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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

O Leitor Decide #2

14.10.17, Triptofano!

Hoje é sábado por isso é dia de O Leitor Decide.

 

Desta vez não vos trago fotos para escolherem, visto que ambas as histórias que tenho para contar implicaram a proibição de registo fotográfico, só para terem uma ideia do quão assim a atirar para o desavergonhadote elas são.

 

Sem mais demoras apresento-vos as 2 histórias que estão em votação na rubrica desta semana.

 

1) Os Parabéns cantados em Banquecoque

 

2) A Loucura da Shakira em Amesterdão

 

Para quem não conhece o funcionamento do sistema de voto, ele é bastante rudimentar. Basta ir à caixa de comentários e dizer se quer ver revelada a história número 1 ou a número 2.

Na próxima sexta-feira será publicada aqui no blog a que tiver mais votos.

 

Espero que tenham ficado curiosos e só posso revelar que qualquer uma delas não deve ser lida em voz alta junto de familiares mais puritanos - quer dizer, poder pode, mas depois não digam que eu não vos avisei!

 

O LEITOR DECIDE.png

 

 

 

Highway

13.10.17, Triptofano!

Tenho que confessar que fiquei felicíssimo pela adesão que o desafio O Leitor Decide teve, já que ultrapassou em muito as minhas expectativas. Só mostra que vocês que dedicam parte do vosso tempo a visitar o meu cantinho são assim espectaculares.

 

A foto vencedora com a grande maioria dos votos foi a número 2, onde podem visualizar a minha pessoa empoleirada numa vedação de metal, totalmente consciente de que se caísse ia perfurar pelo menos um rim, e o meu coordenador de projecto a vibrar com a minha performance agarrado ao varão.

 

Escolha n 2.jpg

 

Como vocês decidiram vou então partilhar a história por detrás deste registo fotográfico.

 

Já devem ter imaginado que esta foto foi tirada no Uganda.

No dia seguinte iríamos deixar a povoação onde tínhamos vivido quase dois meses para fazer uma pequena viagem pelo país antes de regressarmos aos nossos lares geográficos; por isso, eu e os restantes voluntários decidimos que nesse último dia deveríamos fazer uma festa de dimensões épicas para assinalar a nossa passagem por aquela região e também para celebrar todo o trabalho que tínhamos desenvolvido durante o nosso voluntariado.

 

Um dos locais que trabalhava connosco como tradutor teve a amabilidade de nos ceder um espaço que tinha a funcionar como bar para a nossa festa. O rapaz a quem todas as manhãs íamos buscar fritos para o pequeno-almoço (sim, foram tempos extremamente saudáveis) ficou encarregue de nos preparar frangos no churrasco.

Por isso já tínhamos local, já havia comida, só faltava a bebida.

 

Alguém nos disse que a uns kms de onde estávamos havia um local, chamado de Highway, assim a atirar para o ilegal, onde poderíamos obter álcool de fermentação caseira. Obviamente que se em Portugal nos propusessem ir a um local manhoso com pessoas que nunca tínhamos visto em lado nenhum buscar álcool fermentado sabe-se lá como nós mandávamos a pessoa dar uma curva. Como estávamos no Uganda alegremente entrámos no jipe, pegámos num saco de garrafas de água vazias, e fomos rumo à Highway.

 

Quando chegamos à fábrica ilegal de álcool, que não era mais que uma cabana de dimensões bastante modestas, percebemos que além de entreposto comercial também servia como espaço de degustação.

A nossa ideia era chegar, comprar e toca a andar, mas obviamente que a ideia de quem nos recebeu era totalmente diferente. Fomos sentados numa salinha, cheia de pessoas ligeiramente alcoolizadas, e deram-nas a beber o produto da casa - forte!!!

Tudo teria corrido pacificamente se um dos convivas não tivesse reparado na máquina fotográfica que levávamos connosco. Provavelmente ficámos sem exageros uma hora a tirar fotos uns dos outros, em todas as posições possíveis e imaginárias, até que de repente, uma das mulheres, com um gesto assim vagaroso, pega na blusa e faz questão de a tirar.

