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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Desafio das 52 Semanas - Semana 3

19.01.18, Triptofano!

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Semana 3 - Coisas para se fazer no Calor

 

Eis uma questão pertinente. Coisas para se fazer no Calor!

 

Depois de muito pensar, acho que a melhor coisa para se fazer no calor do momento é respirar fundo e morder a língua - ninguém disse de que calor é que se estava a falar, certo?

 

Desta forma evitamos dar uma resposta torta e conseguimos controlar a vontade urgente de pregar um banano na pessoa que está à nossa frente.

 

Dou-vos um exemplo concreto.

Estou eu feliz e alegre no meu local de trabalho à espera de clientes.

Tudo corre bem, o dia está perfeito, não há nenhum cheiro a esgoto estranho vindo da vizinhança e a senhora das limpezas não me passou com a esfregona por cima dos sapatos como é costume.

 

Nada pode correr mal.

 

Chega um cliente, tira a senha, mesmo após nós praticamente gritarmos que não há necessidade, visto que não há ninguém à espera para ser atendido, e espera pacientemente que nós toquemos no botãozinho para chamar o número dele, mesmo, reforço, não havendo mais ninguém para ser atendido.

 

Depois do seu número ser chamado, avança e saca de uma daquelas novas receitas electrónicas que podem ter desde um medicamento a 28.

 

Perguntamos o que quer aviar. O que está aí! é a resposta - e nós aqui já começamos a sentir um pequeno formigueiro nos pés.

 

Genéricos ou de marca é a pergunta que se segue. Quero o que o médico passou. , e aquele pequeno formigueiro já se começa a transformar num calorzinho que se espalha pelas pernas todas, é como se estivéssemos a desenvolver varizes internas.

 

Explicamos que o médico passou a receita pela substância química e que o cliente é livre de escolher o medicamento genérico ou de marca.

Pois eu quero o que costumo levar. e retorce os lábios, como se eu, mero empregado de balcão é que fosse um imbecil por não ter poderes adivinhatórios - tenho de me lembrar de mandar um e-mail para a faculdade para eles incluírem no novo plano curricular um semestre inteiro com a Maria Helena ou a Maya.

 

Tem ficha aqui connosco, pergunto eu, de forma a tentar agilizar o processo. Claro que tenho ficha!, e eu começo a procurar pelo nome do cliente e não encontro nada.

Pergunto se já alguma vez comprou connosco aqueles medicamentos e Ah não aqui nunca comprei, mas as farmácias não estão todas ligadas uma às outras?

Mordo a língua e digo que não, que as farmácias são privadas, não pertencem ao Sistema Nacional de Saúde, por isso obviamente que não vão estar todas ligadas umas às outras, tal como as sapatarias e as lavandarias não o estão.

 

Olhe pois eu não me lembro do nome do que costumo tomar, sei que há um comprimido amarelo, outro branquinho redondo e um branquinho comprido, se me trouxer as caixas eu reconheço. 

 

Explico que se o cliente levar genéricos pode acontecer ser de um laboratório que eu nem sequer tenha na farmácia por isso era mais fácil se ele se lembrasse da porra do nome que figura na caixa, ajudava-me assim um bocadinho, e nesta altura já estou a suar que parece que entrei na andropausa, as unhas a fincarem-se-me nas mãos e a minha vontade de dar um grito a aumentar exponencialmente a cada segundo que passa.

 

Trago todas as caixas de todos os laboratórios que tenho para cima do balcão.

 

Depois de muito virar e revirar, abrir e fechar embalagens, o cliente lá consegue encontrar os laboratórios que costuma fazer.

Eu digo-lhe com uma voz muito suave que para a próxima vez seria mais fácil se trouxesse os nomes ou os bocadinhos das caixas.

Na outra farmácia não é preciso este trabalho todo, informa-me, mais uma vez, transferindo a responsabilidade da sua incompetência e desorganização para mim, empregado de segunda categoria que já tem os vasos capilares das bochechas totalmente dilatados.

 

Faço a conta, e informo que tem a pagar X.

E nesse momento, naquele momento em que tudo deveria acabar, o cliente escandalizado diz que Não pode ser, que os valores que estão na receita são muito mais baixos. Veja, aqui diz que no máximo o preço deste medicamento é 1.20€ e você está-me a pedir 3.40€. Está-me a querer enganar!

 

Nesse instante é como se o universo entrasse em pausa, o meu cérebro está a raciocinar a mil de forma a conseguir controlar os impulsos do meu corpo, os meus olhos estão secos das labaredas de fúria que os estão a consumir internamente, e no calor do momento só me apetece mandar para a merda o raio do cliente que me está a chamar aldrabão e pregar-lhe uma ampulhetada que o vire ao contrário, de forma a ele perceber o verdadeiro significado da música da Ana Malhoa!

 

Mas tenho uma carteira profissional para defender e uma família para sustentar, por isso ignoro os gritos (sim já se passou a fase da conversa, agora o cliente está a gritar para quem o queira ouvir que eu sou um aldrabão e lhe quero roubar dinheiro certamente para o por ao bolso), respiro fundo e mordo a língua quase até fazer sangue, e calmamente explico-lhe que os preços que estão na receita são os dos genéricos mais baratos, se ele quer optar por outro laboratório terá que pagar a diferença.

 

Continua a barafustar mas lá paga, dizendo Na minha farmácia habitual não há estas confusões, nunca mais vou voltar aqui, pega nos sacos e sai porta fora.

 

E eu fico orgulhoso de mim, por saber que no calor do momento, consegui-me controlar.

 

Até ao dia.....

Podia ter sido uma Disgraça mas não foi

18.01.18, Triptofano!

Sabem aquele amigo mais alternativo, que conhece sempre uns locais mais underground que nós nunca ouvimos falar mas que na realidade andamos em pulgas para pelo menos uma vez na vida colocarmos o pé lá dentro?

