

Estaremos sempre lado a lado

Carolina nunca tinha acreditado no amor até o ter conhecido, aquele homem que virou o seu mundo de pernas para o ar. Sabia que ele era casado, mas as conversas durante horas, os jantares longe dos olhares do mundo e as noites de sexo escaldante fizeram-na acreditar que era possível um futuro a dois.

Quando começou a abordar o tema divórcio ele mudou de atitude, ficou mais esquivo, as conversas foram substituídas por mensagens, os jantares por rápidos encontros em áreas de serviço e as noites de sexo por fodas onde ela nem conseguia atingir o orgasmo.

Desesperada resolveu ligar para um daqueles números de valor acrescentado que figuravam em folhetos distribuídos no metro ou despejados indiscriminadamente em caixas de correio. A mulher que a atendeu pareceu-lhe verdadeiramente interessada no seu problema, e depois de mais de uma hora de conversa foi sugerido a Carolina que fizesse um feitiço de amarração. Demoraria três meses mas seria tiro e queda garantiu-lhe a mulher.

Carolina passou por todos os recantos do corpo o creme de veneno de cobra que a tornaria irresistível, vestiu as cuecas bordadas a fio de linho virgem da Noruega e colocou o fio com um pequeno coração dourado que tinha benzido à luz da lua cheia - tudo coisas que tinha comprado através da mulher do telefone e que lhe tinham custado uma autêntica fortuna. Mas como a mulher lhe dizia, o verdadeiro amor não tinha preço.

Pegou na mala e saiu de casa mesmo sem tomar o pequeno-almoço, porque o único alimento que verdadeiramente necessitava era o amor daquele homem.

Quando entrou no táxi, em direcção ao encontro que tinha marcado num café a meio da rua, porque as esquinas aparentemente eram locais a evitar por terem energias de separação, a dúvida tomou conta dela. Será que o feitiço iria funcionar?

Enviou uma mensagem para a mulher que em poucos segundos lhe respondeu:

Não se preocupe. Hoje terá o coração dele nas suas mãos.

O táxi chegou ao destino e lá estava ele, fumando um impaciente cigarro. Carolina saiu do veículo na sua direcção, com um sorriso apaixonado estampado no rosto.

Foda-se Carolina - disse o homem - já te disse que está tudo acabado entre nós. Que parte é que tu não entendes?

Carolina estava preparada para esta reacção. Do bolso tirou um pequenino frasco de água benzida num vulcão e borrifou o seu amado, enquanto dizia silenciosamente a reza que lhe tinham ensinado, de forma a quebrar qualquer impedimento externo que tivesse sido convocado.

Mas que merda é essa porra? Tu só podes ser completamente chanfrada. Põe isto na cabeça mulher, já não há nada entre nós. Se tu não desapareceres eu...

O homem não conseguiu terminar a frase porque uma faca de cerâmica tinha-lhe sido espetada no peito só ficando com o cabo ensanguentado de fora.

Carolina sorriu ligeiramente. Afinal a mulher do telefone tinha razão. Ela ia ter o coração dele nas mãos. De uma forma ou de outra...

Há falta de máscaras, desinfectante para as mãos e bom-senso!

27.02.20, Triptofano!

Ora bem, por onde é que eu posso começar sem ferir a susceptibilidade de ninguém?

ESTÁ TUDO MALUCO NÃO ESTÁ?

Há falta de máscaras, desinfectante para as mãos e bom-senso!

Há uns bons anos atrás lembro-me de vender carradas industriais de desinfectante para as mãos quando foi o drama da Gripe A. Houve quem me comprasse à meia dúzia, para ter um em cada divisão da casa que não se sabia por onde é que o bicharoco podia aparecer.

