Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Desafio de Escrita dos Pássaros #2.1 - Taurus 856

31.01.20, Triptofano!

Carolina olhou para o galão.

No último ano e meio tinha-se sentado todos os dias no mesmo lugar junto à janela daquele café, sempre com o olhar ausente, à espera que ele aparecesse, mesmo nos dias em que sabia que ele não iria vir.

Estava desempregada há mais anos do que poderia recordar e o seu dia era uma amálgama de recordações, comprimidos para dormir, comprimidos para acordar, comprimidos para esquecer, e a rotineira visita ao café, sempre à mesma hora da tarde, sempre com a cabeça baixa, sempre com o olhar vazio.

Pedia sempre o mesmo, um galão de máquina e um bolo de arroz, que fazia render durante um par de horas, até que ela o pudesse ver através da imaculada fronteira de vidro, que o fazia estar tão perto mas tão longe ao mesmo tempo. Um dia tinha pedido um queque com pepitas de chocolate, um dia em que se tinha sentido corajosa, viva, animada, para rapidamente compreender que as pepitas de chocolate não eram mais que passas ressequidas que cuspiu nauseada para um guardanapo de papel.

Todos os dias comprava uma revista que tentava ler enquanto olhava para o relógio. Sabia as horas em que ele ia aparecer e esse era o momento alto do seu dia. Tudo o resto era comprimidos, galões, bolos de arroz e imagens em revistas. Quando já tinha comprado todas as revistas possíveis e imaginárias voltava a comprar uma repetida e li-a de trás para a frente. Era quase como se fosse uma revista nova.

Há ano e meio que Carolina tinha perdido a guarda do filho. O ex-marido tinha conseguido em tribunal tirar-lhe até as visitas quinzenais ao fim-de-semana, alegando que ela era neurótica, psicótica e instável, e que o filho estaria melhor sem a influência nefasta da mãe.

Tudo o que lhe restava eram aqueles pequenos segundos em que via o filho através do vidro da janela do café, vindo da escola agarrado firmemente pela mão do pai. Carolina aguardava pacientemente o filho todos os dias há ano e meio, mesmo nos dias em que sabia que ele não viria por a escola estar fechada.

Aquele dia não era diferente. Estava quase na hora.

Com a precisão de um relógio pai e filho passaram à frente do café onde Carolina desaparecia cada dia um pouco mais. Nenhum olhou para ela. Há muito tempo que ninguém se dava ao trabalho de verdadeiramente a ver. Tinha-se tornado invisível para o mundo.

Abriu a carteira, depositou cinco euros em cima da mesa e levantou-se em direcção à porta.

Colocou a mão no bolso do casaco e sentiu o frio metálico do revólver que tinha comprado numa qualquer página da Internet.

Saiu para a rua procurando com o olhar pai e filho. Sabia que aquilo não iria correr bem. Mas no fim de contas, que mais tinha ela a perder?

Socorro, como é que me previno do Coronavírus?

31.01.20, Triptofano!

Enquanto farmacêutico, a primeira coisa que respondo quando alguém me pergunta como é que se pode prevenir do Coronavírus é para usar o bom senso e não entrar em modo histeria causado e propagado pelos meios de comunicação social.

Não estou a dizer que o Coronavírus não é chato e perigoso, mas ainda me lembro da corrida louca que houve às farmácias para comprar gel desinfectante e Tamiflu quando apareceu a gripe A, e sinto que a história está-se a repetir novamente.

A prevenção do contágio pelo Coronavírus é importante, tal como é importante não apanharmos o vírus da gripe ou outro bicharoco chato que ande aí pelo ar, por isso as medidas que estamos a adoptar agora devíamos na verdade implementá-las durante o ano todo.

Mas como o assunto do dia é o Coronavírus falemos deste novo vírus. Deixem-me apenas dizer que toda a informação que vou apresentar aqui foi retirada da página da OMS, a fonte mais fidedigna sobre este assunto.

Socorro, como é que me previno do Coronavírus?

A coisa mais importante a fazer é lavar as mãos! Pode parecer um daqueles conselhos banalíssimos mas é verdadeiramente importante que se lavem as mãos. Com sabão e água corrente quando as mãos estão visivelmente sujas a olho nu e periodicamente quando elas não parecem estar sujas (mas provavelmente estão) com sabão e água ou um desinfectante para as mãos com base alcoólica.

Lavem sempre as mãos depois de tossir ou espirrar, antes, durante e depois de preparar a comida, antes de tomar uma refeição, quando cuidam de pessoas doentes, depois de usarem a casa-de-banho e sempre que tiverem contacto com animais ou desperdícios provenientes dos mesmos!

Querem-se prevenir do Coronavírus? Lavem as mãos!

Como falei no início o bom senso é a arma mais poderosa contra este vírus, e tão importante como nos protegermos é protegermos os outros, e se todos pensarmos um bocadinho em nós e um bocadinho nos outros (sei que é difícil isto acontecer mas pronto) tudo era mais fácil por isso devemos:

  • Tapar a boca e o nariz com um lenço ou com a parte interior do cotovelo sempre que espirrarmos ou tossirmos
  • Mandar os lenços usados logo para o caixote do lixo e não fazer uma colecção de ranho nos bolsos
  • Lavar as mãos (e eu a dar-lhe) sempre que tossirmos ou ajudarmos alguém que esteja doente
  • Evitar contacto próximo com outras pessoas caso estejamos com tosse ou febre, de forma a não contagiar toda a gente no emprego
  • Não cuspir em público para o chão (algo que já devia ter sido banido deste universo verdade seja dita)
  • Se houver algum caso de febre, tosse ou dificuldade em respirar procurar ajuda médica o quanto antes. De forma a não entupirem os hospitais e os centros de saúde o melhor será sempre ligar para a linha Saúde 24 - 808 24 24 24

Então mas e as máscaras Triptofano? Não devíamos estar a comprar toneladas daquelas máscaras com filtros de partículas todos XPTO que custam os olhos da cara?