 

No meu caso esse amigo é a A., com quem já não falava há uns bons anos, simplesmente porque a vida nos tinha levado em direcções diferentes.

 

Foi para minha surpresa, e alegria, que no fim do ano passado, recebi um e-mail dela a convidar-me para ir ao cinema - tinha ganho convites para um filme que prometia ser bom. No dia seguinte recebo novo e-mail, com um pedido de desculpas, afinal os bilhetes tinham de ter sido levantados até uma certa hora mas ela havia-se esquecido. Só que ela tinha um plano B.

 

Convidou-me para ir jantar e ver um filme num local chamado Disgraça. A isso acrescia assistirmos a um ensaio de um grupo de percussão.

 

Ora eu nunca tinha ouvido falar de um local chamado Disgraça. Na realidade pensei que ela estava a gozar comigo, e só quando confirmei na Internet que o sítio realmente existia é que me convenci que não estava a ser vítima de nenhuma partida.

 

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A Disgraça auto-classifica-se como um centro anticooltural de DIY ( do it yourself - faça você mesmo) que pretende criar um espaço seguro horizontal sem racismo, especismo, homofobia e sexismo.

 

O espaço físico que eles ocupam é assim algo do outro mundo. No andar térreo encontramos uma biblioteca anárquica, e quando se vai descendo somos emergidos num mundo de pinturas e cartazes com mensagens feministas e anti-homofóbicas e anti-racistas e tudo e tudo e tudo.

 

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Num dos pisos encontramos a cantina comunitária que é dirigida por voluntários. A comida é totalmente vegan, sendo que naquela noite o meu jantar foi empadão de seitan e cogumelos com esparregado de espinafres. Para quem quisesse havia também creme de cebola e vinho tinto de pacote, daquele que nos faz estalar a boca e o cérebro, servido em copos grossos de plástico.

 

Duas particularidades deste espaço de refeições - primeiro os preços são vergonhosamente baixos tendo em conta a quantidade absurda com que nos enchem os pratos.

 

Em segundo não estejam à espera que o vosso prato seja igual ao do vosso colega de mesa, há um melting pot de loiça inimaginável. E no fim da refeição todos lavam os seus pratos e talheres, algo a que não estamos acostumados a fazer quando vamos comer fora.

 

O espaço para degustação do jantar é enorme, praticamente um piso inteiro, com cadeiras de cada nação e mesas de diferentes tamanhos - aqui o isolamento é algo que não é comum. Encontra-se também vários jogos de tabuleiro espalhados pelo espaço, para aqueles cuja digestão é apenas bem feita com uma partida de Quem é Quem?

 

Foi nesse mesmo espaço que assisti ao filme A Estratégia do Caracol, uma película Colombiana que retrata, com algum humor, a luta dos moradores de um dos bairros mais pobres de Bogotá afim de evitarem a demolição da casa onde moram, ordenada pelo seu proprietário, um milionário sem quaisquer escrúpulos.

 

Mas o momento alto da visita a este espaço mais alternativo de Lisboa foi o ensaio do grupo de percussão.

 

Quando aceitei o convite pensei, na minha inocência, que ia sentar-me num banquinho a ver um grupo talentoso de pessoas a ensaiar.

E na realidade encontrei um grupo talentoso de pessoas, só que afinal o ensaio era uma abertura a novos membros, por isso era esperado que eu participasse.

 

Eu, a pessoa mais sem ritmo e noção de musicalidade da história da humanidade. Eu que só não fui chumbado às aulas de Educação Musical porque os professores tinham pena de mim. Eu que quando faço aquele jogo de trautear as músicas ninguém faz a porra de ideia o que é que eu estou a tentar "cantar".

 

Obviamente que disse logo que não, que ia ficar só a ver, que não tinha ritmo nenhum. Mas não tive qualquer hipótese, disseram-me logo que aquele espaço era um local de inclusão às pessoas arrítmicas, por isso eu iria também tocar. E as pessoas foram tão simpáticas comigo, tão educadas e maravilhosas que eu não consegui dizer que não.

 

Calhou-me um pandeiro e durante uma hora e meia dei nele com todo o meu empenho (por favor não façam piadas porcas ok?)

 

O que eu pensava que ia ser um suplício tornou-se uma experiência maravilhosa, e agora compreendo porque é que tanta gente diz que a música é terapêutica.

 

Enganei-me várias vezes, saí do ritmo, tive de muitas vezes copiar os gestos da minha vizinha a quem tinha também calhado um pandeiro, que sempre com um sorriso me auxiliava na tarefa de encontrar alguma da minha musicalidade

.

Mas adorei, apenas posso dizer que ADOREI!

 

 

Apesar de em tão pouco tempo eu e os outros iniciados (éramos por volta de uns 10) termos sido bombardeados com imensa informação - fizemos mais que uma melodia, saímos e entrámos da sonoridade do grupo, aumentámos e diminuímos o volume da nossa batida, entrámos num estado de loucura musical, tudo respeitando as firmes indicações do nosso maestro - no fim senti que estive à altura do desafio, e a minha alma estava mais leve, parecia que os pesos do dia-a-dia tinham sido levados para o espaço juntamente com as notas musicais que eu arranquei do meu instrumento.

 

Só tenho que agradecer aos Ritmos de Resistência por me terem acolhido tão bem e terem tido a paciência para me mostrarem que afinal há ritmo dentro de cada um de nós, só que às vezes há resistência por parte dele para se mostrar ao mundo!

 

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O Leitor Decide #5

18.01.18, Triptofano!

2018 ainda não tinha sido palco de nenhuma rubrica O Leitor Decide, por isso preencho esta lacuna com mais duas histórias das minhas para vocês optarem entre.