Quando o histerismo passou deixei de vender desinfectantes. Talvez por magia e obra do divino Portugal tenha ficado livre de vírus e bactérias e outras coisas que tais que também não fazem falta nenhuma e só servem para chatear uma pessoa, porque mais ninguém quis saber sobre desinfectar as mãos. Talvez o SNS tenha distribuído uns daqueles iogurtes milagrosos que uma pessoa bebe e pode apanhar uma chuvada em cima que não fica doente e eu é que não soube.

O engraçado é que volta e meia aparece-me na farmácia uma pessoa diagnosticada com Gripe A e não vem com um ar de quem vai morrer em menos de cinco minutos. Toma a medicação, tenta não infectar toda a gente e mais alguma que esteja à volta e pronto, o caso resolve-se.

Agora com o Coronavírus não é só o desinfectante que se vende às mãos cheias, são também as máscaras, de todos os tamanhos e feitios, com mais ou menos filtros. Obviamente que com tamanha procura tudo o que era máscara esgotou, e as que ainda existem estão a ser vendidas a um preço exorbitante.

De nada vale irem pessoas que percebem do assunto dizer na televisão que as máscaras é só para quem está doente ou para indivíduos debilitados. Ninguém liga. Se fosse a Cristina Ferreira a dizer que havia um novo suplemento para as hemorróidas então era uma loucura de vendas, o que me faz pensar que se calhar a DGS devia contratar a Cristina para anunciar tudo o que seja medidas de prevenção de contágio.

Não vale a pena comprar vinte caixas de máscaras para podermos ir passear descansados no hipermercado se depois vamos com aquela mãozinha sujar coçar o nariz. Ou estourar o ordenado em gel desinfectante se depois nem lavamos as mãos durante o tempo necessário e da forma correcta. Sim, eu sei que pode ser uma revelação bombástica, mas não chega passar o desinfectante pelas mãos e PUF, acabaram-se os bicharocos do demónio.

Compreendo que possa haver receio e que a comunicação social crie um sentimento de urgência e medo que faz as pessoas ficarem desprovidas de bom-senso, mas minha gente, sempre houve bactérias e vírus nos centros de saúde, nos comboios e nos supermercados, muitas vezes bem mais chatos que o Coronavírus, por isso não entrem em pânico.

Não pensem que vão morrer se ficarem infectados, porque sim, podem ficar infectados e isso não vai ser o fim do mundo. Protejam-se e protejam os outros mas de forma racional.

Agora aquilo que eu sei é que Portugal não está pronto para uma pandemia. Nem Portugal nem qualquer país do mundo, porque em situações de crise é basicamente o salve-se quem puder...

 

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.4 - Rivastigmina

21.02.20, Triptofano!

Guilherme adorava o Google!

Todos os dias passava horas sentado à frente dele, deliciando-se tanto com as descobertas mais cientificamente importantes, como por exemplo os benefícios do chá de hibisco ou a velocidade à qual um piolho consegue nadar, como com as mais triviais, nas quais se incluía a razão do céu ser azul ou o número de selfies que o Presidente da República já tinha tirado desde o início do mandato.

Para Guilherme o Google era uma espécie de feiticeiro digital, que lhe adivinhava os pensamentos antes mesmo dele os teclar na zona de pesquisa.

Bastava escrever Como comer um Burrito que o Google fazia-lhe aparecer instantaneamente sem ficar todo sujo, que era exactamente o que ele queria saber. Só podia ser magia!

Alguns colegas já lhe tinham apresentado outros motores de busca, como o Bing ou a Raposa de Fogo, mas Guilherme só queria o Google.

Apesar das horas infindáveis que dedicava a pesquisar tudo e mais alguma coisa, havia um tema que lhe aquecia de forma especial o coração.

Matilde de Leça Abradeu.

Filha de uma lenda do teatro português, Matilde era actriz, apresentadora, Embaixadora da Boa Vontade da Unesco e dava aulas de pintura para crianças com necessidades educativas especiais.

Matilde era sempre a primeira pesquisa do dia mal acordava, e era sempre a última antes de adormecer.

