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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

O Marciano

13.11.17, Triptofano!

"Recebi ontem uma mensagem tua, que li mais do que uma vez antes de ir para a cama. O texto incomodava-me, mas não sabia a razão para o meu desconforto. Vinha-me sempre aquela imagem insólita de uma alga vermelha, não muito grande, levada para um e outro lado, pela ondulação irrequieta... aparentemente sempre a passar de um para outro lado, na realidade sempre no mesmo sitio, apenas arrastada para a frente , para trás, para os lados...

Pensei também nas crónicas marcianas do Ray Bradbury... lidas há muitos muitos anos... mesmo muitos. Mas que me marcaram... ou melhor, uma delas, marcou-me... a história dos colonizadores terrenos de Marte... existem vários tipos de marcianos... um deles tem uma capacidade rara... lê pensamentos, adapta-se fisicamente ao que lê na mente dos terráqueos... ao aproximar-se de uma senhora viúva, logo se transforma no marido perdido, adopta-lhe as formas, age como ela gostaria que o marido agisse... não é, pois, o marido, mas o reflexo do que ela queria que o marido fosse... logo, algo estranho para a senhora, mas mesmo assim tão bom, estava de volta! ... o marciano passa por várias casas, levado ao acaso do vento pelo pensamento do terráqueo com quem se cruza por acaso... sempre a tornar felizes os demais, sem sentimentos manifestados, sem vontade expressa... um dia, o marciano cai acidentalmente no meio de uma multidão de terráqueos... cada um com os seus desejos, com as suas necessidades, com os seus pensamentos... o pobre marciano é distorcido fisicamente por tanta vontade diferente, destruído pela sua natureza que o leva a ser o que os outros querem... morre, sem forma..."

 

 

 

A Nossa Responsabilidade Virtual

12.11.17, Triptofano!

Antigamente, quando não existia Internet, as pessoas ficavam nas suas caves a destilar ódio contra a sociedade sozinhas.

Hoje em dia, com a facilidade de comunicação que a tecnologia nos trouxe, é mais fácil para essas pessoas rancorosas encontrarem outras, organizarem-se e criarem verdadeiros festivais de ódio virtuais.

 

Todos nós temos direito à nossa opinião, a liberdade de expressão é sim um direito, mas onde é que está a nossa responsabilidade virtual?

A partir de que momento é que começámos a considerar aceitável a utilização do insulto nas redes sociais ou em qualquer outro fórum?

 

O discurso de ódio, contra minorias, maiorias ou pessoas singulares parece que se tornou algo banal - é quase normal uma pessoa emitir uma opinião pejorativa contra alguém apenas porque lhe apetece, ou simplesmente porque outras pessoas o fizeram, e assim o efeito de grupo acaba por escudar a fragilidade individual de quem escreve protegido por um monitor.

 

Mas se na vida real, aquela onde tropeçamos nas pedras da calçada e temos de correr para apanhar o comboio, a maioria se abstém de proferir alarvidades fonéticas, porque é que quando emergem no ecrã de um smartphone, ou de um tablet, se transformam?

 

Antes o álcool era a coragem líquida, agora parece ser a tecnologia a fonte dessa bravura, que torna as pessoas numa espécie de touros enraivecidos prontos a atacar um pano vermelho.

 

Pessoalmente, acho que para muita gente, a transição tecnológica foi feita com demasiada rapidez, o que impossibilitou o desenvolvimento da responsabilidade virtual, uma espécie de ética de circuitos e chips.

 

Se na rua alguém ofender outra pessoa cara a cara, talvez se habilite a levar uma resposta menos simpática ou mesmo um afago facial com mais força.

Mas na Internet, a não ser que rastreiem o nosso IP, estamos seguros para dizer o que quisermos, para ofendermos o quanto nos apetecer. E não percebemos que do outro lado do monitor existe alguém real.

 

Não é um holograma, não é uma inteligência artificial, é uma pessoa de carne e osso que lê as nossas palavras. E que as sente. E normalmente quem escreve "liberta-se", quem lê fica marcado.

 

Escrevi este post depois de ontem ter feito uma maratona a ver Black Mirror.

Para mim uma das melhores séries que já vi, primeiro porque os episódios são todos desconectados, ou seja, não é preciso ver por ordem. Segundo, faz-nos pensar.

 

Pensar em como é que a tecnologia está a avançar mas nós enquanto seres humanos continuamos tão básicos, tão rudimentares, tão pequeninos.

Atrevo-me a dizer que regredimos à mesma velocidade que a tecnologia avança.