Nesse momento tremi, pensei que pronto as coisas iam descambar e íamos-nos envolver numa orgia sexual multi-étnica e eu sem a depilação feita, mas felizmente a jovem tinha outra blusa por baixo - afinal deveria ser a sessão fotográfica que lhe estava a fazer calor.

 

 

help.jpg

 

 

Depois de muito esforço fomos finalmente adquirir a bebida caseira que nos foi vertida nas garrafas de plástico que levávamos - já nos tinham avisado que era assim o procedimento. 

 

E o preço? Para terem a noção, convertido para euros, cada garrafa de litro e meio de bebida custou-nos aproximadamente vinte cêntimos. E como levávamos dez garrafas ainda nos ofereceram duas de graça. Um bom negócio atrevo-me a dizer.

 

A nossa sorte foi que nenhum de nós tinha lido a notícia que saíra dias antes sobre as bebidas caseiras feitas no Uganda - aparentemente tinham sido identificados alguns casos de cegueira permanente causada pela ingestão das mesmas....

 

barris de bebida.jpg

 

Com as bebidas bem instaladas no jipe fomos em direcção ao último local que precisávamos de visitar antes da grande festa - a casa do alfaiate.

Uma semana antes, quando tínhamos pensado em fazer a celebração, achámos que seria muito mais interessante eternizá-la vestindo-nos com um traje típico do país. Só que parece que não há assim traje típico por aquelas bandas, ou pelo menos foi isso que nós compreendemos. Acabámos então por optar por umas vestes Nigerianas, que para a ocasião também funcionavam perfeitamente.

 

Roupas vestidas, adornos colocados, fomos a pé até ao local da festa.

Podem imaginar que a nossa cor de pele já nos diferenciava bastante dos restantes habitantes, agora aperaltados com trajes típicos africanos era virtualmente impossível alguém não reparar nas nossas pessoas.

 

A festa corria tranquilamente, o frango estava delicioso, a música tinha sido bem escolhida e aqui o vosso amigo Triptofano atacava com vontade uma caneca de bebida. Primeira caneca sem problemas, afinal tenho uma boa resistência ao álcool; segunda caneca, pronto confesso que não sei o que aconteceu, basicamente o meu cérebro entrou em piloto automático e todo o meu discernimento foi atirado para a sarjeta.

(In)Felizmente havia máquina fotográfica na festa por isso posso-vos mostrar o decorrer dos acontecimentos.

 

Aqui estou ainda mais ou menos estável.

 

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Nesta altura já perdi qualquer vergonha que podia ter na cara.

 

Meio.jpg

 

 

Aqui estou mais que pronto para ir para casa.

 

FInal.jpg

 

 

Durante todo este processo foi tirada a foto que vocês escolheram - só que a história ainda não acabou.

Eu sei que o post está gigante mas é só mais um bocadinho, prometo.

 

Ora a certa altura comecei a dar conta de mim, olhei para o relógio e vi que eram duas da manhã, pelas minhas contas tinha entrado em estado couve por volta das onze, por isso havia um lapso de três horas na minha memória.

Olhei ao meu redor e vi os meus colegas a dançar em cima das mesas, felizmente éramos só nós, ou seja não havia grandes testemunhas do meu deplorável comportamento.

Até que olhei para a porta e vi umas vinte cabeças sorridentes de habitantes com os olhos cravados em nós. Basicamente as pessoas não entravam (afinal era uma festa quase privada) mas isso não as impedia de ver tudo.

Envergonhado puxei uma das raparigas do meu grupo e disse-lhe que estava cansado e queria ir para casa.

Ao que ela me respondeu que eu não podia estar cansado ao mesmo tempo que me prega um estaladão que me faz voar os óculos pela sala.

 

Aparentemente aquela festa era o derradeiro teste à capacidade de sobrevivência humana.