Adorava ver os artigos onde ela aparecia sempre linda, com uns olhos do tamanho do mundo e um sorriso do tamanho do universo, ria-se com o seu humor mordaz quando a ouvia numa entrevista para um canal de rádio, suspirava quando a via nas viagens pelo mundo a espalhar humor e bondade.

Só não gostava das fotos onde pousava com as irmãs, Picó e Muxaca, ambas mais velhas e com menos de metade da beleza e talento de Matilde, e das notícias antigas onde aparecia com o ex-namorado, um playboy brasileiro que a trocou por um deputado europeu.

Guilherme sabia que já tinha sido há muitos anos, mas a lembrança da existência de um homem que tocou no corpo da mulher que venerava sem a merecer deixava-o azedo de rancor.

Naquele dia seguiu o mesmo ritual: acordou, espreguiçou-se e pesquisou no Google o nome de Matilde, mesmo antes de preparar uma caneca de café ou de limpar as remelas dos olhos.

Os resultados que o motor de busca lhe devolveu deixaram-no sem pinga de sangue.

Aparentemente aquele era o dia em que Matilde se casava, e todos os meios de comunicação falavam disso.

Havia quem descrevesse o local da cerimónia, outros que detalhavam a lista de celebridades convidadas e quem se questionasse se no Copo-de-Água haveria uma fonte de marisco vivo ou se optariam por um gigantesco fondue de queijo azul.

Os comentadores virtuais apostavam entre si sobre qual teria sido o estilista escolhido para conceber o vestido da noiva ou quem é que iria ter a tarefa de transportar as alianças, enquanto que o site de uma revista cor-de-rosa garantia a pés juntos que uma das convidadas, solteirona há mais de três décadas, tinha aprendido de forma intensiva Krav Maga e Capoeira só para se certificar que seria ela a apanhar o bouquet.

Guilherme desligou o computador com os olhos completamente esbugalhados.

Não, aquilo não podia ser verdade. O Google estava errado, só podia estar errado, repetia para si mesmo enquanto puxava furiosamente tufos de cabelo.

Como é que ele tinha sido capaz de se esquecer do dia do seu próprio casamento?

O dia em que deixar de sofrer já não é um crime!

20.02.20, Triptofano!

Todos os projectos que despenalizam a eutanásia foram aprovados pela maioria dos deputados no Parlamento, e, apesar de ainda muito poder acontecer, desde referendos a vetos presidenciais, não posso deixar de sorrir abertamente e dizer que hoje foi um dia histórico para Portugal, o dia em que deixar de sofrer já não é um crime.

O dia em que deixar de sofrer já não é um crime!

A aprovação de todos os projectos foi mais que uma vitória parlamentar, foi uma vitória da dignidade e da possibilidade de escolha. Foi uma vitória de poder dizer que sim ou que não, de poder continuar ou terminar, de poder partir ou ficar.

O dia de hoje foi uma vitória contra aqueles que querem impor as suas convicções aos outros, não percebendo que o nosso direito à individualidade não pode colocar em causa a liberdade dos outros indivíduos.

O dia de hoje foi uma vitória contra a demagogia, o popularismo, as falsas crenças, as teorias de que com jeitinho tudo se consegue e ultrapassa, mas mais importante que tudo, foi uma vitória contra o sofrimento.

Uma vitória contra um sofrimento infinito, incansável, ininterrupto.

O dia de hoje não foi uma vitória da morte como muitos querem que tantos outros pensem. Foi sim uma vitória da dignidade do ser humano perante uma vida que nem sempre é um filme com um final feliz.

E tal como nos cinemas, onde se o filme for insuportável não precisamos de ficar até ao fim, também na vida devemos ter o poder de decidir quando queremos passar à fase seguinte. Mesmo que já tenhamos comprado bilhete e o balde de pipocas ainda esteja a meio.

Marega: A única coisa que nunca lhe poderão tirar é a dignidade!

17.02.20, Triptofano!