 

Sei que as fotos são sempre uma adição gira para este segmento, mas desta vez, infelizmente, não houve a oportunidade de nenhum dos registos ter sido captado em fotografia para a eternidade.

 

Porém, há um tema comum a ambas as histórias, que é o Banho!

 

Por isso, querem saber mais sobre:

 

 

A) Um dia de felicidade na praia quando o Triptofano era assim muito pequenino

 

ou

 

B) Uma seringa que virou o meu mundo do avesso no trabalho

 

 

Fico à espera de receber os vossos votos nos comentários 

Missão Enfiar-me dentro das Calças

16.01.18, Triptofano!

Depois de praticamente dois dias empenhado em conseguir perder peso para me conseguir enfiar dentro de umas certas e determinadas calças, partilho convosco o meu pensamento mais recorrente.

 

É LIXADO

 

É lixado sabermos que temos de resistir ao açúcar e tudo o que nos lembramos é dos bombons que nos deram no Natal e ainda estão por abrir, ou daquele doce de banana com ar tão inocente mas cuja informação nutricional roça o obsceno.

 

Ainda mais lixado é quando ao fim do dia, entre lágrimas de derrota comemos meio Ferrero Rocher, e o cara-metade sorri na nossa cara enquanto come a outra metade e mais um inteiro, e nós secretamente desejamos que ele se engasgue na porcaria da avelã.

 

É lixado quando temos que fazer dieta reeducação alimentar e em vez de uma pratada de arroz ou de massa passamos a comer quantidades astronómicas de alface e de agrião, que insistem em deixar-nos pedaços vergonhosos de verdete nos dentes que teimam em não sair por mais que os escovemos.

 

É lixado quando os colegas na pausa do lanche estão a lamber dos dedos o resto das novas bolachas de chocolate que compraram ou a comerem um pastel de nata quentinho vindo do café ao lado, e nós trincamos desconsoladamente um pepino, que dizem que é saciante e bom para a retenção de líquidos.

Como substituto do pepino podemos comer uns cajus sem sal mas apenas meia dúzia porque lemos algures que os malditos eram hipercalóricos.

 

É lixado quando chegamos a casa e temos a sorte de ter o elevador à nossa espera no rés-do-chão quando normalmente está no oitavo andar mas decidimos ir pelas escadas na esperança de queimar algumas calorias depois de num acto de loucura termos mandado às urtigas a contagem dos cajus e enfiado meio pacote na boca.

 

É lixado quando em vez de nos deitarmos no sofá a aperfeiçoar a arte de nos fundirmos com o mesmo vamos fazer exercício físico recorrendo a uma aplicação que descarregámos para o nosso telemóvel.

E roça o patético quando em vez de uma fazemos logo o download de duas aplicações porque estamos num estado de desespero tal que ou vai ou racha! 

 

É lixado quando no segundo dia de exercício descobrimos que o primeiro deixou-nos mais mortos do que pensávamos.

Fazer um abdominal é um tormento.

Compreendemos que os músculos que queremos exibir nunca os vamos conseguir ver mas não é por isso que vão  deixar de doer horrores.

Apercebemos-nos que o único desporto em que um dia poderemos vir a ser federados é na maratona do ronco.

 

É lixado quando descobrimos no armário da casa-de-banho um gel torneador de abdominais e rezamos para que depois de esfregarmos aquela bodega metade da nossa gordura migre para o rabo, onde ela faz mais falta.

 

É ligeiramente incomodativo quando damos conta que nos esquecemos de lavar as mãos depois de aplicar o gel e fomos coçar a piloca, sendo o resultado um ardor do mentol insuportável na dita cuja.

 

Nesse instante, na aflição do momento, voltamos a ir lá com as mãos por lavar e quando damos por ela é como se tivéssemos enfiado a nossa genitália toda dentro duma embalagem gigante de Halls de Mentol.

 

Agora digam-me:

 

Quanto tempo é que eu vou conseguir aguentar isto?

O meu primeiro livro do ano

16.01.18, Triptofano!

Hoje terminei o meu primeiro livro do ano. Para aqueles que não sabem, um dos meus objectivos para 2018 é ler 24 livros durante o ano todo.

 

Pode não parecer muito, mas tendo em conta que o ano passado li, e a muito custo, um livro inteiro, 24 correspondem a um aumento de 100%... 1000%... 240000% ....uma percentagem qualquer elevada que eu sou mau em matemática!

 

Lugares Escuros, de GIllian Flynn é um bom thriller para os amantes do género, e tem um ponto a seu favor, o final é inesperado. Estava eu a meio do livro e já estava a dizer mal da minha escolha porque era óbvio quem tinha sido o assassino da família Day, mas no fim nem tudo é aquilo que parece, ou também pode acontecer eu ser muito tapado e não ver o óbvio mesmo estando ele escarrapachado à minha frente.

 

Para conseguir cumprir a meta dos 24 livros estabeleci um prazo de leitura de 15 dias para cada livro, sendo que vou começar já a ler a prenda de Natal que o cara-metade me ofereceu, o The Radium Girls: The Dark Story of America's Shining Women de Kate Moore, vencedor do Goodreads Choice Awards Best History & Biography de 2017.

 

 

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Como este livro está inglês talvez vá demorar mais um pouco, mas vou dar o meu melhor para até ao final do mês já o ter terminado!

Fui sabotado!

15.01.18, Triptofano!

É a única explicação plausível para o que aconteceu.

 

Fui alvo de sabotagem.

 

Se a nível internacional, nacional ou apenas doméstico isso já não sei, o que posso afirmar com toda a convicção é que forças externas uniram-se contra mim de forma a verem-me derrotado.

 

Eu tenho um fato. Um fato bonito, de bom corte, boa cor e tudo e tudo e tudo, que comprei há uns anos atrás, quando ainda trabalhava em Lisboa. Ficava um charme com ele, modéstia à parte.