 

No dia seguinte, muito cedinho, estávamos ainda completamente ressacados, pegámos nas malas e fomos em direcção ao jipe.

O plano era abandonar a povoação e nunca mais ninguém ouvir falar de nós. Mas o destino é lixado, e quando estávamos todos prontos para arrancar a viatura não quis dar sinal de vida. Depois de muita insistência ligou-se para o mecânico que nos informou que só poderia resolver o problema no dia seguinte.

 

Agora visualizem o nosso Walk of Shame, enquanto percorríamos a povoação para comprar água e comida, com um ar de quem estava mais morto do que vivo, enquanto todos os habitantes se riam e apontavam para nós, debitando piadinhas sobre como éramos uns party animals e que os nossos movimentos de dança eram algo de transcendente.

 

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Foi nesse dia que aprendi que nunca devo fazer nada que não tenha a coragem de assumir, principalmente perante um grupo de Ugandeses risonhos.

 

Comprar gato por lebre

11.10.17, Triptofano!

Comprar um multivitamínico deveria ser algo fácil e intuitivo, olhar para a caixa, ver a quantidade de comprimidos, comparar os preços, pagar e tomar.

 

Porém com a oferta que existe hoje em dia é necessário que nós consumidores estejamos cada vez mais atentos para não comprarmos gato por lebre, e para isso é preciso ter em mente certos detalhes.

 

    • Nunca devemos comparar o preço por caixa mas sim por dose. Ou seja, primeiro que tudo temos que ver quantas doses possui a caixa que temos nas mãos. Ter sessenta comprimidos não significa que dê para sessenta dias, porque se a dose diária recomendada for de 4 comprimidos então só temos terapêutica para 15 dias. Depois de nos assegurarmos para quantos dias dá o produto que temos na nossa frente, pegar na calculadora, ver qual é o valor que vamos pagar por dia e a partir daí fazer as comparações.

 

    • Ver a dosagem de cada substância. E aqui novamente é ver a dosagem relativa à dose diária que vão tomar. Não é a quantidade de uma certa vitamina por 100g de produto, porque aí vão pensar que estão a comprar algo concentradíssimo quando não o é. Nem a quantidade por comprimido se tiverem que por dia tomar 10, porque neste caso vão achar que o produto é mais ar que outra coisa quando afinal até pode ter uma quantidade razoável.

 

    • Saber qual a quantidade real de uma substância na sua forma isolada. Por exemplo, comprar umas ampolas com 1500 mg de pidolato de magnésio não significa que se esteja a comprar 1500 mg de magnésio. Muitas marcas não colocam a conversão para a substância isolada e pensamos que estamos a fazer um negócio da China quando afinal estamos a comprar uma quantidade muito menor do produto que tínhamos interesse.

 

    • Focar bem o olhar e perceber se à frente de cada ingrediente está o símbolo de grama, de miligrama ou de micrograma. Porque 100000 microgramas e 0.1 gramas pode parecer uma diferença abismal mas no fim são a mesma coisa.

 

  • Perceber para que função queremos o suplemento. E assegurarmos-nos que na composição existe algo que vá de encontro às nossas expectativas. Se queremos energia convém haver algo que tenha como função primária dar energia no produto que vamos comprar. E numa concentração simpática. Às vezes compram-se produtos com concentrações menores mas com mais diversidade de substâncias, mas eu penso sempre na comparação da salada de frutas. Se queremos comer papaia, porque é que não comemos apenas papaia em vez de uma salada de frutas que possui 20 frutos diferentes mas com apenas um cubinho de cada um deles?

 

Hoje em dia ser consumidor é uma tarefa complicada!

 

 

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Memórias da minha Infância

10.10.17, Triptofano!