A OMS apenas fala do opcional uso de máscaras quando em viagem, e aí o importante é que a máscara tape boca e nariz e que se evite tocar nela depois de se a ter colocado. De referir que as máscaras de utilização única são isso mesmo, de utilização única, e devem ser mandadas para o lixo imediatamente após serem usadas. E claro, lavar as mãos depois de as tirarmos.

Pessoalmente acho que a máscara pode e deve ser usada caso estejamos doentes e queiramos prevenir a espirradela acidental para cima da pessoa que está ao nosso lado no autocarro, porque o Coronavírus transmite-se através das gotículas respiratórios, provenientes da tosse ou dos espirros.

Não, o Coronavírus não se transmite pelo ar só pela respiração, porque se assim fosse já estávamos todos infectados. Assim sendo podem usar máscara para se protegerem caso se sintam mais confortáveis, mas não é obrigatório, porque sejamos honestos, quantas vezes foram a um hospital ou a um centro de saúde e não levaram máscara alguma?

O importante é evitarem que alguém vos bombardeie com gafanhotos e evitarem tocar nos olhos, no nariz e na boca com as mãos sem antes as lavarem, mesmo que vos dê uma daquelas comichões horríveis.

Nota: Como foi e bem acrescentado nos comentários deste post, as máscaras de utilização única devem ser mudadas quando húmidas e consideradas contaminadas. Uma máscara fica húmida depois de algumas horas a respirar para ela, e nessa altura já não utilidade porque não cumpre a sua função que é de proteger!

Socorro, como é que me previno do Coronavírus?

Mitos relacionados com o Coronavírus!

Animais de companhia transmitem este vírus? Até agora não há evidências que animais de companhia como cães ou gatos possam transmitir o vírus (mas se tiverem um morcego como melhor amigo aí as coisas podem mudar de figura) mas é sempre boa ideia lavar as mãos depois do contacto com os animais, porque ajuda a prevenir que fiquem infectados com alguma bactéria de E.coli ou de Salmonela.

Só as pessoas mais velhas estão susceptíveis de serem infectadas por este novo Coronavírus (2019-nCoV)? Qualquer pessoa pode apanhar o vírus, mas os grupos de maior risco são os idosos, visto que o sistema imunitário está mais debilitado, e indivíduos com condições médicas pré-existentes como asma, diabetes ou doença cardíaca.

Os antibióticos são eficazes em prevenir e tratar este novo Coronavírus? Eu sei que muitos de vocês queriam que eu dissesse que sim para terem um motivo para infernizarem o vosso farmacêutico a vender-vos uma daquelas caixinhas de três comprimidos de antibiótico sem receita, mas não! O 2019-nCoV é um vírus, e os antibióticos só tratam bactérias, por isso não servem de nada.

Existe algum medicamento para prevenir ou tratar o Coronavírus? Apesar de estarem a ser investigados meios de tratar este maravilhoso vírus, de momento não há nenhum medicamento específico recomendado para a prevenção ou tratamento da infecção por Coronavírus. O importante é estar alerta, entrar em contacto com os prestadores de cuidados de saúde aos primeiros sintomas (a Linha Saúde 24 é fantástica) e sim, isso mesmo, lavar sempre as mãos!

Há alguma dúvida acerca do Coronavírus que ainda tenham? Como é que estão a lidar com todo este rebuliço que há nas redes sociais? 

 

Ainda sobre a minha experiência de Destralhar

30.01.20, Triptofano!

Como vocês sabem, no domingo passado eu destralhei e sobrevivi, mas houve uma pequena coisa que eu não vos contei porque estava à espera de saber como é que o meu organismo ia reagir.

Digamos então que quando eu estava afincadamente a mandar coisas para o lixo (e a chorar babo e ranho nos entretantos) descobri um saco com prendas do Natal de 2018, que eu tinha guardado muito bem guardadinho com o intuito de o arrumar melhor talvez algures nos próximos 20 anos.

Ora, o que é que a minha pessoa descobriu dentro desse saco?

Duas caixas enormes de Ferrero Rocher ainda por abrir.

O problema? A validade tinha acabado em Fevereiro de 2019! 

Toda a gente sabe que o Ferrero Rocher é um bicho frágil, que nem é vendido no Verão para não se deteriorar, mas o que poucos conhecem é que isso é tudo uma manobra de marketing aldrabão, porque quando eu fui ao Brasil eles tinham lá Ferrero Rocher a ser vendido no pico do calor. Se quem comesse aqueles bombons ficava muito bem da barriga isso já é outra conversa totalmente diferente, mas o que importa saber é que há Ferrero Rocher à venda durante o tempo de calor!