Se existe tema do qual eu estou completamente alheado é o do futebol.

Não faço ideia quem é que está em primeiro lugar, quem é que vai jogar contra quem, quais são os jogadores simpáticos, os menos simpáticos e aqueles que vão para o campo provocar em vez de jogar.

Por isso, para escrever este post fui ler sobre o que se passou, mas não me limitei a consultar uma fonte de forma a não ter o meu juízo de valor demasiado condicionado.

Marega: A única coisa que nunca lhe poderão tirar é a dignidade!

Primeiro que tudo tenho que concordar quando se escreve que nem todo o insulto é racista.

Se é chato e enervante sempre que tocamos na bola ouvirmos milhares de pessoas a assobiar? É!

Se nos faz ferver o sangue sempre que tocamos na bola ouvirmos milhares de pessoas a mandar-nos para o caralho? Faz! 

Apesar de serem atitudes insultuosas e que não deveriam existir num contexto de "fair play" (catano é um jogo minha gente, nem é o Apocalipse nem vocês precisam de lutar pelo último croissant recheado com chocolate) não são atitudes racistas.

Agora quando um grupo de adeptos começa insultar Marega com sons de macacos então entramos no campo do racismo.

E não me venham dizer que somos todos provenientes dos símios por isso imitar um macaco não é racismo. Se há coisa que me enerva o sistema é quando as pessoas começam a fazer-se de parvinhas e a dar desculpas para coisas indesculpáveis.

Brindar Marega com sons de macaco é sim racismo puro e duro.

Imaginem que a minha pessoa estava no campo de futebol a jogar (quer dizer seria mais a ver a bola a passar e a fazer uma rasteira estilo carrinho ao adversário) e começavam a gritar PANELEIRO DO CARALHO! Como é que acham que eu me ia sentir?

E se fossem vocês naquele campo de futebol e começassem a ouvir insultos relacionados com alguma característica vossa? Algo do qual até se orgulhassem mas que outras pessoas usassem apenas para vos rebaixarem. Como é que se iam sentir?

Marega saiu do campo porque a única coisa que nunca lhe poderão tirar é a dignidade, e aqui ele preferiu a eutanásia do que manter-se até ao fim do jogo em cuidados paliativos.

Lamento apenas é que Sérgio Conceição e os colegas tenham tido uma atitude tão contra a despenalização da eutanásia, tentando dissuadi-lo de sair com dignidade do jogo e a permanecer a ouvir insultos.

Neste caso não é mais digno quem sofre durante mais tempo, mas sim quem não tolera atitudes criminosas movidas apenas pelo ódio à diferença.

O Porto devia ter sido digno e, juntando-se ao seu jogador, abandonado o relvado, mostrando que alguns de nós estão mais perto dos macacos que outros, mas não é pela cor da pele que se os reconhecem.

Infelizmente 3 pontos ainda valem mais que a dignidade de um ser humano. Nada que me devesse admirar muito, tendo em conta o mundo em que actualmente vivemos....

Socorro, estão-me a ligar de números internacionais!!!

Ou como não ser burlado pelo telefone.

16.02.20, Triptofano!

Há uns dias atrás o meu telemóvel começou a tocar e no visor apareceu-me um número internacional com origem em São Paulo.

Não atendi e fiz o que faço sempre quando me ligam de números desconhecidos - gravo no telemóvel e vou ao WhatsApp ver se esse número está associado a uma pessoa e a uma foto.

Não estava.

No dia a seguir voltam-me a ligar do mesmo número. Volto a não atender. Algumas horas depois nova chamada mas agora de um número com origem em Inglaterra, que também não tinha registo a nível do WhatsApp.

Por mais que a minha pessoa quisesse acreditar que tinha-se tornado num fenómeno viral (enfardar 18 fatias num rodízio de pizza não é para todos tá?) e agora estava a receber contactos para entrevistas de todo o mundo, tive que me conformar que estas chamadas são sem dúvida alguma esquemas de burla.

