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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

A importância de ser visível

20.11.18, Triptofano!

Volta e meio ouço alguém dizer, ou leio em algum sítio, que não percebe a questão da visibilidade dos homossexuais.

 

Que não compreendem porque é que existe uma marcha do Orgulho Gay quando não existe uma marcha do Orgulho Heterossexual.

 

E que não faz sentido que as pessoas tenham de andar para aí a fazer o Coming Out já que a sexualidade deve ser algo de privado e não esfregado na cara das outras pessoas.

 

E eu gostava muito, mas muito mesmo, de poder concordar com essas pessoas.

 

De dizer que a marcha gay era algo obsoleto, que assumir a orientação sexual a todo o mundo era só para vender revistas, mas infelizmente não posso.

 

Simplesmente porque apesar de tudo continua a ser de extrema importância ser-se visível.

 

Hoje, quando acabei de nadar, encontrei no balneário o grupo de seniores do costume, que habitualmente falam de política, ou do tempo da guerra colonial, ou de piadas sem grande piada mas que fazem com que todos se riam com mais ou menos vontade.

 

Só que desta vez o tema eram os paneleiros.

 

Que nunca se deviam casar, que não tinham nada contra eles (felizmente que neste país maravilhoso nunca ninguém tem nada contra ninguém, o que seria se tivessem...) mas que não deviam andar a exibir-se em público, que andar aos beijos ou de mão dada era só mesmo para provocar as pessoas, que agora andam todos a assumir-se como gays e é mais moda do que outra coisa, que já existia um lobby contra os heterossexuais....

 

Conclusão, ninguém tem nada contra os homossexuais desde que basicamente eles não existam publicamente, que se faça tudo às escondidas e que com alguma sorte ainda tenham casamentos de fachada e as aventuras desviantes sejam feitas pelas sombras.

 

É por isto que é tão importante a visibilidade homossexual.

 

Não é uma questão de querer esfregar na cara dos outros a nossa sexualidade, mas sim de saber que temos o direito de optar entre mantermos a nossa vida pessoal privada ou decidir que a queremos viver publicamente.

 

Não é termos de nos sujeitar às decisões de terceiros sobre como é que vamos viver a nossa vida, não é voltar à era da clandestinidade homo-amorosa.

 

Assumir a homossexualidade é uma forma de garantirmos que não chega um extremista que de um momento para o outro silencia por completo a nossa voz.

 

É não darmos espaço e força a quem vive incomodado com a nossa existência em vez de se preocupar com a sua vida.

 

E o orgulho gay não é orgulho em ser-se homossexual.

 

É orgulho em ser-se diferente numa sociedade que tendencialmente não aceita a diferença e não se ter medo de existir em toda a plenitude.

 

É não baixar a cabeça quando se ouvem comentários ignorantes que apenas tem o intuito de ferir e humilhar.

 

É sorrir com toda a força do nosso ser e ter pena, ter pena de todos aqueles que sofrem da doença chamada ignorância, doença para a qual há cura, mas muito poucos estão dispostos a receber tratamento!

Kerala

20.11.18, Triptofano!

Sempre que penso na Índia lembro-me da viagem que fiz com o Cara-Metade e a minha mãe.

 

As viagens longas entre cidades com o motorista da nossa carrinha a adormecer enquanto conduzia, a minha mãe a provar tudo do meu prato primeiro para saber se era ou não picante, e claro, o quase incidente que se passou no rio Ganges.

 

Após ter estado tão envolvido na cultura, na qual englobo a gastronómica, do pais, quando me convidam para ir a um restaurante indiano torço sempre um pouco o nariz, porque simplesmente não estou numa fase de ir a um local que partilhe os sabores do cardamomo com pizzas de cogumelo e ananás, ou onde a comida venha em tacinhas com lamparinas por baixo e em que tudo saiba ao mesmo.

 

Visitar o Kerala, após ter ouvido tão bem do espaço, foi um salto de fé, salto este que compensou totalmente.

 

Ir ao Kerala, que partilha o nome com um dos 28 estados da Índia, localizado no extremo sudoeste do país, pode ser simplesmente uma ida a um restaurante, mas se quiserem rapidamente se torna numa viagem, não só pelos sabores, mas como pela cultura de um país tão diferente que o nosso.

 

Mal se entra no restaurante somos invadidos por um cheiro peculiarmente singular, que nos envolve e nos transporta.

 

A decoração é simples mas bonita, e a simpatia de quem nos recebe transborda.

 

Há quem fale português fluentemente neste espaço, mas há quem se sinta mais confortável no inglês.

 

E foi nesta língua que passámos um par de horas a dialogar sobre comida, ayurveda, tradições, casamentos, formas de encarar a vida...

 

Kerala significa terra do coco, e este ingrediente está presente em todos os pratos, de uma forma mais ou menos subtil, mas mesmo que não sejam os adeptos mais fervorosos deste fruto, tal como eu não sou, não é isso que vos vai fazer deixar de gostar da refeição - confiem em mim!

 

O menu é extenso por isso pedimos recomendações.

 

Para entradas veio a incontornável chamuça de frango, com uma massa estaladiça, um recheio guloso e um tempero onde as especiarias fizeram toda a diferença elevando algo já tão banalizado.

