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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Um amor. Duas muralhas.

09.04.18, Triptofano!

Considerar o amor como uma dicotomia seria amputar a amplitude do sentimento, catalogando-o numa escala de branco ou preto, desprezando todos os tons intermédios de cinzento.

 

O amor é plurifacetado, sendo que a sua vertente mais cruel é a unilateralidade da emoção.

 

Gonçalo era a mais honesta representação desta forma de amor, semi-encostado contra o zumbido metálico do antigo frigorífico, enquanto as mãos puídas apoiadas no tampo da mesa esperavam a meia de leite e a torrada com pouca manteiga trazidas pelo dono do café.

 

O ser humano é um animal de hábitos, e se por um lado era essa constante que lhe permitia ser servido desde há dois meses para cá apenas com um aceno de cabeça, que mudamente significava “o habitual”, também era a não mudança dos acontecimentos que lhe dilacerava o coração.

Todos os dias a via, sentada na mesa encostada à montra, com a luz da manhã batendo-lhe nos cabelos, tornando-a ainda mais celestial.

 

E todos os dias ele era como invisível para ela. Por mais que a fitasse, que tentasse atrair o seu olhar, ela mantinha-se queda e muda diante de um eterno café, olhando um vazio onde ele ansiosamente queria entrar.

 

Hoje não seria diferente. A indiferença com que foi brindado fê-lo mergulhar a cara no resto da torrada e sorver o líquido escaldante num ápice, de forma a deixar aquele amor humilhantemente não retribuído para trás.

 

Beatriz ouviu passos apressados e a porta do café bater com estrépito.

 

A vibração percorreu-lhe o corpo. Tristemente relembrou-se da distante memória do toque de um homem sobre a sua pele nua, quase de novo imaculada.

Uma multitude de pequenas lágrimas formou-se-lhe no canto dos olhos, os mesmos olhos que muralhavam a entrada para o seu coração.

 

Afinal quem é que se interessaria por uma mulher cega?

La Casa de Papel

07.04.18, Triptofano!

Depois de uma maratona com as unhas cravadas no sofá de tanta expectativa finalmente acabei a segunda temporada da La Casa de Papel!

 

E só tenho uma coisa a dizer:

 

 

Será que em toda a Península Ibérica sou a única pessoa a torcer pelos polícias? É suposto estar do lado dos assaltantes?

 

 

E aquela Inspectora, ai aquela Inspectora, que par de galhetas eu lhe dava naquela fuça, que a mulher mete-me uns nervos....

Triptofano, o Geocacheiro

03.04.18, Triptofano!

Esta semana eu e o cara-metade abandonámos Lisboa e decidimos vir perder-nos pelas terras do Norte.

 

Há aquelas pessoas que viajam ao sabor da brisa, outras que tem os planos milimetricamente traçados. Nós temos assim uma ideia do que queremos visitar mas depois percorremos quilómetros de acordo com as caches que encontramos pelo caminho e que decidimos caçar.

 

E o que raio são as caches perguntam vocês?

 

Apesar de muitos certamente já conhecerem o fenómeno do Geocaching, existente desde 2000, para aqueles que possam não estar dentro do assunto, vou fazer um resumo muito sucinto!

 

Lembram-se da Catarina Furtado na Caça ao Tesouro?

Quando ela andava maluca lá no helicóptero a gritar que afinal não era para Norte mas sim para Sul e depois punha-se a correr pelo meio da mata a ver se encontrava o tesouro antes do tempo acabar para ganhar o jogo?

 

O Geocaching é mais ao menos a mesma coisa. Mas sem a Catarina Furtado. E com um orçamento muito mais limitado o que exclui a possibilidade de haver helicópteros.

 

Neste desporto quase olímpico do Geocaching (sim, que há caches escondidas em locais que uma pessoa quase que precisa de ter uma formação circense para a caçar), utiliza-se um receptor de navegação por satélite, como o GPS, para encontrar uma cache que pode estar escondida em qualquer parte do mundo - desde que tenha havido alguém com imaginação suficiente para lá a por.