No caso de vocês atenderem muito provavelmente do outro lado vai surgir alguém com uma conversa muito bem planeada a tentar surripiar-vos dados pessoais, se não atenderem por favor não liguem de volta, porque o vosso saldo vai desaparecer mais rápido do que aqueles casacos da moda da Bershka em altura de saldos.

O melhor mesmo é bloquearem o número e continuarem com a vossa vidinha - já sabem que raramente alguém nos liga para dar alguma coisa.

Deixo aqui os números que me ligaram, e caso tenham sido alvo de telefonemas de outros números deixem nos comentários sff. Talvez consigamos construir uma pequena base de dados de números fraudulentos que podemos evitar!

 

+551154124101

+441494761500

+442086585730

+17814173117

+4072807408

+43316326368

+38516222713

+31624033558

+38534231323

+38630996062

+31599417444

+43720882066

 


Nota: Em conversa com um amigo finlandês a viver em Portugal aparentemente uma das técnicas destas chamadas é fazerem uma pergunta do tipo Consegue Ouvir-me e quando a pessoa responde Sim, usam essa parte e fazem uma montagem para contratos via telefónicos. Ou seja o vosso Sim acaba por aparecer depois de um Quer Comprar 1 Colchão de 8000 Euros?

 

Quem é que vota no Chega?

15.02.20, Triptofano!

Passaram quatro meses desde as eleições legislativas, quatro meses onde muita coisa aconteceu, desde pessoas sem confiança política a gritar mentira (ou seria a gritar mentiras?) passando por deputados que fazem queixinhas quando são mandados calar, e que só não batem o pé e vão-se embora porque o rendimento no fim do mês compensa qualquer desaforo.

Mas o incrível foi que quatro meses passados, a primeira sondagem Expresso/SIC, realizada pelo ISCTE e ICS, mostrou que a intenção de voto no Chega, partido político liderado por André Ventura, subiu para os 6%, ultrapassando o CDS e o PAN.

Confesso que sou uma pessoa preconceituosa porque mal vi os resultados imaginei o típico eleitor do Chega.

A pessoa sessentona, com pouca educação, que fala muito de como o país está mal e são todos uma data de corruptos mas depois tem o regime especial de comparticipação de medicamentos na farmácia porque nunca abriu o bico sobre os rendimentos que continua a receber de França ou dos Estados Unidos ou de outro qualquer país que esteve emigrado.

A pessoa que é contra os ciganos e acha que eles são a origem de todo o mal do mundo, mas que adora comprar-lhes umas calças de marca a um quarto do preço.

A pessoa que é contra os pretos, mas que adora comer uma muamba à sexta-feira e dar um passinho de dança ao som de uma qualquer kizombada.

A pessoa que defende com unhas e dentes que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é um atentado contra a família tradicional, mas já violou a enteada porque ela estava a pedi-las.

A pessoa que diz que o dinheiro do SNS não é para aberrações mudarem de sexo, mas depois compra dez caixas de insulina a preço zero (preço zero porque os outros impostos de todos asseguram a sua comparticipação a 100%) para menos de uma semana depois mandar tudo para o lixo porque lhe mudaram a medicação. E se alguém lhe fizer cara feia é capaz de mandar uma caralhada e dizer que é para isso que paga impostos.

Sou uma pessoa preconceituosa porque pensei que quem votasse no Chega era o típico homem das cavernas, sem educação, que nunca frequentou uma faculdade, que vive ainda no tempo em que se colonizava outros países considerados inferiores e que se colocavam símbolos nas testas dos gays para os identificar.

Afinal a maioria dos eleitores que quer votar no Chega tem entre os 25 e os 44 anos, e metade deles são mulheres. Pior, um cada cinco dos eleitores actuais do Chega têm curso superior e mais de um terço completou o ensino secundário, o que está acima da instrução média dos portugueses adultos.