Isto tudo para dizer que eu ponderei em deitar os chocolates fora durante três nano-segundos, mas o que realmente aconteceu foi que até hoje tenho-os estado a comer todos os dias ignorando completamente o prazo de validade. Está bem que o chocolate já está assim um bocadinho mais amofado, mas o que interessa é que até agora ainda não fiquei de caganeira!

É que se tivesse ficado obviamente que não vos vinha contar nada que vocês diziam que eu não batia bem da marmita, mas assim ficam a saber que caso encontrem uma promoção de Ferrero Rocher no supermercado com a validade já assim quase a passar podem comprar na mesma e guardar para dar no Natal de 2020!

Acreditem que é seguro e também qualquer coisa podem raspar a validade que assim nunca ninguém vai saber que aquele internamento a soro durante 4 dias no hospital foi culpa vossa!

Destralhei e Sobrevivi

27.01.20, Triptofano!

Aqui a minha pessoa, como já escrevi anteriormente no blog, tem um pequeno (assim pequeníssimo quase inexistente) problema com mandar coisas fora.

Um prego enferrujado encontrado no chão em 1999? Guardo porque nunca se sabe quando é que pode ser preciso pregar um quadro e apanhar tétano ao mesmo tempo!

Uma factura do supermercado de 2003 quase já sem tinta? Guardo porque sabe-se lá se aqueles Doritos que eu comprei no Feira Nova (quem é que ainda se lembra deste supermercado?) não podem vir a causar-me uma inflamação intestinal quase 20 anos depois e sem ela não posso pedir nenhum reembolso do valor dos aperitivos de milho!

O engraçado é que eu não preciso de muito para viver. Se me dissessem que no próximo ano ia ter que subsistir apenas com uns ténis e uma mantinha para tapar as minhas miudezas eu era homem para não me preocupar, porque verdadeiramente não necessito de muitas coisas na minha vida. O problema é que não consigo desligar-me das coisas que já tenho em casa, e muitas vezes também não consigo deixar de trazer tralha especialmente se for grátis mesmo que eu não precise dela para nada.

Todas as coisas que eu vejo ou possuem um valor sentimental ou eu acho que podem ser úteis ou simplesmente já estão em minha casa há tanto tempo que mais cinco menos cinco anos também não vai fazer diferença certo?

Só que eu não vivo sozinho, e o Cara-Metade é completamente o oposto de mim, ou seja é uma verdadeira máquina de destralhar, o que obviamente leva a que volta e meia tenhamos algumas discussões, porque ele quer deitar fora uma garrafa de plástico fora e eu choro baba e ranho porque quero ficar com ela para fazer sumos verdes saudáveis (algo que muito provavelmente não vai acontecer) ou porque eu choro baba e ranho porque ele quer deitar fora uma coisa que é dele mas a mim custa-me aceitar que ele vá pôr na reciclagem o manual de instruções de um frigorífico que ele comprou antes de vivermos juntos e agora já nem sequer tem.

Destralhar para mim é complicado, mexe-me com os nervos e faz-me começar a hiperventilar, só que compreendo que para ter uma casa minimamente habitável volta e meia é necessário.

Por isso, este domingo, depois de me ter mentalizado durante hora e meia e enfiado um calmante para o bucho, comecei a destralhar o escritório com a ajuda do Cara-Metade.

Atacámos as caixas e caixotes de aparelhos electrónicos que guardamos durante um mês ou dois caso haja alguma avaria, mas que acabam por ficar esquecidos durante anos a fio. Confesso que se por um lado senti-me nervoso a ver quantidades industriais de papelão e esferovites e plástico a sair de casa, por outro foi uma vitória e uma sensação de alívio colocar tudo aquilo na reciclagem.

Porque sejamos honestos, o que é que eu ia fazer com 10 paletes de esferovite? Um disfarce para o Carnaval? (oh catano, agora que penso nisso se calhar até tinha sido boa ideia...) No fim de contas, ter a casa livre de tralha, com espaço para a energia circular livremente é muito melhor do que acumular coisas que sei que dificilmente irei usar.

Mas o que me mexeu verdadeiramente com os nervos foi que depois dos caixotes o Cara-Metade quis organizar as gavetas dos medicamentos. Sim, porque eu não tenho uma gaveta de medicamentos, tenho várias, onde as coisas estão ligeiramente ao molho e fé em deus e dificilmente se encontra alguma coisa.

Por isso, o meu maravilhoso marido, comprou no Ikea um móvel pequenino com gavetinhas para organizarmos a medicação, e, ao mesmo tempo, deitarmos fora coisas que já tivessem passado demasiado do prazo ou que nunca fossemos usar (como um suplemento para a intolerância à lactose que nunca tomei porque nunca desenvolvi tal intolerância).

Descobri que tenho demasiados medicamentos, digamos que possuo anti-diarreico suficiente para entupir um elefante durante uma semana, o que me fez conseguir mandar algumas coisas (poucas) para a reciclagem, porque não faz sentido guardar milhares de comprimidos para um eventual cataclismo Zombie.

Confesso que foi-me mais difícil mandar os comprimidos fora do que o cartão, mesmo aqueles que já tinham expirado em 2014, mas consegui e senti-me novamente livre. O facto de também ter deitado fora embalagens exteriores e bulas e cortado blisteres gigantes que já só tinham um comprimido também me fez sentir como se tivesse ganho uma pequena batalha.

É verdade que a guerra do destralhanço ainda agora começou, mas pelo menos até ao momento sobrevivi!

O Leitor Decide - Modafinil

24.01.20, Triptofano!