 

Devo tê-lo usado umas três vezes, no máximo dos máximos, já que nunca tive grande necessidade de o tirar do armário.

 

Uma das poucas vezes que o vesti foi na altura do recrutamento para a Emirates, numa fase da minha vida que estava a ponderar mudar de carreira, e foi ele que me ajudou a passar na primeira fase de selecção, aquela onde basicamente só o nosso aspecto exterior é que interessa (eu sei que é horrível sermos julgados apenas pela aparência mas faz tão bem ao ego quando nos consideram jeitosos, apesar do jeitoso ser um conceito tão abstracto!).

 

Vou ter um evento no início de Fevereiro, onde terei que ir bem compostinho.

Por isso lembrei-me logo do fato, guardado religiosamente e com todo o carinho na casa dos meus progenitores. 

 

Sabia que não tinha de me preocupar mais com o que vestir, mas alguma coisa disse-me que talvez fosse melhor experimentar o dito cujo, não fosse ter alguma surpresa amarga.

 

Era como se já adivinhasse. Ontem, na visita semanal à casa dos papás, pedi à minha mãe para o ir busca de forma a ver como ele me ficava.

 

Vesti o casaco e assentava como uma luva. Peguei nas calças e.....

 

 

.....alguém me as encolheu!

 

Só pode!

 

Fui sabotado de forma a não conseguir enfiar-me dentro das mesmas. É que nem é ficar apertado. Simplesmente não consigo abotoá-las, por mais que encolha a barriga, que faça força, simplesmente o pedaço de tecido que obviamente alguém cortou delas fez com que fosse impossível eu conseguir vesti-las.

 

 

Como podem ver pelo vídeo, mesmo fazendo o meu melhor o raio das calças não fecham.

 

E o problema não é certamente daquela barriguinha maravilhosa que eu tenho.

 

Ou será?

 

De qualquer das formas não me vou dar por vencido. Até ao final deste mês vou conseguir espremer-me dentro delas, ou eu não me chame Triptofano!

 

 

Desafio das 52 Semanas - Semana 2

13.01.18, Triptofano!

Cabeça de alho chocho como eu sou, apenas quando vi os posts dos outros companheiros bloggers, é que me lembrei que sexta-feira era dia do Desafio das 52 semanas.

 

Como não tinha nada preparado, teve que ficar para hoje, mas aqui está a resposta para a segunda semana deste desafio.

 

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Semana 2 - Eu Nunca...

 

 

É impossível não me lembrar imediatamente do jogo de bebida do Eu Nunca...., que por coincidência quando fui ao Porto para a passagem do Ano foi uma das actividades que fizemos.

 

Como quando o jogámos ainda era assim quatro da tarde do dia 1 de Janeiro achámos que não deveríamos começar logo a emborcar Martini e similares, porque começar o primeiro dia do ano logo alcoolizados antes da hora de jantar era, digamos, ligeiramente deprimente (mas longe de mim julgar quem esteve em coma alcoólico o dia todo!).

 

Fizemos então um pequeno twist, em vez de bebermos, pegámos nas notas do Monopólio e o objectivo era ver quem conseguia acumular mais dinheiro. E o Eu Nunca... basicamente tornou-se num Eu Já...., e ganhava-se mais dinheiro se nenhum dos outros jogadores já tivesse feito aquilo que nós referíamos.

 

Obviamente, e como acontece sempre nestes jogos, começa-se com coisas assim compostinhas, porque está tudo ainda meio envergonhado, mas basta alguém ter a coragem de dizer algo mais picante que pronto, é ver as coisas a descambar à velocidade da luz , os pudores são atirados pela janela e tudo é permitido na ânsia de se ganhar o jogo!

 

Há muitas coisas que eu nunca fiz, mas também descobri que há muitas outras que já fiz e provavelmente fariam corar algumas pessoas mais susceptíveis, mas para este desafio resolvi escolher apenas uma.

 

Eu Nunca Tive Relações Sexuais com uma Mulher!

(Fica muito mal se eu disser Aleluia! a seguir a esta frase?)

 

Se existisse uma espécie de anel de curso para pureza gay eu era o orgulhoso detentor de um, visto que nunca me aproximei sequer da área genital de uma mulher.

 

Porém, o tamanho da pedra do meu anel não seria o máximo, visto que quando era mais novo tive uma namorada (revelação chocante eu sei!).

 

Devia ter para aí os meus 12/13 anos quando, basicamente me obrigaram a começar um relacionamento amoroso com uma rapariga que estava completamente apaixonada por mim (também quem é que não estaria?).

 

Eu não queria, nem era por na altura ter consciência da minha orientação sexual, mas simplesmente aquilo não me dizia nada, eu gostava era de estar no meu mundinho a brincar ao Dragon Ball Z, onde eu tinha a personagem do Coraçãozinho de Satan e ela era a Android C18 (bons tempos estes das brincadeiras de criança).

 

Quando finalmente acedi a iniciar o namoro com a moça, lembro-me perfeitamente que fui com ela para os "montes" (uma zona perto do pavilhão de ginástica que basicamente era um terreno baldio com alguma elevação), seguido de um séquito de amigas, que queriam presenciar aquele momento único, que seria a confirmação do início do romane do ano, através de um beijo.

 

Eu na altura nunca tinha beijado ninguém, não fazia a mínima ideia como se fazia, e tinha apenas uma ligeira lembrança de ter visto alguém fazê-lo numa das novelas que a minha mãe via na altura.

 

Por isso, fechei os olhos, abri a boca e atirei-me. Felizmente desde essa altura que melhorei a minha técnica de beijoquice, porque naquele momento certamente que parecia um tubarão a tentar devorar um banhista indefeso, de tal forma a minha boca escancarada foi arremessada contra a cara da pobre rapariga!