Quando li estes dados tive de engolir em seco e repensar na formo como o meu cérebro funciona.

Preconceito é preconceito, independentemente do que ele defende, e no fim de contas talvez eu não seja assim tão melhor do que a mulher trintona com curso superior que deseja votar no André Ventura...

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.3 - Secobarbital

14.02.20, Triptofano!

Miguel olhou para a capa do livro que aparecia sedutiva no ecrã do seu tablet.

Desafio de Escritas dos Pássaros #2.3 - Secobarbital

Por toda a Internet só se falava deste livro, um manual para iniciar relacionamentos que consistia em 36 perguntas infalíveis para dois desconhecidos apaixonarem-se perdidamente.

Miguel percorreu todas as perguntas que estavam divididas em três grupos, desde Tem uma intuição secreta de como vai morrer?, passando por Como se sente em relação à sua mãe? e acabando num Se fosse morrer esta noite sem possibilidade de falar com ninguém, o que lamentaria não ter dito a uma pessoa? Por que não disse até agora?, lendo atentamente a explicação de porque é que cada pergunta e consequente resposta eram importantes para que no fim do processo dois desconhecidos ficassem unidos pelo energia mais forte do universo: o amor!

Quando terminou de ler o livro Miguel esboçou um sorriso triste enquanto com um golpe de nuca desligou o tablet. Aquele manual até podia funcionar, mas não para ele.

Tinha ficado tetraplégico há quarenta anos atrás. Um salto mal calculado para uma piscina deixou-o totalmente dependente de terceiros, preso numa cadeira eléctrica que conduzia com o queixo. A namorada da altura ainda o visitou durante alguns meses, até encontrar um novo amor, com pernas e braços que funcionassem. Miguel não a condenava, com 17 anos ninguém merecia ficar preso a um fardo daquele tamanho.

Alguns amigos permaneceram durante um pouco mais, mas a vida levou-os para outros caminhos, enquanto que Miguel estava preso num beco sem saída. Apenas lhe restava a mãe, beata de nascença, que entre rezas e terços o alimentava, vestia, dava-lhe banho, trocava a fralda e todos os dias o "confortava" dizendo que o sofrimento dele era um desígnio do Senhor; e a Internet, que navegava velozmente usando um teclado especial que aprendeu a utilizar com pancadas secas da nuca.

Gostava de flertar com mulheres na Internet, usando fotos de outros homens, encantando-as com o seu humor mordaz e as histórias fantasiosas de como era um amante sem limites, mas no fim do dia Miguel sabia o que era, uma cabeça presa num monte de carne inútil.

40 anos depois Miguel já não aguentava sobreviver mais daquela forma, queria somente um bilhete dourado para um vida noutra dimensão sem sofrimento, mas não o conseguia fazer sozinho. Não era como se pudesse abrir a porta de casa e atirar-se pelas escadas abaixo na esperança de partir o pescoço: para poder morrer tinha que ter a ajuda de alguém.

Com o subsídio de invalidez que recebia todos os meses poupou o suficiente para uma viagem sem regresso para a Suíça, onde um comprimido mágico o libertaria da sua prisão. Mas não tinha forma de ir, porque a única pessoa que o podia ajudar era a mãe, que se opunha totalmente entre gritos e ameaças de fogos infernais à ideia de que ele pudesse morrer de forma não natural.

Miguel também não queria que ela sofresse por causa da sua decisão, não queria que ela sentisse uma facada nas costas depois de tantos anos devotamente a cuidar dele.

Um mar de lágrimas inundou-lhe os olhos. Amava a mãe mas uma parte dela queria que ela morresse para se poder libertar. Sabia que quando ela não estivesse mais naquele mundo para tratar dele teria que ir para uma instituição.

Talvez aí encontrasse alguém que o quisesse levar à Suíça. Ou nessa altura já teria ocorrido a despenalização da eutanásia, e ele poderia finalmente ser dono de si próprio.