O Leitor Decide: Qual a Decisão de Lúcia?

a) Pega no livro decidida a queimá-lo - 1 Voto 

b) Vai ter com Jaime e conta-lhe o sucedido na esperança que ele a ajude - 0 Votos

c) Desmarca o encontro e vai à procura do alfarrabista que lhe vendeu o livro - 8 Votos 

O Leitor Decide

 

Fechou os olhos com força e respirou o mais calmamente que conseguiu. Tudo aquilo tinha de ser um pesadelo, não era possível que aquilo pudesse estar a acontecer-lhe. Abriu os olhos e as mensagens continuavam lá, a brilhar de forma ameaçadora. Tinha de tomar uma decisão...

Lúcia pegou no telemóvel e mandou uma mensagem rápida a Jaime:

Surgiu um imprevisto, não vou poder ir jantar. Desculpa. Depois falamos.

Sabia que se lhe contasse ele não iria acreditar, porque na realidade nem ela própria acreditava muito bem em toda aquela história, mas as mensagens que tinha recebido do número desconhecido continuavam a brilhar aterrorizantemente no seu telemóvel. Algo ou alguém tinha acabado de a ameaçar e ela não podia ficar simplesmente sem fazer nada.

Voltou a pegar no telemóvel e pediu um Uber para a levar até ao alfarrabista que lhe tinha vendido o livro. Podia ir de carro, mas estava demasiado nervosa para conduzir e aquela zona da cidade não era propriamente fácil para estacionar. A aplicação soltou um zumbido metálico mostrando-lhe que o seu motorista chegaria em 3 minutos.

Lúcia vestiu-se em tempo record, pegou na mala e lançou lá para dentro o livro. Talvez devesse queimá-lo, mas algo lhe dizia que não era isso que resolveria a situação.

O Uber já estava à espera dela quando saiu da porta do prédio. Era um Tesla cinzento com os vidros fumados, que deixou Lúcia ligeiramente surpreendida. Que ela se lembrasse não tinha pedido o upgrade de veículo, mas com os nervos se calhar tinha carregado em alguma parte da aplicação sem dar conta, mas isso também não era importante.

Abriu a porta, entrou para dentro do carro e cumprimentou o motorista, que apenas lhe lançou um olhar mortiço pelo espelho retrovisor.

Os motoristas estavam cada vez mais simpáticos, pensou Lúcia com ironia, mas pelo menos não tinha que fazer conversa fiada. Fechou os olhos embalada pelo silencioso deslizar do carro e quase desejou adormecer, na esperança de quando acordasse tudo não tivesse passado de um sonho mau. Mas não, tinha que ser forte, ir ter com o alfarrabista e arrancar-lhe as respostas que ela precisava, de uma forma ou de outra.

Faltava um quarteirão para chegar ao seu destino quando subitamente o veículo virou à direita afastando-se da loja do alfarrabista. A estrada não estava cortada nem havia sequer trânsito que justificasse aquela mudança de rota, por isso porque raio é que estavam a ir noutra direcção?

Desculpe - disse Lúcia - acho que se enganou. Era suposto continuar em frente.

O motorista voltou a olhar pelo espelho retrovisor mas não disse sequer uma palavra. Apenas um ligeiro sorriso assomou nos seus finos lábios. Um sorriso que gelou Lúcia dos pés à cabeça.

DESCULPE, MAS ESTAMOS NA DIRECÇÃO ERRADA. ESTÁ-ME A OUVIR?

Naquele momento ela já estava fora de si. Do banco do condutor não vinha qualquer resposta e o carro continuava a deslizar silenciosamente, dirigindo-se para uma zona da cidade que estava abandonada e só era frequentada por sem-abrigo e toxicodependentes.

O carro parou e antes de Lúcia sequer perceber o que se estava a passar o motorista virou-se para trás e tentou alcançar-lhe a garganta com a mão aberta, exactamente como tinha acontecido com Ana no livro, por isso num impulso também ela lhe mordeu o polegar violentamente.

O homem recuou com a dor durante um instante o que deu a Lúcia a oportunidade de se atirar para o fecho da porta tentando abri-la, só que estava trancada centralmente. 

Aquilo não lhe podia estar a acontecer, aquilo não podia ser verdade, porque é que aquele homem estava a atacá-la?

O motorista voltou à carga e lançou-lhe as duas mãos ao pescoço, apertando com tanta força que Lúcia temeu que ele se partisse em dois. Tinha de fazer alguma coisa antes de ficar sem ar e desmaiar.

Eu tenho dinheiro, se é dinheiro que quer eu tenho muito - balbuciou ela na esperança que ele a largasse.

Ela não morreu, por isso agora tens de morrer tu! - sibilou o homem com os olhos injectados de sangue, apertando cada vez com mais força o pescoço dela.

Era o fim, não ia conseguir fugir, a não ser que.....

 

O Leitor Decide: Qual a decisão de Lúcia:

a) Finge que desmaiou para o homem a largar e depois tentar fugir

b) Tenta procurar na mala algo para usar como arma

c) Bate com os pés no vidro do carro na tentativa de chamar a atenção de alguém

d) Oferece o livro ao homem em troca de a deixar ir embora

 

Deixem a vossa escolha nos comentários! Na próxima sexta-feira a história continua de acordo com a vossa decisão!

Se só agora se juntaram à história leiam os episódios anteriores: Anastrozol, Campral, Victan e Haldol.