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Tenho o prazer de vos apresentar o Triptofano em ponto pequeno. Uma criança adorável que, ao pressentir a hipótese de um registo fotográfico para a posteridade, estica-se todo para colocar a mãozita mesmo na mama da estátua! Ah que orgulho deve ter sentido o senhor meu pai naquele momento, a pensar que tinha ali um filho machão em potência. Apesar de continuar orgulhoso de mim o meu progenitor teve que mentalizar-se que os meus gostos anatómicos com os anos foram por caminhos ligeiramente diferentes.

 

Agora porque é que eu coloquei aqui esta foto? Ora para grande felicidade minha, a Miss Unicorn convidou-me para participar na rubrica do seu blog intitulada Era Uma Vez, onde me desafiou a partilhar uma história caricata de infância. E eu resolvi além da história partilhar esta fotografia, que nada tem a ver com a história em si, mas que eu achei assim, digamos, adorável!

 

Se tiverem curiosidade em saber que aventura digna de nota ocorreu há muitos anos atrás (que isto uma pessoa já não vai para nova) podem espreitar aqui. E depois se quiserem não se esqueçam de me deixar um comentário! 

 

 

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Amor

08.10.17, Triptofano!

If you can't love yourself, how in the hell you gonna love somebody else?

 

Correndo o risco de me inserir num cliché mas há poucas séries que me dêem tanto prazer visionar como a RuPaul's Drag Race. Abreviando para quem não conhece a mesma, trata-se de uma competição onde se procura o carisma, singularidade, coragem e talento de uma drag queen, para suceder ao título de "America's Next Drag Superstar", estando a apresentação a cargo de umas das drag queens mais famosas de sempre, RuPaul.

 

É também RuPaul que no fim de cada episódio evoca o mantra com que inicio este post, e durante anos sempre o vi como uma referência ao Body Positive, um movimento que encoraja as pessoas a amarem e a aceitarem os seus corpos, mesmo que eles não se encaixem no padrão de beleza vigente, porque afinal a beleza é algo bastante subjectivo.

 

Só há pouco tempo percebi que este amor por nós mesmos não se prende somente ao lado físico.

Como saberão, as relações, sejam elas de que tipo forem, são interacções complexamente frágeis, que necessitam de ser constantemente alimentadas para não mirrarem e morrerem. Infelizmente como somos seres humanos perfeitamente imperfeitos, há alturas que erramos, que dizemos aquela palavra que deveríamos ter calado porque não era sentida, que temos um gesto mais brusco por falta de paciência com a vida, que descarregamos sobre a pessoa que mais amamos porque no fim de contas é ela que está mais a jeito, mesmo que saibamos o quão errado isso é.

 

Normalmente depois destes desvios comportamentais pesa-nos a consciência; sim, pasmem-se muitos ao ler estas palavras, ainda há quem tenha consciência.

E é aqui que muitas vezes não sabemos como nos podemos voltar a amar.

 

Mesmo que a pessoa que foi vítima da nossa crueldade nos perdoe, nos diga e volte a dizer que não há problema, que são coisas que acontecem, que todos temos momentos que nos arrependemos de uma forma ou de outra; são nestas ocasiões que a falta de orgulho nos nossos actos nos impede de amar a outra pessoa.

Porque não nos sentimos dignos desse amor.

E quanto mais o outro lado perdoa, reconforta, acarinha, mais nós nos fechamos sobre nós mesmos, porque não conseguimos compreender como é que alguém nos ama tanto quando nós sentimos uma mescla de vergonha e nojo dos nossos actos.

 

Por vezes esta incapacidade de nos perdoarmos instantaneamente leva a que do outro lado haja uma fricção ainda maior.

Afinal se nos perdoam, se nos amam, se nos asseguram que tudo está bem, que mais queremos nós? Porque não conseguimos olhar de frente quem nos dá a mão, porque é que os nossos lábios se cerram ao ouvir as palavras acetinadas de quem está a meio metro de nós?

 

O amor é belo mas exigente, e quanto maior o amor que sentimos maior é a exigência a que nos sujeitamos.

Por isso quando erramos tendemos a castigar-nos em nome do amor. A auto-mutilar-nos na profundidade das nossas sinopses.