 

Se para mim o beijo em si foi bom ou mau não me lembro, mas recordo nitidamente que a moça tinha estado a comer um croissant, o que fez com que os meus lábios tivessem ficado com o sabor do bolo durante uns dois dias seguidos.

 

Quando cheguei a casa só me apetecia pegar numa pedra pomes e tirar a camada superficial dos lábios para ver se me conseguia livrar daquele gosto horrível - obviamente que a relação não durou mais do que dois dias, ainda tendo havido espaço para eu quase entrar em hiperventilação por ela querer andar de mão dada pela escola e eu só me apetecer fugir para casa a correr o mais depressa que conseguisse!

 

Algum tempo depois, já tinha eu os meus 17 anos, voltei a estar com essa rapariga e acabámos por "curtir".

Na altura eu já sabia o que queria para a minha vida em termos sexuais e afectivos, mas aquilo aconteceu porque tínhamos ido sair com um casal que basicamente se começou a comer ao nosso lado e nós, por não termos nada que fazer, decidimos que era uma maneira tão boa como outra qualquer para passar o tempo.

 

Nesse momento, fiquei em choque, por me aperceber que durante a sessão de beijos tinha desenvolvido uma erecção. Então mas se eu era um homossexual convicto, pronto para andar de casa em casa com folhetos para encaminhar os indecisos para o caminho da luz, como é que raio podia ter uma reacção daquelas?

 

Ainda estive uma semana a questionar-me arduamente sobre a minha identidade sexual, até que percebi que devia sofrer de algum síndrome de pénis hiper-reactivo ou coisa do género, e decidi não pensar mais no assunto.

 

Há uns anos atrás, tive um namorico com um rapaz que já tinha tido várias namoradas antes de aceitar que também se sentia atraído por pessoas do mesmo género. E nessa altura ela desafiou-me a termos relações sexuais a três com uma amiga dele.

 

E eu confesso-vos que nessa altura me senti tentado. Que pensei para mim mesmo que não havia de morrer ignorante. E que no fim de contas não podia ser assim tão mau, ou podia?

 

Mas não consegui.

 

Eu bem que tentei mentalizar-me que era capaz, mas sempre que imaginava uma vagina, com os lábios e fluidos e tudo o mais, vinha-me um vómito à boca que achava que ia deitar fora naquele momento a última refeição que tinha ingerido.

 

É que eu sempre ouvi dizer que as vaginas cheiram a bacalhau! Ou a ostras! É que se ainda fosse um cheirinho de limão mesclado com morango, mas sentir a maresia para mim só na praia, não quando me aproximo da área genital de alguém.

 

E mesmo que conseguisse ultrapassar a parte do cheiro, o que é que eu ia fazer ali naquela zona? É que não há nada, existe um buraco e mais o quê? É que num homem, pequeno ou grande, ainda existe um pénis que dá para a gente colocar na boca e fazer aquelas coisas que vocês bem sabem, mas e numa mulher? Dá-se beijinhos? Faz-se umas festinhas como se fosse um gatinho e esperamos ouvir um ronronar como resposta a um trabalho bem feito?

 

Claro que a pessoa podia logo passar para a parte da penetração, bastava semi-cerrar os olhos, fazer um bocadinho de pontaria, e cá vai disto.

 

Mas e se uma pessoa coloca lá a piloca e não a conseguir tirar? Se for como aquelas anilhas das latas que pomos por piada no dedo e quando damos por ela já não a conseguimos tirar porque o dedo inchou?

 

E não havia um filme qualquer sobre uma rapariga que tinha uma vagina com dentes? Isso existe realmente ou é um mito urbano?

 

São as vaginas coisas perigosíssimas e assustadoras ou sou eu que estou de alguma maneira a exagerar?

 

É que sempre que penso que podia ter ido em frente com o ménage, acho que a situação ia-se desenrolar exactamente como neste episódio do Sexo e a Cidade.

 

 

 

No entanto, se mesmo depois de todo este depoimento sincero, houver alguma moça por aí que ache que eu devia dar uma segunda chance às vaginas e sinta que tem o dom para me fazer acreditar, mande-me mensagem!

 

Provavelmente vamos acabar a falar de como os cremes para as hemorróidas são óptimos para nos livrarmos dos papos dos olhos mas nunca se sabe!

 

Estaremos PrEParados?

12.01.18, Triptofano!

A Profilaxia de Pré-exposição - ou PrEP para abreviar - da infecção por VIH no adulto, tornou-se com a Norma nº 025/2017 de 28/11/2017 uma realidade quase palpável em Portugal. E uma realidade legal, sem encomendas via Internet de produtos oriundos de outros países onde há poucas ou nenhumas certezas que aquilo que se está a tomar é aquilo que se pensa estar a comprar.

 

A PrEP, muito resumidamente, consiste na toma de terapêutica anti-retroviral por indivíduos seronegativos- a mesma que alguns indivíduos seropositivos tomam de forma a controlar a sua carga viral - de forma a impedir o contágio pelo vírus do HIV.

 

De momento, a Norma emitida pela Direcção Geral de Saúde, não dá livre acesso à utilização da PrEP. Apenas alguns grupos muito específicos irão ser abrangidos, como os trabalhadores do sexo, utilizadores de drogas injectadas, parceiros serodiscordantes em situação de preconcepção ou gravidez, indivíduos cujo parceiro está infectado por VIH mas não tem acompanhamento médico e não utiliza consistentemente preservativo, (...).

 

Visto levianamente, parece que encontrámos uma solução dourada para um dos maiores flagelos em termos de saúde pública das últimas décadas. Será possível erradicar a infecção do VIH através da profilaxia?

 

No entanto, existe sempre o reverso da medalha. E neste caso chama-se tenofovir disoproxil, uma das substâncias que se encontra na composição da PrEP.

 

O tenofovir, usado de forma continuada e prolongada, pode provocar o desenvolvimento de problemas a nível ósseo e renal.