Triptofano, o Socorrista

23.01.20, Triptofano!

Nos últimos meses de 2017, aqui o vosso amigo Triptofano tornou-se socorrista, o que dá sempre jeito caso haja alguma alminha que se lembre de desmaiar na farmácia.

Felizmente até ao dia de ontem não tive de usar os meus conhecimentos, porque sempre que dou de caras com alguém que parece que pode vir a desmaiar digo-lhe logo que para quinar é fora da farmácia, que eu tenho duas hérnias e depois não consigo arrastar o corpo lá para fora. As pessoas riem-se sempre quando eu digo esta piada, mas mal elas sabem que não é uma piada...

Mas antes de vos contar como é que tive de usar as minhas capacidades de socorrista, lembrei-me que acho que nunca vos contei como é que fui agredido no curso de socorrismo que frequentei.

Basicamente, no último dia de formação temos de fazer alguns teatros, onde umas pessoas fazem de socorristas e outros de vítimas histéricas. E claro que aqui a minha pessoa foi a vítima mais histérica de sempre.

Lembro-me que estava a fazer par com outra moça que estava a fingir que se tinha cortado, e eu comecei a hiperventilar e a anunciar aos sete ventos que me estava a dar o chilique.

Ora chegam os dois colegas socorristas, um vai ajudar a tratar o corte da moça e a outra, uma senhora cinquentona, muito delicada, que trabalhava num leilão de obras de arte, vem tentar acalmar-me.

Diz-me umas palavras, põe-me as mãos nos ombros, e quando vê que aqui a minha pessoa não se acalma (quando é para representar eu dou tudo por tudo como se estivesse numa novela da TVI) puxa a mão atrás e dá-me um estalo gigantesco. É que não foi uma daquelas tapas na bunda que faz mais barulho do que dor, foi um estalo que quase me deslocou o maxilar.

É verdade que eu parei logo ali de fazer o que quer que fosse, mas a formadora teve de chamar a atenção que bofetear uma pessoa a necessitar de socorro é um bocadinho pouco ético. Eu nem quero imaginar a senhora no seu dia-a-dia no trabalho - se calhar ela consegue vender tudo a preços fantásticos porque as pessoas sabem que se não comprarem são esbofeteadas até à morte.

Agora deixem-me contar-vos o que é que aconteceu ontem.

Estava eu muito bem sentadinho na farmácia a comer um triângulo de Toblerone quando chega uma colega vinda de um atendimento a pedir-me para eu o ir terminar.

O primeiro pensamento que tive foi que a desgraçada tinha acabado de entrar e já estava cansada. Só que quando olhei para ela a rapariga estava mais pálida que uma lula ultra-congelada, por isso chamei outra colega para ir terminar o atendimento, porque além de eu estar cheio de chocolate no bigode tinha que evitar que a mulher morresse ali ao pé de mim.

Tentei-me lembrar de tudo o que tinha aprendido no curso de socorrismo e confesso que deu-me uma branca, porque a única coisa que me veio à cabeça foi uma amiga minha de Matosinhos a dizer que nunca devíamos deixar a pessoa perder a consciência.

Por isso peguei nos ombros da minha colega, dei-lhe duas palmadas no rosto com carinho (que eu não sou pessoa agressiva), olhei-a nos olhos muito fixamente e disse-lhe:

Pensa em pila!

Eu não sei se ela pensou na minha pila, se ela pensou na pila do marido, se ela pensou que iam aparecer pilas voadoras a dar-lhe batucadas na nuca, se ela imaginou-se a ter uma pila ou lá o que é que ela magicou naquela cabeça, só sei que se riu e eu consegui evitar que ela desmaiasse.

Está bem que depois tive de a levar para um sofá, elevar-lhe as pernas, dar-lhe uma papa de água com açúcar e medir-lhe a tensão arterial - mas, o que salvou a situação foi pensar em pila, disso tenho toda a certeza.

Assim sendo meus caros amigos e leitores, quando precisarem de socorrer alguém que esteja quase a apagar-se, falem em pila. É garantido.

Agora se quiserem inovar e pedirem para as pessoas pensarem em clitóris já não garanto tanto sucesso. Por exemplo, se fosse comigo, acho que ainda me gregava era todo....

Levar na Bufa

22.01.20, Triptofano!

Levar na Bufa

Queridos leitores deste blog, por favor humildemente ajudem-me a compreender este termo de pesquisa com o qual alguma maravilhosa alma encontrou o meu blog.

Levar na bufa é a mesma coisa que levar na peida/rabo/zona anal ou é um código para algo que eu desconheça?

É que se fosse levar com uma bufa, pronto, eu até entendia, porque já me aconteceu, não levar com uma mas pregar um verdadeiro torpedo num pobre gato.

Agora levar na bufa deixa-me confuso.

Será que é quando uma pessoa está prestes a soltar um peido e a destruir um bocadinho mais da camada de ozono e pimba, alguém enfia-nos um dedo mesmo no meio da nossa bufa?

Já agora, queria saber se há mais alguém que tenha este meu hábito.

Às vezes estou na rua e preciso de libertar um ar intestinal, mas como estão pessoas à volta fico com vergonha. O que costumo fazer é colocar os fones nos ouvidos, por a música suficientemente alta para abafar ruídos e aí sim peidar-me.

Teoricamente uma bufa que não seja ouvida é uma bufa que não foi dada certo?