Até ao momento em que nos conseguirmos perdoar e voltar a acreditar que somos merecedores do amor que alguém nos entrega de coração aberto.

E só nesse momento é que estamos prontos para voltar a amar.

 

 

 

O LEITOR DECIDE.png

 

 

O Leitor Decide

07.10.17, Triptofano!

Depois do marco que foi ter chegado e ultrapassado o post número 100 comecei a pensar seriamente na minha vida blogesférica.

E uma das conclusões a que cheguei é que vocês, meus queridos e mais que tudo leitores, merecem ter algum controle sobre o que se passa neste blog.

 

Por isso decidi que todos os sábados será dia de O Leitor Decide.

 

Ora O Leitor Decide é basicamente uma forma de eu fazer render mais o peixe, porque desculpem a honestidade mas eu qualquer dia já vos contei a história toda da minha vida e ainda ninguém me convidou para jantar!

Assim sendo vou postar duas fotos, cada uma com uma história engraçada/peculiar associada, e vocês votam em qual das histórias querem ver reveladas aqui no blog na sexta-feira seguinte.

 

Como eu sou um nabo e não consegui descobrir como é que se punha uma daquelas votações todas xpto com fotos incluídas sem para isso ter de dar albergue no meu portátil a vinte e três espécies de vírus diferentes, a votação vai ter de ser na caixa de comentários.

Basicamente só precisam de dizer se querem saber a história da foto 1 ou da foto 2 - e já agora se não for pedir muito aproveitam e deixam também umas palavrinhas carinhosas que uma pessoa fica sempre feliz ao ler coisas bonitas!

 

Sem mais delongas, dou-vos a conhecer as duas fotos em votação deste primeiríssimo (e quem sabe último, dependendo da adesão) O Leitor Decide

 

Foto 1 

Escolha n 1.jpg

 

 

Foto 2 

Escolha n 2.jpg

 

 

Fico à espera dos vossos votos! 

 

Vocês decidem a próxima história

 

Sindicalistas com Asas

06.10.17, Triptofano!

Não sei se é do conhecimento geral mas existe uma praga que invade literalmente todos os dias o centro comercial Vasco da Gama.

 

E não, não me estou a referir às pessoas que perdem a cabeça ao ver os preços extremamente reduzidos da Primark, visto não existir tal loja no centro comercial em questão, mas mesmo que houvesse nunca poderia falar mal dum grupo de consumidores onde também eu me insiro! (ser pobre é uma treta digo-vos já!)

 

Falo da quantidade astronómica de pombos que por lá anda. Num primeiro olhar distraído até podemos pensar que se tratam de dois ou três pombos inofensivos com ar amoroso; mas no momento em que uma alminha inocente coloca um tabuleiro no carrinho com um pedaço de croissant não digerido é ver paletes deles aparecidos de todos os cantos e recantos em busca do seu quinhão de bolo processado - afinal os pombos já não se alimentam apenas de pão.

 

E é pelo facto dos pombos já não se contentarem com hidratos de carbono simples que é necessária extrema cautela também nos dias em que se cedeu à tentação e se leva para a esplanada um belo hambúrguer com batatinhas fritas a acompanhar. O pombo simpático que nos mira do outro lado da mesa transforma-se em segundos num predador de tubérculos fritos que nunca na nossa vida pensaríamos ter pela frente.

A evolução está a tomar um caminho duvidoso ou é apenas impressão minha?

 

Ora há uns dias atrás eu e o cara metade resolvemos ir comermo-nos alimentarmo-nos para o Vasco da Gama, já com a plena noção que qualquer partícula de comida que não protegêssemos com a nossa vida iria ser devorada por esses poços sem fundo com asas. Qual o nosso espanto quando, a certo momento, não foram pombos que vimos mas sim um pássaro de uma grande envergadura. Primeiramente achámos que ele andava por ali perdido mas rapidamente constatámos que havia um tratador a quem o mesmo obedecia.