 

O que significa que podemos manter os indivíduos livres do VIH mas há grandes chances de em 20, 30 anos assistirmos a um aumento dramático dos frequentadores de clínicas de hemodiálise.

 

Para os fervorosos defensores da PrEP, a utilização da mesma por parte dos trabalhadores do sexo é uma questão de saúde pública, já que vai evitar novas infecções.

 

Talvez aqui realmente se consiga travar um foco importante de infecção, já que muitas das campanhas de sensibilização junto deste grupo não surtiram os resultados pretendidos, pelo facto do preservativo ainda ser visto como um entrave a um desempenho laboral optimizado - não é incomum serem os clientes a exigirem que este não seja utilizado. É verdade que existe o preservativo feminino, mas nem todos os que se prostituem possuem uma vagina, e nem todos aqueles que o podem usar o sabem fazer da forma correcta - há relatos de preservativos femininos que ficaram colocados durante vários clientes, criando uma verdadeira sopa primitiva de infecções sexuais.

 

Porém, apesar de certamente haver quem fosse beneficiar desta profilaxia, os indivíduos deste grupo são maioritariamente pessoas de difícil adesão à terapêutica. Há alguns anos atrás fiz a dispensa da terapêutica anti-retroviral (TARV) a portadores de HIV - os que estavam envolvidos no mundo do sexo profissional eram sempre os mais complicados. Ou porque não tomavam a medicação todos os dias, ou porque dobravam tomas, ou porque apareciam no hospital um mês e depois desapareciam nos três a seguir.

 

A dispensa da PrEp a estes indivíduos, apesar de com as melhores intenções, pode ser infrutífera. Além que pode ocorrer outra situação - a venda no mercado paralelo, já que há quem a queira obter mas não esteja abrangido pela Norma.

 

A solução, pelo menos para evitar a possível venda ilegal, seria conceder de forma gratuita a todos a que a quisessem, como já acontece na Flórida?

 

Mas que custos isso teria para o Sistema Nacional de Saúde?

 

Imaginemos a seguinte situação. Temos um universo de 10 indivíduos, 1 deles está infectado com o vírus do HIV e 9 não. Se houver uma sensibilização perante todos os 10 sobre comportamentos de risco, sexo seguro, e o individuo seropositivo tiver a sua carga viral indetectável, temos uma situação controlada. O Estado paga uma caixa por mês de TARV e fica-se por aqui.

 

Agora se os 9 indivíduos seronegativos quiserem fazer PrEP? O Estado vai ter que pagar mensalmente 10 caixas de terapêutica anti-retroviral, apesar de apenas uma ser efectivamente para tratamento. E com mais indivíduos a fazerem TARV, aumenta a probabilidade das doenças ósseas e renais. E o Estado vai ter então entre mãos mais despesas - internamentos por fracturas, hemodiálises, (...).

 

Suponhamos agora que o Estado está cheio de dinheiro, e o montante disponível para a saúde é absurdamente alto. Quantas gerações é que teriam de tomar a PrEP de forma a conseguirmos erradicar o vírus? Uma? Duas? Três? Teoricamente chegaria a uma altura, em que se toda a gente tomasse, quando os indivíduos portadores do vírus falecessem, já não haveria nenhum canal de transmissão. Isto claro se o país fosse estanque. Se ninguém entrasse e ninguém saísse. Aí sim, podíamos ter sacrificado muitos ossos e muitos rins mas tínhamos a certeza que iríamos vencer a luta contra o HIV. Só que existe uma coisa chamada fluxos migratórios. E se os outros países, de todo o mundo, não fizerem o mesmo significa o quê? Que vamos estar a tomar comprimidos geração após geração, ad aeternum?

 

Outro cenário. O Estado está com os cofres a transbordar de euros e chega-se à conclusão que não há problema nenhum em tomar a PrEP durante décadas, até se descobriu uma nova substância que não tem efeitos secundários. 

 

Aqui estávamos perante algo quase utópico, mas aparentemente perfeito.

 

Só que e as outras doenças sexualmente transmissíveis? Não contam?

 

De há uns anos para cá as campanhas a apelar ao sexo seguro deixaram praticamente de existir. Aborda-se muito a questão do álcool e da condução, mas parece que a protecção sexual ficou esquecida num canto.

Será que foi pelo facto do HIV se ter tornado numa doença crónica - mas nem por isso menos estigmatizada - graças ao desenvolvimento de fármacos mais eficazes e menos tóxicos? Achou-se que já não era então preciso apostar nas campanhas de sensibilização?

 

Espanha debate-se com um aumento assustador do número de casos de sífilis. Em Inglaterra as farmácias foram englobadas numa rede de detecção de infecções por clamídia, uma infecção silenciosa que causa infertilidade feminina. 

 

Não é apenas o HIV que mata, que faz dano, que muda vidas. 

 

A PrEP não pode nem nunca poderá ser vista como um comprimido mágico que automaticamente nos faz atirar as responsabilidades para trás das costas. Que haja liberdade sexual, que se quebrem tabus e falsos moralismos, mas que haja consciência em defender a nossa integridade física e a dos nossos parceiros.

 

Que não seja uma nova pílula do dia seguinte, que apesar de ser um instrumento valiosíssimo em casos pontuais de imprevistos, ainda é usada por muitos como um banalíssimo método anti-conceptivo. Quantos não a compram mesmo antes de terem tido a relação sexual desprotegida - e o desconhecimento sobre efeitos adversos devido à toma recorrente da mesma continua a reinar, já que é tão fácil ir ao supermercado comprar uma.

 

Apesar da PrEP já ser quase uma realidade em Portugal ainda há muitas coisas que não se sabem, por exemplo, como é que vai ser distribuída, se a nível hospitalar ou da farmácia comunitária.