As 16 músicas candidatas ao Festival da Canção de 2020

E as minhas postas de pescada sobre elas!

16.01.20, Triptofano!

Já foram reveladas as 16 músicas candidatas ao Festival da Canção de 2020 e aqui a minha pessoa já as ouviu a todas de forma a poder vir lançar algumas postas de pescada sobre quem é que tem possibilidades de ganhar, quem não ganha mas vai fazer algum burburinho e quem devia ter ficado em casa.

Algo fantástico que tem acontecido nos últimos anos no Festival, e neste repete-se, é a diversidade de géneros musicais. Deixou de ser sempre a mesma melodia repetida até ao infinito apenas com outra letra para termos sonoridades e estilos bastante diferentes, representativos da diversidade musical que existe no nosso país.

Canção de Intervenção e Preciso de ir à Wikipédia são os termos que me ficaram na cabeça depois de ouvir as 16 músicas candidatas ao Festival da Canção de 2020, mas deixo que vocês tirem as vossas próprias conclusões.

Quem provavelmente vai ganhar

'Passe-Partout' / Intérprete - Bárbara Tinoco / Autor - Tiago Nacarato

Metade do país andou com o Antes dela dizer que sim da Bárbara Tinoco em repeat no cérebro e, secretamente estávamos todos à espera que ela viesse com uma canção de fazer chorar as pedras da calçada e qual versão feminina do Salvador Sobral limpasse o prémio da Eurovisão.

Só que não! Este Passe-Partout é uma mistura de António Zambujo com Luísa Sobral a cantar o Xico e um cheirinho de Deolinda, e apesar de ser totalmente diferente do Antes dela dizer que sim é uma canção que se entranha na cabeça e que no próximo ano vai ser cantada por muito boa gente nos programas de talentos.

O único problema? O facto de uma pessoa que não tenha andado na Sorbonne precisar de uma enciclopédia para perceber metade da música. George Méliès? Jean-Baptiste Molière? Ração do Barber? (não faço ideia que raio de bicho é esse) Agora só espero é que ela não apareça vestida como a Filipa Gomes...

'Diz Só' / Intérprete - Kady / Autor - Dino D’Santiago

Impossível não começar logo a mexer o corpo quando a sonoridade deste kizomba interpretado pela Kady nos chega aos ouvidos. A letra possui uma forte mensagem política o que mostra que o kizomba não é só a tarraxinha.

Quero ser livre com quem me ensine, que não gagueja quando pensa e Diz-me quem foi, Angela Cesária ou Michelle, Diz-me quem foi, Paulina Maria Grace ou Marielle são óptimos exemplos de como este Diz Só foi criado como forma de empoderamento da mulher e das minorias e mesmo assim pode ser levado para a pista de dança.

'Medo de Sentir' / Intérprete - Elisa / Autor - Marta Carvalho

Esta canção da Elisa arrebatou-me todas as moléculas do meu ser e está no meu Top 3, sendo que tem grandes probabilidades de levar a vitória para casa. Tudo vai depender da interpretação da música, que pede uma emoção contida ali prestes a extravasar a cada verso.

O que é que seria assim ouro sobre azul? Um bailarino que traduzisse a canção em linguagem gestual. Era só maravilhoso. Era só fantástico. Era só um arraso. Não precisas de agradecer pela ideia Elisa, mas se ganhares depois partilha o link aqui do blog nas tuas redes sociais ok?

Quem não ganha mas vai fazer burburinho

'Abensonhado / Intérprete - Jimmy P / Autor - Jimmy P

Não sou um grande fã de RAP, mas esta canção auto-biográfica do Jimmy P tem uma batida tão forte e uma letra tão envolvente que é impossível não ficar com um aperto no peito quando se a ouve. Só tirava aquela parte em inglês que acho que destoa e faz perder o fluxo natural da melodia.

'Dói-me o País' / Intérprete - Luiz Caracol e Gus Liberdade / Autor - António Avelar de Pinho

Mais uma canção de intervenção misturada com termos médicos que dá vontade de irmos comprar um anti-inflamatório analgésico à farmácia mais perto e mandar ao pobre do senhor.

A canção ouve-se bastante bem, com uma sonoridade tranquila só interrompida pela intervenção de Gus Liberdade, que confere uma energia mais do tipo vou dar uma lambada neste médico se ele não me passa um atestado!

'Gerbera Amarela do Sul' / Intérprete - Filipe Sambado / Autor - Filipe Sambado

Zeca Afonso, JP Simões, Brigada Victor Jara - são tudo nomes que me vêem à cabeça quando ouço esta canção folk de intervenção digna do Avante que é muito mais do que parece à primeira vista.

Confesso que a minha capacidade intelectual não é suficiente para compreender todos os detalhes da letra mas acredito piamente que estamos perante o sucessor do Conan Osíris. E se não acreditam deitem um olhinho no Instagram do Filipe - as pessoas ligeiramente loucas são sempre as melhores!

De quem eu estava à espera de muito mais

'Rebellion' / Intérprete - Blasted  / Autor - Blasted

Que memórias maravilhosas os Blasted me trazem e parte de mim queria algo do tipo da Battle of Tribes, é que este Rebellion sabe a pouco, a muito pouco mesmo. É como quando comemos uma gelatina sem açúcar e queríamos era enfardar um bolo de brigadeiro.