 

Kerala - Chamuça de Frango

 

O Uzhunnu Vada é um doughnut que não é um doughnut, já que é feito a partir de lentilhas pretas. Extremamente saboroso e muito mais saudável, não havendo tanto risco de ficarmos com uma artéria entupida com excesso de colesterol.

 

Kerala - Uzhunnu Vada

 

No menu vão encontrar uma entrada chamada Gopi 65 onde a tradução é 65 receitas e uma menção a couve-flor.

Confuso mas altamente recomendável.

 

No Google o nome do prato tanto aparece como Gopi ou Gobi, mas o que interessa saber é que consiste em couve-flor perfeitamente temperada e depois frita, ficando uma coisa assim fantasticamente apetitosa de fazer lamber os dedos.

 

Juro que nunca pensei que pudesse desenvolver uma relação romântica tão profunda com este vegetal.

 

 

Kerala - Gopi 65

 

Para finalizar as entradas (vocês já sabem que eu enfardo quantidades industriais) vieram uns Cheese Dosa Tacos, ou seja uns tacos feitos de arroz fermentado e massa de lentilha preta recheados com queijo cottage indiano.

 

Claro que tudo o que tem queijo nutre o meu maior afecto, e estes tacos fizeram-me muito feliz, sendo que aumentaram em 98% a minha secreção de saliva de tão apetitosos que eram.

Infelizmente a relação foi unilateral, porque os tacos não ficaram felizes quando eu os comi.

 

Kerala - Cheese Dosa TacosKerala - Cheese Dosa Tacos

 

No campo das bebidas pedimos um Mango Lassi e um Naruneendi.

 

O Mango Lassi estava qualquer coisa do outro mundo.

 

Normalmente eles chegam-nos mais aguados, mas este estava tão espesso (e tão saboroso) que a palhinha quase que nem se movia no copo.

 

Para conseguir chupar este lassi foi preciso imensa força de maxilar, por isso minha gente toca de praticar em casa primeiro!

 

O Naruneendi foi uma das surpresas da noite, uma espécie de limonada por assim dizer, feito com uma raiz ayurvedica, que entre outros benefícios tem a capacidade de purificar o sangue.

 

Refrescantemente deliciosa este é um must try do Kerala!

 

Kerala - Mango Lassi e NaruneendiMedicina Ayurvedica - Naruneendi

 

Para pratos principais pedimos um Kerala Prawn Curry, que consistia em camarões marinados em leite de coco, salteados com cebola, tomate e especiarias.

 

Um sabor agradavelmente familiar, este é o prato perfeito para quem possa ter medo de se arriscar em sabores mais ousados.

 

A minha única nota menos positiva é o facto dos camarões não estarem totalmente descascados, é que uma pessoa depois para comer o bicho fica toda suja, por isso gente simpática do Kerala tirem a casca toda dos camarões, pode ser?

 

Kerala - Kerala Prawn Curry

 

O Chemmeen Theeyal é outro prato com base em camarão mas com um sabor completamente distinto.

 

Os camarões são cozidos em molho de coco assado com polpa de tamarindo e especiarias, dando-lhe um sabor formidável.

 

Para mim, o prato vencedor da noite.

 

Kerala - Chemmeen Theeyal

 

Por fim, algo muito tradicional da região de Kerala, o Pidiyum Kozhiyum.

 

Frango e bolinhos de arroz cozinhados num caril à base de coco, este prato combina dois elementos de uma forma muito agradável, o picante e o doce, sendo uma verdadeira sinfonia para as nossas papilas gustativas.

 

Kerala - Pidiyum Kozhiyum

 

Provavelmente vocês estão a pensar que depois disto tudo já não haveria espaço para a sobremesa, mas vá lá, vocês já me conhecem!

 

Provámos a tradicional Bebinca, uma sobremesa Goesa feita com leite de coco, que é famosa pelas suas sete camadas.

 

Esta Bebinca não desiludiu, sendo muito cremosa, mas ou sou eu que tenho de voltar para a escola ou havia 8 camadas em vez de sete (mas uma pessoa não se queixa por lhe mandarem mais comida para a mesa).

 

Kerala - Bebinca

 

Saboreámos também algo muito tradicional e com um sabor totalmente diferente mas extremamente agradável, o Kinnathappam, que nos é apresentado como o bolo da placa do vapor, que é um bolo doce feito à base de arroz e como não poderia deixar de ser leite de coco.

 

Kerala - Kinnathappam

 

No final da refeição deram-nos um pequeno "livro" com a história de Kerala, a sua geografia, as suas tradições, e ficámos a saber que foram os portugueses os primeiros estrangeiros a chegar àquela zona do mundo, sendo que ainda hoje há famílias portuguesas orgulhosamente lá a viver.

 

Por causa de tudo isto é que visitar o Kerala pode ser muito mais do que ir comer dois ou três pratos de comida indiana.

 

Se estiverem de mente, coração, olhos e ouvidos abertos, pode-se tornar numa viagem espectacular, sendo que a comida será indiscutivelmente um dos pontos altos dessa viagem.

 

E já agora não deixem o restaurante sem vos oferecerem uma mão cheia de mukhwas, aquele mix de sementes coloridas indianas que tanto ajuda na digestão caso tenham sido mais gulosos do que deveriam, como a refrescar o hálito, extremamente útil se tiverem planos de ir beijocar alguém!

 

Kerala

Kerala

 

 

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