 

Seja o futuro como ele for, só espero que a indústria farmacêutica não encare a PrEP como uma nova galinha dos ovos de ouro. E que tenha em consideração os melhores interesses das pessoas, e não as veja apenas como uma forma fácil de ganhar dinheiro!

Como destruir uma cozinha em 5 minutos

11.01.18, Triptofano!

É do conhecimento geral que eu adoro comer. Um dos meus maiores prazeres é sentar-me à mesa e regalar-me com as iguarias que me colocam à frente.

 

Porém, a minha capacidade de cozinhar é inversamente proporcional à minha vontade de comer. Todos os que me conhecem sabem disso, mas eu volta e meio gosto de desafiar o statu quo, e é assim que as desgraças acontecem.

 

Ontem, o cara-metade tinha de fazer um trabalho para entregar até à meia-noite, e eu, qual namorado adorável, ofereci-me para fazer o jantar de forma a ele não perder tempo com a elaboração do mesmo.

 

Liguei a Bimby e comecei a fazer umas pataniscas de grão-de-bico, uma receita extremamente simples onde era praticamente impossível algo correr mal.

 

E não correu.

 

O problema foi quando a minha pessoa se decidiu a fazer massa.

 

Sim, leram bem, massa, esse prato de extrema complexidade que apenas os chefs de cozinha mais experientes se atrevem a fazer.

 

O meu primeiro grande erro foi achar que não precisava da Bimby para nada! Ah, isto é coisa que eu faço num instante numa panela, pensei eu.

 

Peguei numa pequenina, coloquei em cima do bico maior do fogão, e fervi água numa chaleira, já que a meu ver existe uma maior poupança energética se a água já vier quente quando a coloco na panela em vez de a aquecer directamente no bico.

 

Quando começa a ferver, pego na chaleira, cheia até ao topo, e transfiro a água para dentro da panela. Só que durante esta acção metade da mesma cai no chão.

Ignoro, pego no isqueiro e acendo o bico, para continuar o aquecimento da água que conseguiu cair no local devido.

 

Vou então buscar um daqueles panos amarelos de cozinha, e quando me agacho para limpar o chão molhado, reparo que a panela não está bem centrada em cima da chama, o que na minha óptica faria que o processo de aquecimento não fosse tão eficiente.

 

Olho para o recepiente metálico e penso que talvez já esteja muito quente por isso agarrar nele com as mãos nuas estava fora de questão.

 

As pegas de cozinha estavam debaixo de meia dúzia de aventais e não me apetecia tirar tudo do sítio, as luvas de forno não eram do meu agrado porque me tiravam a sensibilidade, não havia nenhum pano de tecido à vista, a única coisa que estava ali à mão de semear era um pedaço de rolo de cozinha que tinha cortado para ir limpando as mãos. Peguei nele e usei-o para proteger-me do eventual calor que a pega pudesse emanar.

 

E claro que lhe deitei fogo. 

 

A minha primeira reacção quando vi o papel a arder foi mandá-lo para o chão.

 

Em pânico aproximei-me dele e constatei horrorizado que ele não se estava a extinguir, continuava lentamente a propagar-se.

 

Soprei devagarinho mas arrependi-me logo - e se alguma faúlha se libertasse e propagasse o incêndio? Não havia nenhum pano perto para poder bater no fogo (se houvesse esta situação tinha sido evitada no início).

 

Pensei em despejar água em cima dele mas lembrei-me que nos filmes há situações que o fogo ainda se descompensa mais após este gesto - lembrava-me que havia alguma particularidade para isto acontecer mas como não sabia qual era não quis arriscar.

 

Ainda ensaiei pisar o papel como se fosse uma beata gigante - mas e se o fogo se propagasse à minha pantufa e todo eu começasse a arder?

 

Só havia uma decisão acertada naquele momento!

 

Ó AMOOOOOOOOOOOOOORRRRRRRRR.

Podias vir-me aqui ajudar RÁPIDO sff?

 

Felizmente o cara-metade soube como agir, basicamente calcou o papel que já se tinha quase extinguido naquela altura do campeonato, e para minha felicidade o pé dele não irrompeu em chamas.

 

Suspirei de alívio e pensei que naquela altura poderia terminar o jantar pacificamente.

Eis que o cara-metade espreita para dentro da panela da massa e pergunta se eu tinha colocado alguma erva aromática.

 

E eu que não, não o tinha feito.

 

Pois que haviam coisinhas pretas a boiar. Pensei que talvez fossem pequenos pedaços de papel que tivessem voado lá para dentro quando ele extinguiu o fogo à pisadela. Ou teria-se dado alguma reacção molecular entre o azeite e o fumo do incêndio que tivesse levado à solidificação do primeiro?

 

Após melhor observação o cara-metade informou-me que eu estava a tentar envenená-lo com gorgulho!

 

Ao que parece aquele pacote de massa tinha sido atacado por uma infestação que tivéramos alguns meses atrás, e tinha-nos escapado.

E eu contente da vida, nem sequer me lembrei de verificar se ele estava em condições, visto ser antigo e estar aberto.

 

Numa questão de 5 minutos consegui uma inundação, um incêndio e uma contaminação microbiana.

 

Não é para todos!

Ainda não chegaste. E já tenho saudades tuas.

10.01.18, Triptofano!

A fazer jus ao célebre “lá para o final do ano”, colocámos em marcha, 3 semanas antes do final de 2017, alguns dos projectos que tínhamos planeado mas que ainda não tinham saído da gaveta.

 

Um deles, o mais denso, estudado e trabalhado desse ano referia-se ao facto de termos um cão – o Pistáchio.

 

Manda o teorema geral da assertividade que nos debrucemos sobre uma lista de tarefas, mais ou menos independentes, para levarmos esse projecto a bom porto, digamos, pasito a pasito. Por mais curso de preparação para a paternidade que as nossas porquinhas já nos possam ter dado, ter um cão é substancialmente diferente e exige prioridades diferentes. E, claro, qual lista, qual quê… vamos rumo ao desconhecido, querer tratar de tudo ao mesmo tempo.