Não obstante é uma música que eu não tenho problemas em imaginar como banda sonora de um jogo do género Silent Hill porque cria aquela envolvência assustadora para depois libertar-se numa explosão do tipo igreja a ser consumida vertiginosamente pelas chamas.

Quem devia ter ficado em casa

'Agora' / Intérprete - JJaZZ / Autor - Rui Pregal da Cunha

O rapaz canta bem. A rapariga canta bem. Os dois juntos são um susto para o meu canal auditivo. E aquela parte da música em inglês foi colada um bocadinho a cuspo. Pois que não me convence desculpem lá!

'Quero-te Abraçar' / Intérprete - Cláudio Frank / Autor - Cláudio Frank

Se esta música fosse uma nova versão do Jajão eu juro que votava até à exaustão, só que o Quero-te Abraçar é uma simples música de engatar a dama, com alguns versos em inglês para as damas internacionais que isto uma pessoa tem de ser do mundo. O único problema é que o Cláudio Frank desafina um bocadinho (só um bocadinho pequenino), e os falsetes não são bem a praia dele.

'Não Voltes Mais' / Intérprete - Elisa Rodrigues / Autor - Elisa Rodrigues

Ninfa da Floresta que andou a escavar o chão do Boom para encontrar um saco de farinha seria a forma como eu classificaria o sentimento que esta canção me transmite.

Lamento mas não consigo gostar de músicas cuja maior parte da letra são palavras inventadas que uma pessoa nem sabe soletrar e parece que estão ali só para encher chouriços. É como quando vamos ao karaoke e achamos que o Instrumental é para ser cantado. Além disso, dar ordem de soltura ao coração parece-me um problema médico que ninguém anseia em ter.

'Cubismo Enviesado' / Intérprete - Judas / Autor - Hélio Morais

Vês ou Não é repetido 32 vezes. Ou isto é um mantra para alcançarmos outra dimensão ou contêm uma mensagem escondida que me vai fazer comprar 20 embalagens de detergente para a roupa de uma certa marca da próxima vez que for ao supermercado.

RTP, se as letras das canções podem ser assim mais singelas então não se acanhem e convidem-me para o ano que eu também consigo ok?

Quem já me esqueci e ainda nem actuou

'O Dia de Amanhã' / Intérprete - Ian Mucznik / Autor - João Cabrita

Rui Veloso cruzado com o Imagine do John Lennon - Bocejo!

'Copo de Gin' / Intérprete - Meera / Autor - Meera

Alguém se lembra das Antilook? Aquela girls band portuguesa composta por 5 modelos nacionais? Esta canção seria perfeita para elas!

....... Não se lembram das Antilook como assim? Isso é demasiado Gin que beberam só pode...

'Movimento' / Intérprete - Throes and the Shine / Autor - Throes and the Shine

A única coisa que me vai ficar na memória é aqueles backing vocals no refrão que podem ter muito bem sido a pior escolha de 2020.

'Cegueira' / Intérprete - Dúbio Feat +351 / Autor - Dúbio Feat +351

A música para o novo filme da Família Adams?

'Mais Real Que o Amor' / Intérprete - Tomás Luzia / Autor - Pedro Jóia

Hibrido de Fado com Gipsy Kings e boys band dos anos 90 que fazia derreter o coração da pitalhada e que eu totalmente visiono a aparecer em qualquer um daqueles programas de domingo à tarde onde o pessoal telefona para ganhar um carro. Mas sendo honesto tenho de confessar que precisei de ir à Wiki para descobrir o que eram cartas de alforria!

 

E vocês, o que é que acham das 16 músicas candidatas ao Festival da Canção de 2020? Qual é que é a vossa preferida, a que menos gostam e a que acham que vai acabar por ganhar? E qual é a vossa opinião pelo facto do Festival estar-se a tornar cada vez mais uma montra da música que é feita em Portugal e não tanto uma procura por uma sonoridade Eurovisiva que muitos já consideram ultrapassada?

A minha Fome Emocional

14.01.20, Triptofano!

Eu adoro comer. Simplesmente adoro comer, descobrir pratos novos, experimentar ingredientes diferentes, compreender a história por detrás da comida e escrever sobre ela.

Não tenho grandes problemas em conseguir enfiar para dentro do estômago quantidades gigantescas de comida, mas quando a minha fome é fisiológica, ou seja, quando sinto que tenho mesmo necessidade de comer para não cair para o lado, sei perceber até que ponto como para me sentir saciado e a partir de que altura já estou simplesmente a ser lambão.

O problema é a minha fome emocional. Aquele fome que não está localizada no estômago, que não é a barriga a dar horas, mas sim aquela vontade de comer que vem do cérebro.

Uma vontade incontrolável de comer gorduras e doces com texturas muito específicas. Não é uma fome onde qualquer coisa serve, onde uma salada engana o estômago ou um cozido à Portuguesa deixa um brilhozinho nos olhos. É uma fome de batatas fritas e bolachas e grandes pedaços de queijo com pão e cebola frita e torresmos e mais batatas fritas especialmente aquelas onduladas que são tão mais crocantes e salgadas.

A fome emocional chega sem aviso. Não bate à porta, entra logo por ela adentro. E o problema é que ainda não compreendi qual é o padrão que me faz comer emocionalmente. Podia ser quando estou mais stressado ou ansioso ou deprimido, mas há dias que me sinto perfeitamente normal e tenho vontade de comer como se não houvesse amanhã. De enfiar tudo pela garganta abaixo sem sequer saborear o que estou a ingerir. 

