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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Orange is the New Black: Season 6

31.07.18, Triptofano!

Para quem anda mais distraído, na passada sexta-feira estreou no Netflix a sexta season do Orange is the New Black, uma série que retrata a vida de um grupo de mulheres encarcerada numa prisão feminina.

 

Eu, como ávido seguidor da série, aproveitei o domingo e vi de uma rajada os treze episódios, repletos de drama, humor e os tão bem-vindos flashbacks do passado, que nos permitem perceber o porquê de algumas mulheres estarem presas.

Como a acção decorre agora na prisão de segurança máxima de Litchfield's, após o motim na prisão de segurança mínima, esperem novas personagens, novas rivalidades e alguns envolvimentos amorosos.

 

Confesso, e espero não ser o único, que a personagem principal desta trama, Piper Chapman, me irritava profundamente nas primeiras seasons, dando-me uma vontade louca de lhe dar um tabefe via televisor.

Nesta nova season não é que ela não continue irritante, mas ou ela amadureceu ou foi eu que desenvolvi maior tolerância, porque não fiquei cheio de comichões sempre que ela aparecia.

 

Mas apesar de ser entretenimento pautado por um vislumbre do que é o verdadeiro sistema prisional na América, esta season de Orange is the New Black transmite uma mensagem poderosa.

 

As reclusas são divididas em três blocos, um deles neutro, apelidado de Flórida, e o bloco C e D que se odeiam profundamente, dando origem a interacções violentas entre os seus membros. Importante referir que enquanto há um padrão específico da reclusa que vai para a Flórida, as restantes são divididas aleatoriamente entre o C e o D.

 

E o que esta série aborda é o poder que uma instituição tem sobre uma pessoa, muitas vezes quando a própria pessoa não escolhe fazer parte dela.

 

Preto no branco é-nos escarrapachado na cara como o ser humano tem a necessidade de se integrar num grupo, de pertencer a um grupo, e por ordem de terceiros odiar todos aqueles pertencentes a grupos opostos.

 

Podemos transpor este cenário prisional para as ideologias extremistas religiosas, ou para o fanatismo clubístico do futebol.

 

Muitas vezes as pessoas pertencem a algo que nem escolheram - foram educadas desde crianças que aquele era o lugar certo - e por causa do avassalador efeito de grupo que tende a toldar o discernimento de muitos, praticam actos condenáveis em nome de um conceito semi-abstracto.

 

No fim quem é que fica a ganhar? Alguém que usa uma religião, um clube de futebol, um bloco na prisão, para concretizar os seus objectivos pessoais que muitas não vezes não beneficiam mais ninguém do que a ele próprio.

 

É como um jogo de xadrez, há os peões que se sacrificam numa guerra que nem percebem porque é que existe, e os reis que ficam escondidos a ser protegidos, vendo o banho de sangue à sua volta. 

 

Felizmente, nesta nova season do Orange is the New Black, o desporto acaba por unir as pessoas, que percebem que são mais que letras ou cores de uniforme. 

 

Infelizmente no nosso país não me parece que o desporto tenha essa capacidade, a não ser quando a Selecção joga.

 

Orange is the New Black Season 6

 

Assédio no Trabalho

31.07.18, Triptofano!

Quando se fala em assédio no trabalho automaticamente pensa-se em colegas ou patrões que pisaram o risco. Mas nunca se discute o assédio orquestrado por pessoas externas, vulgarmente conhecidas como clientes.

 

Trabalhar com o público, independentemente do trabalho que se tenha, é algo complicado. É necessário manter um delicado equilíbrio entre a satisfação do cliente, que é ela que nos vai manter o negócio aberto, e a nossa integridade moral, física e emocional.

 

Muitas vezes, por causa do ridículo mantra que o cliente tem sempre razão, perpetuado até à exaustão por inúmeras empresas, é que colaboradores aguentam com sorrisos amarelos piropos intelectualmente vazios que apenas acabam por objetificar uma pessoa. E se a fronteira entre o piropo e o elogio é muito ténue, podendo deixar margens para dúvidas relativamente à verdadeira intenção de certas pessoas, há casos que o assédio é tão gritante que choca.

 

Pode-se pensar que as mulheres são alvos mais frequentes de assédio, porém acredito que os homens são igualmente vítimas do mesmo, mas como a cultura machista diz que o homem é o sexo forte e se uma mulher o abordar é igual a ter-lhe saído o euromilhões, o assédio por parte de mulheres a homens é além de mais tolerável, menos denunciado.

 

Afinal qual é o homem que quer dizer aos amigos que se sentiu desconfortável quando uma cliente lhe disse que tinha um rabo merecedor de levar umas palmadas?

 

Nos dias de hoje, apesar de continuar a ser assediado por senhoras com idade para serem minhas avós, não sinto uma carga negativa vindo dos comentários acerca do que elas me fariam se tivessem menos quarenta anos.

Continua a ser assédio na mesma eu sei, continua a ser errado, mas é algo que não me tira horas de sono.

 

Agora há uns anos atrás, quando trabalhava em Lisboa, passei por situações mais complicadas.

 

Desde a convites repetidos até à exaustão para ir tomar café, passando por toques indesejados em zonas do corpo ou por descrições sexualizadas que me envolviam, fui exposto a tentativas e concretizações de assédio por parte de clientes das quais não tive como me proteger.

 

Uma das situações mais gritantes passou-se com um rapaz que nunca tinha visto antes que chegou à farmácia quase na hora de fecho, estava eu sozinho.

Queixou-se de um problema na zona da virilha e perguntou-me se eu não podia ver. Apesar de ser um pedido que muitos consideram estranho, para quem trabalha em farmácia é normal ver zonas do corpo que as pessoas normalmente só mostram ao médico.

 

O problema era simples, pêlos encravados, mas a exposição da zona genital deixou-me logo incomodado.

 

No dia seguinte, quando não pensava mais no assunto, o rapaz voltou a aparecer. Para me agradecer o quão bom profissional eu era e que lhe tinha resolvido o problema. Que tinha falado imensamente bem de mim às colegas do trabalho.

 

Afinal talvez fosse apenas uma pessoa em aflição que eu tinha julgado erroneamente.

 

Nesse mesmo dia recebi um pedido de amizade dele no facebook. Seguido de mensagens para ir tomar um café, e ir beber um copo, e ir ver um filme a sua casa. Mensagens em catadupa a propor-me analisar mais de perto a zona genital para ver se continuava a precisar de colocar a pomada antibiótica. Um assédio constante que me fez sentir nauseado.

 

Ali estava uma pessoa que sabia onde eu trabalhava e que eu não fazia ideia do quão desequilibrada podia ser.

 

Sei que é fácil dizer que bastava mandar o rapaz dar uma curva, mas todos sabemos que há pessoas que não aceitam um não como resposta. E há pessoas que um não simplesmente as faz revelar o pior que possuem dentro de si.

 

Felizmente, e demasiado tempo depois, após ter simpaticamente negado todos os múltiplos convites ele deixou-me em paz.

 

A pergunta que se coloca é de que forma as empresas podem proteger os seus colaboradores de serem assediados pelos clientes.

 

Quais são as ferramentas que existem para dissuadirem alguém que entra numa loja de fazer um comentário ordinário sobre as mamas de uma empregada? Ou de tirar uma foto ao volume nas calças de um empregado?

 

Ou será que todos nós que trabalhamos ao serviço do público estamos num barco sem colete salva-vida que à menor onda pode-se virar?