 

O ímpeto foi o de visitar a União Zoófila de Lisboa. Se dúvidas levava, com dúvidas saí. Na recepção, a cargo da senhora responsável, reinou a absoluta desproporcionalidade com a missão nobre que prosseguem, repetindo o mantra de que “Todos os cães estão de quarentena…”. Não raciocinei no imediato. Apesar de ser um projecto nosso há bastante tempo, julgavam-nos mais uns que queriam oferecer uma prenda de Natal de última hora.

 

Não tinha mesmo percebido. Fiz questão de ver os animais que tinham naquele momento para adopção. Se a rispidez da senhora que nos recebeu se afigurava um travão natural para os nossos objectivos, a doçura com que todos os cães nos receberam, recompensou. Sim, bem sei que recebem todos com a mesma doçura. É a forma que eles têm de pedir, com amor, uma melhor condição de vida.

 

Andei. Andei muito. Muitos ladrares. Muitas boxes. Muita inquietude, da parte deles e da minha. Pisei muito cocó. De todas as densidades. E no fim saí com a alma cheia, mas com o projecto mais ou menos penhorado. “Voltem lá para Fevereiro”, balbuciou a dita senhora, arrasando-me.

 

Fiquei durante dias a pensar no Sancho (o da fotografia abaixo, à esquerda). E em Fevereiro. E no Sancho. E, de novo, em Fevereiro… E tinha a firme convicção de que não poderia ser assim.

 

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FOTO DO SANCHO

 

Por uma questão de timing, nesse sábado à tarde, já não poderia visitar a Casa dos Animais de Lisboa, uma vez que as adopções só funcionavam das 10h às 12h, aos sábados e quartas. A CAL constituía-se como uma alternativa ao nosso plano. Outras condições, outra formação, outras prioridades, era o que esperava encontrar.

 

Tinha (e tem!) de haver um click com algum dos animais. E eu só pensava no Sancho: 8 anos, artrite, medicação crónica diária. O projecto estava mais definido do que aquilo que eu julgava: já sabíamos o peso do cão que queríamos ter como companheiro, a altura, a idade aproximada, enfim, tudo. Mas, nitidamente, a União Zoófila estava fora do mapa de possibilidades.

 

Fomos, então, recebidos na CAL por um funcionário de extrema competência! Mostrou-nos todos os cães que – mais ou menos – encaixavam nos requisitos que tínhamos e ia partilhando todos os números de ficha destes animais para mais facilmente nos podermos dirigir aos serviços e pedir deles informações. Sabíamos que nesse dia, como combináramos, não era nossa intenção levar qualquer animal mas, somente, identificar o patudo com quem clickávamos. E clickámos.

 

E, entretanto, mais 3 ou 4 que nos foram mostrados fervorosamente. Não vou dizer impingidos para não ferir susceptibilidades, mas foram-no realmente. Miraculosamente, segundo o funcionário, nenhum dos cães para adopção tinha doenças. Doenças pulmonares, cardíacas, reumatológicas, renais, nada. Pensámos: será que a ausência exterior de sinais de doença indicam a boa saúde destes? E a saúde interna é despistada? Com que propriedade podem estes funcionários atestar da boa saúde dos animais? Questionámos ainda se o número de adopções devolvidas crescia após o Natal. Recebemos um encolher de ombros. Aparentemente, entendemos nós, é algo frequente de acontecer. O que não é normal é, sabendo desta situação, haver um encorajamento tão grande na adopção de animais sem minimamente acautelar-se o bem estar deles no seu futuro. Nós, por outro lado, estávamos dispostos a aguardar. E a responsabilidade na adopção? É só da nossa parte? Sabemos: o espaço e os recursos podem ser limitados, mas os animais não podem ser despachados, qual liquidação de stock.

 

Mas, ainda pensava nisto, e já tinha um outro cachorro que tinha acabado de ser trazido para meus braços, a pedir amizade eterna. E, de repente, mais 4 cachorrinhos aparecem-me no colo, acabados de dar para adopção, com uma subentendida urgência, partilhada nos gestos e na ansiedade de levarmos um cão… Que loucura! Tantas emoções juntas. 

 

Mas lá estava Ele a tremer de frio, com as suas manchas pretas e brancas, numa boxe, simpático e tímido o que Lhe ainda permitiu vir conhecer-nos. Sabemos agora que Ele, e 29 irmãos, foram recolhidos de uma casa de alguém que sofria do síndrome de Noé. Nesse dia trouxemo-lo na memória. Tínhamos feito click. Mas, como planeámos, tínhamos de ser fortes o suficiente para voltarmos sem nenhum amigo. Havia que preparar-nos.

 

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FOTO DELE

 

Já na semana passada, voltámos à CAL. Com o propósito de conhecer o registo deste nosso novo amigo e estar um bocadinho com Ele. Com a infelicidade de não sermos acompanhados pelo mesmo funcionário, a nossa percepção do espaço e da instituição mudou totalmente. Este, desta vez, já não se preocupou com os animais. Já não nos deu números de ficha. Disse, aliás, que não estava autorizado a fazê-lo (quando a primeira coisa que nos foi pedida, à chegada, era o número de ficha do nosso amigo). Não se mostrou disponível para nos ajudar a encontrar outro amigo, visto que Ele aparentemente tinha sido adoptado - e se tivesse apenas noutro local invisível aos nossos olhos sem saber que o procurávamos? Não se esforçou.  Assim, não é possível. Não foi possível.

 

Por sua causa, por vossa causa, deixámos este projecto pendente.

 

Ainda não chegaste e já tenho saudades tuas.

 

O Cara-Metade