 

A cache propriamente dita é nada mais do que um recipiente onde dentro se encontra um livro de registo (registo este que também pode ser feito online) e por vezes alguns pequenos objectos sem valor que se podem levar como recordação na condição de deixar outros para a troca. As caches podem ser de tamanhos diversos, desde grande a nano, podem pertencer a uma multi-cache ou serem mesmo virtuais.

 

E se uma das grandes satisfações desta caça ao tesouro dos tempos modernos é, efectivamente, a descoberta do tesouro, existe uma também inegável vertente cultural.

 

As caches estão normalmente situadas em locais interessantes, com valor histórico ou natural, que talvez se não fosse o jogo nunca os iríamos descobrir.

 

E além das coordenadas de latitude e longitude, e de uma dica para aqueles que tiverem mais dificuldade em encontrar o esconderijo, quase sempre há uma descrição detalhada referente ao local onde a cache está escondida.

 

Por isso é uma forma divertida e dinâmica de conhecermos mais acerca do mundo que nos rodeia, e que tantas vezes ignoramos existir.

 

Nestes poucos dias de férias, eu e o cara-metade já caçámos caches escondidas em sinais de trânsito, dentro de estátuas, camufladas em pontes e até dentro de uma locomotiva inactivada transformada em monumento.

 

E se pensam que andamos a vandalizar propriedade pública desenganem-se, um dos mandamentos deste desporto é deixar o local que foi visitado da mesma forma como o encontrámos, ou se possível ainda melhor!

 

"Take Nothing But Photos, Leave Nothing But Footsteps"

 

Descubram mais em www.geocaching.com

 

 

 

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Cheguei e...

02.04.18, Triptofano!

Cheguei e... encontrei o apartamento submerso num profundo silêncio.

 

Não encontrei réstias dos gritos delicados dela enquanto corria pelas divisões da casa, do barulho metálico que emanava do televisor sempre sintonizado num canal de notícias estrangeiro, nem sequer do tamborilar nervoso dos dedos dele no tampo da mesa enquanto comia sucessivos longos cigarros que lhe pendiam do lábio frouxo.

 

Já passava há muito da hora de jantar.

 

Fechei a porta atrás de mim com um baque surdo, de forma a não afastar a memória húmida das vozes que tinham estado naquele espaço. Eram tão recentes que quase as podia agarrar se os meus reflexos não estivessem entorpecidos pelas enésimas horas de trabalho diário.

 

Porque é que a mamã ainda não chegou?

A tua mãe está a trabalhar querida.

A mamã gosta mais do trabalho do que de mim?

(…)

 

Sorrateiramente, dirigi-me ao quarto do fundo, onde ela dormia. Do pequeno espaço pintado de roxo não vinha nenhum som. Talvez fosse essa uma característica dos sonos tranquilos, sem preocupações nem recriminações psicológicas, que apenas uma criança poderia alcançar.

 

Abri a porta, e quando os meus olhos se habituaram à penumbra apenas vislumbrei uma cama vazia.

 

Certamente que se tinha ido aconchegar com o pai, acompanhada do Macaco José, o seu peluche favorito.

 

Rodei o corpo em direção ao meu quarto. Em duas passadas alcancei a maçaneta, e quando a rodei abrindo a porta, senti o coração saltar duas batidas.

 

Ninguém!

 

Num movimento cegamente descoordenado, lancei-me contra o roupeiro, e abri-o num supetão. Furiosamente vazio, assustadoramente vazio, desesperadamente vazio.

 

Lancei um grito dilacerante que me morreu algures entre a boca e a garganta mesmo antes de poder ser ouvido por alguém, enquanto me quebrava no chão e as lágrimas ácidas criavam estradas através da minha maquilhagem barata.

 

Tinha chegado tarde demais…

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