 

Ora este pássaro era nem mais nem menos que uma águia, mas por mais que gostasse de ver uma celebridade a meia dúzia de metros de mim não fui crente o suficiente para acreditar que fosse a águia Vitória, como o cara metade jurava a pés juntos que era.

É verdade que não seria de todo impossível, tendo em conta que a águia Vitória não deve fazer muito da vida, é passar umas horitas a tirar fotos com o pessoal e aparecer nos jogos, por isso se calhar o Benfica achou que era melhor rentabilizar a pássara e levá-la para o Vasco da Gama para afugentar os pombos.

 

Porque era isso que ela andava a fazer, a correr com os pombos - ao que parece a sua entidade empregadora era uma empresa anti-pragas - mas com uma taxa de  sucesso assim a rondar os 75%. É que se a maior parte dos pombos fugia num piscar de olhos, havia uns sacanas que se iam pousar mesmo ao pé dela, a olhar-la de frente (os pombos olham de frente certo?), como se estivessem a medir forças.

 

Aprendi nesse dia que até no mundo dos pombos existem aqueles que nasceram para ser sindicalistas!

 

aguia vitoria.jpg

 

100º

05.10.17, Triptofano!

Hoje é um dia especial para mim.

Não apenas por ser o dia em que se comemora a Implantação da República Portuguesa mas pelo facto de este ser o centésimo post deste blog.

 

E tenho que confessar que estou assim cheio de orgulho de mim mesmo, porque nunca pensei que conseguisse chegar tão longe - lá no fundo tinha o secreto receio de chegar ao post número 10 ou 15 e mandar tudo para as urtigas.

 

Mas não, dia após dia obriguei-me a vir escrever, a partilhar um bocadinho do meu dia-a-dia, a relembrar histórias do passado, e quando dei por ela descobri que estava viciado, que já não conseguia estar um dia que fosse sem vir a este cantinho, deixar um bocadinho de mim e descobrir um bocadinho dos outros.

 

Sim, porque na realidade são os outros que tornam este espaço tão especial. São vocês queridos amigos que dedicam minutos do vosso dia a ler as minhas peripécias que me deixam com um sorriso na cara, que fazem com que valha a pena acordar mais cedo para vir responder a comentários, mas são também vocês que me perdoam (ou espero que o façam) quando as respostas às vossas interacções e entradas nos vossos espaços tardam.

Mas eu nunca me esqueço de vocês, e todos estão no meu coração.

 

Lamechices à parte, que daqui a pouco já estou com a lágrima no canto do olho, queria pedir-vos algo a título de ajuda. Como este blog só faz sentido se vocês existirem o que é que gostariam de encontrar neste espaço? 

 

Um design novo, mais fotos, artigos de opinião de outros bloggers, rubricas semanais do cara metade, um espaço dedicado ao consumo assinado pelo Macaco José?

 

Já sabem que a caixa de comentários é vossa por isso não se acanhem a dar sugestões, agora só quero que saibam que o que quer que o futuro traga a este blog nunca vou deixar de ser eu mesmo. Porque se fosse de outra forma já não teria graça alguma!

 

A todos vocês, o meu mais profundo obrigado!

 

 

Um cidadão de segunda

04.10.17, Triptofano!

Há uns dias atrás, discutia-se no emprego o casamento homossexual. Não tinha sido eu a abordar o tema, esta tinha surgido devido a uma notícia entre as muitas que circulam na Internet.

 

Neste tipo de troca de ideias aprendi a ouvir primeiro as outras pessoas para perceber se vale a pena argumentar com o meu lado de pensamento ou se é preferível remeter-me ao silêncio. Infelizmente existem indivíduos que pela expressão corporal e linguística mostram-nos imediatamente que são inflexíveis ao diálogo, ou melhor, que não se importam de dialogar desde que a sua opinião basicamente atropele a dos outros. 