Talvez seja frustração o que me faz comer, mas acaba por ser uma bola de neve porque quando termino sinto-me ainda mais frustrado. Não porque vou engordar ou porque consumi mais 1000 calorias do que devia - ainda não cheguei a esse ponto mas não significa que mais dia menos dia isso não me comece a preocupar - mas porque podia ter guardado aquele alimento para outra ocasião onde o pudesse aproveitar melhor, o que faz com que acabe por nunca o terminar verdadeiramente para ter uma espécie de desculpa.

Explicando melhor, quando tenho fome emocional sou capaz de abrir uma embalagem de batatas fritas e comê-lo de uma vez só, mas quando percebo que estou a chegar ao fim do pacote paro e guardo-o, nem que seja só com umas migalhas. Provavelmente até vou abrir outro que também deixo só com restos, mas nunca consigo terminar o pacote até ao fim. É como se acabar todas as batatas fosse a machadada final, a prova de que já não me podia continuar a iludir e que sim, que num acesso de qualquer coisa engoli uma data de comida só para tentar sentir-me bem e muito provavelmente nem me fiquei a sentir.

Não sei o que fazer com esta fome emocional, nem sei se estou preparado para as mudanças que terei de adoptar quando perceber o que é que a causa...

4 Guilty Pleasures no Youtube

13.01.20, Triptofano!

Sejamos honestos, todos nós temos pelo menos um guilty pleasure no Youtube que vemos vezes e vezes sem conta, e que nos dá assim um arrepio na espinha e nos faz ir para a cama às duas da manhã quando estamos carecas de saber que temos de acordar no dia seguinte às seis e meia.

Os guilty pleasures costumam ser coisas que não revelamos a mais ninguém porque não queremos que nos achem "estranhos", mas quando vamos ver as visualizações de vídeo X ou Y percebemos que espalhados pelo mundo há pessoas que vibram com as mesmas coisas que nós.

Deixo-vos, para vossa alegria (ou não), 4 dos meus guilty pleasures que podem encontrar no Youtube.

1 - Apertar Borbulhas

Há quem odeie só de pensar mas há uma verdadeira legião de entusiastas do apertanço da borbulha, seja como simples voyeurs ou atacando sem dó nem piedade as costas e testas dos familiares mais desprevenidos lá de casa. A loucura por ver quantidades gigantescas de pus a serem apertadas é tão grande que até existe um programa no TLC com a Dr. Pimple Popper, que honestamente não me dá tanto prazer como ver os vídeos, porque uma pessoa quer é vibrar com dezenas de pontos negros a serem retirados da toca e não ouvir as histórias dramáticas de como aquela borbulha que parece um Maltesers arruinou a vida sentimental da pessoa (alguém acredita mesmo que uma pessoa ficou 40 anos com uma borbulha gigantesca no meio da testa sem nunca a ter tentado remover....?).

2 - Arrancar Pêlos 

Aqui o mais importante minha gente é o zoom, porque se a imagem não estiver ampliada umas milhentas vezes a piada perde-se toda. É simplesmente divinal ver-se aquele pêlo encravado do demónio a ser puxado cá para fora em todo o seu esplendor. Uma haste negra, grossa, a sair de dentro da pele onde já estava a querer causar uma infecçãozita malandra. É emocionante ver as tentativas para tirar o pêlo até que finalmente pimba, inferno com ele! E quando se descobre que ele cresceu para dentro e o que sai é algo do tamanho de um braço? Esse é o momento em que eu tenho um pequeno orgasmo de satisfação.

3 - Tirar Tártaro dos Dentes

Estão a ver aquelas pessoas que nunca foram introduzidas a uma coisa chamada higiene oral e cujos dentes estão basicamente a formar outros dentes por cima? Só tenho que agradecer a esses seres iluminados porque há algo de libertador em ver quantidades gigantescas de tártaro a serem removidas quase que à picareta, como se fosse um prédio devoluto que estivesse entaipado e agora alguém tivesse decidido mandar os tijolos abaixo. A única coisa que me faz confusão é ver os dentes das pessoas antes e depois, porque parece que metade da boca da pessoa desapareceu! Será que ela ainda vai ser capaz de mastigar bifes mais rijos ou vai ter que adoptar uma dieta líquida?

4 - Retirar Cera dos Ouvidos

Este guilty pleasure descobri-o à muito pouco tempo e tal descoberta deveu-se ao facto do Cara-Metade adorar tirar-me cera dos ouvidos (se um dia ficar surdo já sabem quem culpar). Ora, pensei eu, se ele adora de certeza que há vídeos no Youtube com pessoas a tirar cera dos ouvidos. E a verdade é que além de existirem são fascinantes. Ver quantidades industriais de matéria de vela a serem raspados para depois saírem com a ajuda de uma pinça é de deixar uma pessoa literalmente a babar-se de tão bom que é. Agora tenho de confessar-vos uma coisa, sempre que visiono um destes vídeos temo que quando a cera sai descubra-se que por detrás estão ovos de mosca ou uma aranha embalsamada ou coisa do género - acho que uma visão dessas seria o suficiente para começar a dormir sempre com tampões nas orelhas, pelo sim pelo não!

E vocês, quais são os guilty pleasures que vêem no YouTube mas não confessam a ninguém?

Pág. 1/2