 

Em vez de estarmos cada vez mais em contacto com a nossa parte espiritual, a desenvolver a nossa ligação energética com os outros seres humanos, perdemos o nosso humanismo ao sabor das redes wi-fi, enquanto olhamos apenas para o nosso umbigo e nem nos apercebemos que já não somos indivíduos, somos apenas mais um acéfalo comandado por uma ligação virtual.

Guilty Pleasure ou um Prazer com Culpa

10.11.17, Triptofano!

Não é segredo que eu amo de paixão a Ana Malhoa, tendo essa devoção já ter sido responsável por discussões entre mim e o cara metade, sobretudo quando expresso a dúvida sobre quem seria essencial no casamento, a Diva ou o noivo!

 

Também não é desconhecida a atracção irracional que eu tenho pela Valesca Popozuda, cantante cujas harmonias fazem com que a prostituta barata que existe dentro de mim lute por sair.

 

Mas agora trago-vos algo diferente, que recentemente se tornou um guilty pleasure, ou falando em português, um prazer com culpa. Um prazer equiparado a quando estamos de dieta e comemos uma caixa inteira de gelado de chocolate, vindo a culpa depois por termos sido fracos e não termos resistido ao apelo de sereia que emanava do congelador.

 

O que vos vou mostrar é algo que de tão mau se torna bom. Algo que de tão desafinado se transforma num poema para os nossos ouvidos. Uma verdadeira ode ao brilho interior que todos nós temos, mas por vezes a sociedade tenta ofuscar.

 

Deixo-vos sem mais delongas, a sub-celebridade brasileira, Rose, a Doméstica das Bicha!

 

 

 

E para aqueles que adoram a Frozen, não podem deixar de ver a versão da Rose! 

 

 

O Leitor Decide #4

09.11.17, Triptofano!

Hoje é dia de mais uma rubrica O Leitor Decide. E para felicidade de todos (ficam felizes não ficam?), vão poder votar novamente numa história tendo como base uma fotografia.

 

Normalmente as histórias são completamente diferentes, mas neste caso ambas têm a particularidade de terem ocorrido num rio.

 

 

Por isso vão querer votar em:

 

 

1) Um passeio calmo e cultural pelo rio Ganges na Índia

 

Varanasi.JPG

 

 

ou

 

 

2) Uma aventura cheia de adrenalina no rio Nilo no Uganda

 

Rafting.jpg

 

 

Fico à espera dos vossos votos! 

O Controlo de Raio-X

08.11.17, Triptofano!

O leitor decidiu, está decidido!

 

As votações foram renhidas, mas ganhou a história relativa ao controlo de raio-X numa viagem a Inglaterra. Então vamos lá!

 

Há meia dúzia de anos atrás, eu tinha um namorado estrangeiro, que vivia no Canadá. Gostávamos muito um do outro e essas coisas todas, mas a distância era um bocado chata, já uma pessoa ir de Lisboa ao Porto é complicado, quando mais ter que atravessar o Atlântico.

 

Por isso é que, quando ele me disse que precisava de vir a Inglaterra durante um período de tempo, eu fiquei todo contente e propus-me logo a ir visitá-lo durante uns dias, o que ele achou ser uma óptima ideia - também se não achasse a relação muito provavelmente tinha ficado por ali.

 

Eu como namorado dedicado que era, resolvi logo levar umas prendinhas, afinal já não estávamos juntos há algum tempo e eu tinha de mimar o senhor. Encafuei tudo o que consegui dentro da minha mala de mão - não levava bagagem de porão de forma a economizar algum dinheiro - e no dia combinado lá fui eu todo sorridente para o aeroporto, excitado por ir rever a pessoa de quem eu gostava na altura.

 

Só que o problema foi quando tive de passar a minha bagagem pelo controlo de raio-X.

 

Eu já estava um bocadinho nervoso porque sabia que algumas das coisas que transportava eram menos convencionais. Mas lá no fundo acreditava que ia conseguir atravessar o controlo sem ser parado.

 

Estava enganado!

 

Mal a minha mala passou pelo raio-X um agente de segurança abordou-me e disse-me que tinha de inspeccionar manualmente a minha bagagem.

Naquele momento foi como se me tivessem tirado o chão de debaixo dos pés. Comecei a sentir a boca seca, a cabeça a andar à roda, o coração a bater a mil.

 

O meu cérebro estava furiosamente a pensar no que fazer - dizia alguma coisa, não dizia, fingia que não tinha sido eu a colocar aquilo dentro da bagagem?