 

A discussão iniciou-se com a impossibilidade dos homossexuais casarem pela Igreja. Argumento para aqui, argumento para ali, parecia unânime que o casamento religioso deveria ser exclusivo dos heterossexuais. Afinal quem ama pessoas do mesmo sexo basicamente pega fogo se ousar entrar numa igreja; não me apoquentei com este raciocínio porque sabia que era uma batalha perdida mesmo antes de começar.

 

Estava mais preocupado se iria ouvir opiniões baseadas no sagrado conceito de família, que uma união deveria ser entre um homem e uma mulher - apesar de no local onde laboro após terem conhecido a pessoa com quem estou me terem dito que certamente eu deveria ser a mulher da relação. Andei estes anos todos enganado, a pensar que estava numa relação entre dois homens, não sei de onde é que apareceu a mulher entretanto.

 

A certo ponto o debate de ideias aborda o casamento civil. E um colega diz que não entende sequer para que é que os homossexuais querem esse casamento. Que não é preciso assinar um papel para ter regalias fiscais. Que ele está junto com a namorada há anos e também nunca se casaram.

 

Inspiro fundo.

 

Digo-lhe a ele - e a todos os outros - que se não se pretende casar é uma decisão dele. Porque ele sempre teve escolha, entre casar ou não casar. Os homossexuais até há pouco tempo atrás eram obrigados a não se casar; não havia nada por onde optar.

O cerne da questão não é se o casamento irá trazer benefícios fiscais ou não, não é se o amor verdadeiro precisa de um papel assinado para ser assumido perante os outros ou não.

 

O que tem de se perceber é que não pode, ou não deveria haver, cidadãos de primeira e cidadãos de segunda dentro de um mesmo país. A orientação sexual de alguém não deveria dar acesso a mais ou menos direitos - afinal falamos de algo que é inato a um indivíduo, por mais que certas pessoas queiram à força que seja considerada uma moda, ou um capricho de personalidade (!)

 

Talvez a grande maioria dos homossexuais nunca se queira casar. Mas acredito que a grande maioria queira poder dizer que a escolha foi sua, que pôde optar por não se casar, e não que foi algo imposto por uma qualquer sociedade que para o exterior se apregoa de tão moderna e igualitária mas por dentro continua a segmentar os seus cidadãos em castas surreais.

Não Tão Amarelo, Vicente

03.10.17, Triptofano!

Olhou com perplexidade para o seu lado esquerdo. Três quartos e meio de existência separavam-na novamente daquele homem. Ele observava cegamente o quadro que tinha na sua frente, não deixando transparecer nenhum sinal de reconhecimento em relação ao frágil transtornado corpo daquela mulher que via num segundo todas as suas defesas a serem estilhaçadas e remetidas a uma vaga miragem de poeira etérea.

 

Sílvia concentrou-se na abstracção da nulidade do pensamento de forma a conseguir equilibrar-se nos saltos que lhe anulavam a tarefa de ter de se agigantar perante terceiros enquanto a mão trémula dançava com uma flute de champanhe transbordante de algo que não se assemelhava a morna felicidade mas talvez a uma não temperada reviravolta do destino.

 

Passou a mão pelos acastanhados caracóis enquanto sentia no seu interior estalar uma capa que pensara ser dura, resistente, capaz de a fazer avançar contra todas as vagas e marés da vida. Oh, que tonta fora, reconhecia naquele momento em que via outra vez os medos e dúvidas, os desequilíbrios e hesitações a saquearem-lhe a sua realidade de uma forma demasiado crua e explícita para poder sequer acreditar nela.

 

Odiava as apresentações de arte moderna que tinha de regularmente promover na galeria de que estava encarregue, mas uma percentagem igual a 50 na venda de uma qualquer obra era mais do que um bom incentivo para naquele tempo de crise tolerar aquele vai e vem de corpos conhecidos e rotinados, que falavam, riam, bebiam, indiferentes aos três quartos e meio de vida invisíveis que separavam Sílvia de um presente, de um passado e, cravejavam-lhe os olhos de lágrimas, de um futuro que sabia inexistente.