Referendo à Eutanásia? Não obrigado!

13.02.20, Triptofano!

Despenalizar a eutanásia significa proporcionar uma morte digna a quem não possui já esperanças de ver atenuado o seu sofrimento sem punir legalmente quem praticou o acto caridoso de ajudar outra pessoa a morrer.

Referendo à Eutanásia? Não obrigado!

Tive uma utente cuja irmã teve um acidente de carro ainda era adolescente, acidente essa que a atirou para uma cama sem conseguir mexer-se ou comunicar.

Durante 40 anos esteve presa numa cama a sobreviver todos os dias, consciente do seu estado, porque a irmã contava-me que apesar de ela não falar por vezes sorria, mas a maior da parte das vezes chorava ininterruptamente.

Não sei se esta mulher que sobrevivia numa cama gostaria de ver o seu sofrimento atenuado porque não era capaz de comunicar por palavras. Mas mesmo que conseguisse e caso fosse o seu desejo não poderia, porque quem a ajudasse a morrer seria considerado um criminoso.

Despenalizar a eutanásia não vai, como certas pessoas populistas defendem, atirar os mais velhos e necessitados para o caminho da morte assistida, mesmo que não o desejem. Vai sim melhorar os cuidados paliativos existentes neste país, porque não basta dizer que se quer morrer, assinar de cruz e adeus até um dia.

Se alguém desejar morrer de forma digna e colocar fim ao seu sofrimento terá que iniciar um processo que será aprovado ou não por uma comissão especializada no assunto.

Imaginem que temos uma pessoa com dores horríveis que não está a ser acompanhada nos cuidados paliativos e que pensa que a única forma de colocar fim ao seu sofrimento é através da eutanásia.

A comissão ao receber o pedido desta pessoa irá avaliar que cuidados é que estão a ser prestados, e ao verificar que ainda existe uma possibilidade de melhorar a qualidade de vida da pessoa vai recusar a eutanásia e sim fazer pressão para que este indivíduo receba os melhores cuidados paliativos possíveis.

Imaginem agora que esta pessoa está a receber os melhores cuidados paliativos de sempre.

Só que desenvolve uma esclerose lateral amiotrófica. Não consegue andar, não consegue comer sozinha, começa a ter a fala afectada, e os cuidados paliativos apenas atenuam-lhe as dores físicas.

Esta pessoa não merece morrer dignamente enquanto está na posse das suas capacidades mentais para tomar tal decisão? Ou a única coisa que merece é assistir à sua degradação enquanto ser humano até não restar uma miragem da pessoa que foi?

A despenalização da eutanásia não é apenas para doenças terminais e aqui muitos indignam-se com a ideia de matar alguém que poderia viver mais dez, vinte ou cinquenta anos. 

Se uma pessoa que esteja tetraplégica decidir acabar com o seu sofrimento não tem o direito de morrer dignamente? Ou por causa das crenças e ideologias de alguns temos de perpetuar uma vida que para o indivíduo não é mais que uma morte onde se respira?

Despenalizar a eutanásia não é começar a matar pessoas a torto e a direito, é sim dar o poder de escolha a como alguém quer terminar a sua vida quando já não o consegue fazer sozinho.

Sou contra o referendo à eutanásia porque despenalizar a eutanásia não implica forçar ninguém a fazer aquilo que é contra a sua vontade, enquanto que o referendo é abrir a possibilidade de alguém poder decidir sobre a vida e a morte de outra pessoa.

Só nós próprios é que devemos decidir como vivemos e como morremos.

Por mais que nos buzinem nos ouvidos que temos que sofrer como sofreram por nós ou que a vida é uma bênção que não está nas nossas mãos e que temos de aceitar o que nos colocam no caminho, o nosso destino é única e somente nosso.

Despenalizar a eutanásia é permitir que quando a festa da vida já lançou todos os seus fogos de artifício nós possamos sair a tempo pela porta grande com um sorriso no rosto!

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