Só me conseguia lembrar de todos aqueles episódios que tinha visto sobre pessoas que ficam presas em aeroportos, algo que não estava a contribuir para diminuir a ansiedade descontrolada que estava a sentir.

 

Decidi que o melhor era ser honesto, declarar-me culpado logo naquele momento, porque talvez isso atenuasse a minha condenação.

 

Enchi-me de coragem, e antes que o segurança abrisse o fecho, olhei-o nos olhos, e disse-lhe:

 

Sim, eu trago um vibrador dentro da mala!

 

Ele olhou-me de volta, manteve o olhar durante intermináveis segundos e respondeu-me:

 

Ainda bem para si. Mas desconfiamos que leva fruta consigo.

 

Fiquei mais vermelho que um tomate.

Se houvesse um buraco para eu me enfiar garanto-vos que me tinha colocado lá dentro e só saído depois de hibernar durante quatro meses.

 

O segurança abriu a minha mala, e logo no topo descobriu a fruta que supostamente eu levava comigo. Era uma daquelas bombas de banho da Lush, umas bolas que se colocam na banheira e dissolvem-se ficando a água toda cheirosa. Ele olhou para ela, rodou-a entre as mãos, virou-se para o colega e gritou:

 

Eu bem te disse que não era uma laranja. Se fosse tínhamos de ter visto no monitor os caroços!

 

 

 

 

 

Missão Destralhar

07.11.17, Triptofano!

Tenho encontrado aqui na blogesfera vários blogs onde se fala do conceito de destralhar, de forma a ter-se uma vida mais simples e harmoniosa.

 

Confesso que sempre que leio um post sobre o assunto fico cheio de vontade de colocar em prática o destralhanço mas, pouco tempo depois, fico assoberbado por uma ansiedade só de pensar em deitar as coisas fora que me paralisa.

 

Sabem aqueles programas de televisão onde as pessoas acumulam sacos e saquinhos até ao tecto sendo depois necessário uma equipa de escalada para conseguir passar de divisão para divisão? Basicamente eu acho que daqui a uns vinte anos posso-me candidatar a esse programa.

Porque eu guardo tudo, mas mesmo tudo, dentro de sacos, saquinhos, sacões, mas até ao presente momento ainda os consigo camuflar dentro do roupeiro, o que faz com quem venha cá a casa não se aperceba do meu pequeno problema.

 

Porque eu quero destralhar, honestamente quero destralhar, mas além da ansiedade que o processo me cria, é algo que leva bastante tempo, porque antes de deitar uma coisa fora tenho de obedecer a um ou dois rituais.

 

Se for um folheto do supermercado tenho que abrir página por página para ter a certeza que não está nada escondido dentro do mesmo - acho que tenho medo de deixar de descobrir uma nota de cinquenta euros ou coisa que o valha!

Se se tratar de uma revista, então vou ter que, além de a abrir, ver se existe algum artigo que me interesse e por acaso não tenha lido. E normalmente há sempre alguma coisa, o que faz com que a revista volte para a pilha da tralha - ainda estou para perceber porque raio quero eu revistas de 2014!

 

E depois há o argumento do pode ser preciso. E eu sei que não preciso de 500 sacos de plástico. Nem de 300 canetas. Quanto mais de mãos e mãos cheias de elásticos. Ou de papéis de todos os tamanhos e cores e feitios com recados que às vezes já não me lembro sequer sobre o que eram.

 

Mas apesar de saber isto tudo, algo em mim fica em nível de alerta máximo quando penso em deitar algo fora. E não consigo compreender porquê; nunca tive carências de qualquer nível quando era criança, não me lembro de ter tido algo que realmente adorasse que tenha ido para o lixo sem querer....não consigo perceber este meu stress relativamente a destralhar.

 

Porém, tenho de dizer que ultimamente tenho feito alguns progressos.

O cara metade muniu-se de paciência e sentou-se comigo para arrumarmos alguns sacos. Ele respeitou o meu processo mas também não permitiu que eu o arrastasse indefinidamente. Consegui deitar algumas coisas fora. Outras tiveram de ficar cá em casa. Mas desenvolvi um truque para enganar o meu cérebro. 

 

Aquelas coisas que estavam no limbo entre o deitar fora e o guardar, coloquei num saco e entreguei à minha mãe. Para ela decidir o que fazer com elas.

Sei que não é a melhor solução porque estou a transferir a responsabilidade do processo para outra pessoa, mas como ela não armazena tudo e mais alguma coisa sei que não lhe vai custar deitar fora o que não fizer sentido manter. E eu não me vou lembrar mais sequer das coisas que lhe entreguei!

 

Assim, pessoas da blogesfera que adoram destralhar mas que convivem com pessoas que estão no ponto oposto do espectro da tralha; não se chateiem, sejam pacientes mas firmes.

 

É que a gente não faz por mal!

O meu maior arrependimento

06.11.17, Triptofano!

Todos nós temos coisas de que nos arrependemos na vida, decisões que na altura nos pareceram acertadas mas que com o passar do tempo percebemos que deveríamos ter ido por outro caminho.

 

No meu caso concreto, há algo que me atormenta todos os dias, que me faz ficar furioso comigo mesmo e que já causou alguma fricção no meu relacionamento com o cara metade.

 

O que eu me arrependo, mas arrependo com todo o meu ser, foi não ter comprado o raio duma cama maior quando adquirimos a mobília para a casa onde estamos a habitar de momento.

 

Nós vimos uma cama bem maior do que a que temos, na altura o meu irmão estava connosco e conseguíamos estar os três deitados com espaço de sobra. Mas não comprámos porque depois o quarto ia ficar muito cheio; porque se calhar era mais difícil comprar lençóis para uma cama tão grande, porque na realidade estávamos tão apaixonados - eu e o cara metade, não eu e o meu irmão, não estejam a pensar em relações incestuosas ok?- que íamos querer dormir em conchinha todas as noites!

 

Tretas minha gente, tudo tretas, especialmente a parte da conchinha! Sim, tentámos dormir agarradinhos um ao outro nas primeiras três ou quatro noites. Mas e o calor que a outra pessoa nos faz? E quando ela não cortou as unhas dos pés e parece que estamos a ser atacados por um gato selvagem? E arranjar posição para dormir? E tentar ignorar o bafo quente da pessoa na nossa cabeça que só nos faz lembrar que estamos debaixo de uma conduta de ar no autocarro?

 

Após as tentativas heróicas de dormirmos qual casal lapa, percebemos que resultava melhor se cada um dormisse no seu lado. Mas ou a cama é muito pequena, ou a gente é muito grande, porque parece que o lado que nos calha é sempre uma quantidade de colchão mínima. E depois existe sempre um pé que passa a fronteira. Ou alguém que se queixa que está a dormir na beirinha e basta um movimento para se estatelar no chão. Chegámos ao ponto de usar um fio para fazer uma divisão palpável da cama - é deprimente eu sei.

 

E se tudo isto não bastasse, existe a luta pelos cobertores. Um puxa daqui, outro puxa de acolá, alguém no meio deste processo morre de hipotermia porque o outro trancou o tecido debaixo da pança. Um verdadeiro inferno!

Por isso é que, quando eu e o cara metade vamos de férias para algum lado, a nossa maior alegria é descobrir que o quarto de Hotel tem camas separadas!

 

 

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Triptofano, o Domador de Feras

05.11.17, Triptofano!

No último post falei-vos do meu sonho de infância que acabei por não realizar, pelo menos até ao momento. Hoje venho-vos anunciar que, inesperadamente, descobri uma nova vocação.

 

Apesar de nunca ter ponderado tal hipótese, aparentemente tenho todas as qualificações para ir trabalhar para o circo como treinador de feras. Isto porque, quase um ano volvido, finalmente consegui ensinar um truque a uma das minhas porquinhas da índia, algo que para mim foi uma vitória indescritível. 

 

E se vocês acham que as porcas não são animais ferozes então convido-vos a virem cá a casa, abrirem o frigorífico e voltarem para a sala sem nada para as donzelas. Quando elas se derem conta que foram encher o bandulho e não lhes trouxeram nem um bocadinho de salsa vão ver como os dentinhos delas vão bater numa frequência ligeiramente assustadora e que lembra uma trituradora de papel.

 

O truque basicamente consiste em eu enfiar a cabeça dentro da gaiola delas (quase tão perigoso como enfiar a cabeça dentro da boca de um leão) e automaticamente a Escovinha vêm dar-me lambidelas no nariz para receber uma guloseima. Podem pensar que é algo relativamente fácil mas foram precisas muitas horas com a cabeça metida na casa delas, a esfregar um biscoito no nariz, para elas conseguirem perceber que era suposto virem-me dar beijinhos no nariz.

 

Elas salvo seja, porque a Escovinha já corre em direcção ao meu apêndice olfactivo, mas a Priscila fica à distância a olhar muito séria para mim, enquanto eu a tento hipnotizar para que ela venha ter comigo mas provavelmente ele deve achar que tenho os pêlos do nariz grandes demais ou coisa do género. A Láska, digamos que da última vez que tentei aproximar-me quase que me comeu metade de um dedo, por isso achei que era melhor deixá-la em paz.

 

Cada vez que realizo este truque penso em duas coisas.

Primeiro que vai haver o dia em que uma das porcas se engana e me arranca metade do nariz. Segundo, que quando elas estão a dar beijinhos provavelmente estão com a boca cheia de cocós, o que faz com que um ligeiro vómito me suba à boca. 

 

Talvez o circo não seja o local mais apropriado para mim no fim de contas.

 

 

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Sonho de Infância

03.11.17, Triptofano!

Este post será simples, basicamente uma pergunta que convida à reflexão, já que hoje também me sinto mais introvertido!

 

Qual é o sonho de infância que não chegaram a cumprir?

 

Quando eu era pequeno sonhava em ser arqueólogo, em passar dias e semanas no deserto, a escavar na areia à procura de túmulos de faraós perdidos.

Como muitas crianças, era um apaixonado pelo antigo Egipto, e para mim a arqueologia era o trabalho mais fascinante do mundo.

A minha mãe, lentamente, foi-me fazendo perceber que o trabalho de um arqueólogo era muito mais do que isso, era algo duro, cansativo, e muitas vezes desanimador, porque raramente se encontrava algo de espectacular - se calhar uns fragmentos de cerâmica e umas pontas de flecha se tivéssemos sorte.

 

No entanto, duas décadas passadas, e ainda hoje penso como seria a minha vida se tivesse seguido esse caminho!

 

 

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Estou pronto para a Paternidade?

02.11.17, Triptofano!

Quando eu e o cara metade convivemos com casais que têm filhos, ao verem o quão deslumbrado ele fica com as crianças, é inevitável perguntarem-me se está nos nossos planos a integração de um rebento na nossa vida.

 

Nesse momento eu coloco o meu melhor sorriso amarelo, e respondo um politicamente correcto quem sabe, talvez um dia... quando na realidade por dentro estou a gritar de pânico e a arrancar cabelos.

 

Durante anos, ao qual chamarei o meu período de inocência, presumi que a minha condição de homossexual me salvaguardaria dessa árdua tarefa que é ser pai. Como não havia nenhuma probabilidade de enfiar o meu pénis em alguma vagina que andasse a vaguear perdida por aí (nem mesmo com a desculpa da bebida a mais ou da luz a menos) estive descansado na minha vida, dormindo noites tranquilas por ter a segurança que por mais que se tentasse a próstata ainda não era um órgão possível de fecundar.

 

A questão não é eu não gostar de crianças, porque até gosto. Não é por pensar que elas vão chegar à minha vida e transformar as minhas oito horas de sono diárias em blocos de 15 minutos intercalados por intermináveis períodos de choro e birra. Nem sequer de ter a certeza que a minha vida sexual vai voar pela janela, pelo menos nos primeiros anos, ou porque a criancinha está sempre no caminho ou porque quando está a dormir vou estar demasiado exausto para sequer tirar a roupa. Muito menos por antecipar que todas as conversas profundas que anseio ter com os meus pares vão-se transformar em descrições de como foi a introdução do pêssego e do abacate na dieta do rebento.

 

O que me aterroriza, mas deixa completamente ansioso e com suores frios, é pensar nas perguntas. Aquelas perguntas que nenhum pai, por mais livros que leia, está preparado para algum dia responder.

 

E não falo daquelas questões básicas do tipo, se vocês não têm nenhuma vagina de onde é que eu saí? ou a típica, porque é que vocês não me deixam andar no baloiço que está pendurado do tecto naquele quarto em que eu não deveria entrar?

 

O que me atormenta são as perguntas científicas, aquelas que fazem uma pessoa perceber que tirou um curso universitário para nada.

 

Ontem o cara metade perguntou-me se os peixes tinham na sua composição maioritariamente água, essa água seria doce ou salgada?!

 

E eu não soube responder, na realidade nem nunca tinha pensado nisso! Só que com ele eu posso dizer-lhe para ir comer um quadrado de chocolate que ele esquece-se da pergunta. Mas se for uma criança vou fazer o quê? Ser acusado pela Segurança Social de negligência parental por ter causado diabetes ao meu filho?

 

Acho que ainda não estou pronto para a paternidade!

 

 

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