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Triptofano

O teu aminoácido essencial!

Do outro lado da linha

02.09.17, Triptofano!

Já não quero viver.

 

Infelizmente não consigo precisar quantas vezes ouvi esta frase, exactamente com estas palavras ou com outras similares.

 

Há cinco anos atrás resolvi dedicar parte do meu tempo a fazer algo que curiosamente me faz bastante confusão no meu dia-a-dia. Falar ao telefone! 

Mas esta era uma linha telefónica especial, porque do outro lado da conexão havia alguém triste, só, desesperado e muitas vezes no fim da linha.

 

Candidatei-me como voluntário à SOS VOZ AMIGA, "uma linha de apoio emocional que se disponibiliza a ajudar todos aqueles que se encontram em situações de sofrimento causadas pela solidão, ansiedade, depressão ou risco de suicídio". 

 

Quis ser parte do projecto porque também eu em certa parte da minha vida abracei o sofrimento, também eu achei que talvez já não houvesse estrada para caminhar. E percebi que às vezes basta uma palavra, um sorriso na voz para entendermos que não há apenas um trajecto, que nem sempre a ausência de sol nos impede de ver o futuro, muitas vezes é suficiente o luar.

 

Passei por várias fases de selecção, para compreenderem se eu tinha o perfil correcto para o trabalho e se o trabalho tinha o perfil correcto para mim. Tive que me despir em frente a estranhos, tal como muitos estranhos se desnudaram perante a receptividade dos meus ouvidos. Mas eles estavam escudados perante o anonimato; eu, sem máscaras nem refúgios, tive que mostrar quem era e quem nunca quis ter sido. Não foi fácil, mas não poderia ter sido doutra forma.

 

Iniciei-me na escuta - sim porque neste projecto o importante é escutar, o falar é secundário - com colegas voluntários mais experientes. Aprendi sobretudo o que deveria evitar fazer no decurso duma chamada. Dar conselhos, emitir juízos de valor, transmitir pena pela voz, nenhuma destas coisas faziam parte dum atendimento de excelência.

 

Após duas chamadas acompanhado iniciei-me ao telefone sozinho. E nunca senti solidão tão pesada em toda a minha vida. Apenas eu, num enorme apartamento antigo no centro de Lisboa, a fazer um horário compreendido entre as 20h e a Meia-Noite. Somente eu e o telefone, que não demorava muito tempo a tocar. Sempre que o aparelho dava sinais de haver alguém do outro lado da linha eu estremecia. Porque o barulho quebrava a solidão do meu silêncio. Porque eu nunca sabia o que estava do lado de lá.

 

SOS Voz Amiga Boa Noite. Era sempre assim que atendia o telefone. Não havia nomes, não existiam identidades. Eu era naquele momento apenas uma voz.

 

Cheguei a fazer 5 turnos numa semana. O horário da noite era o menos preenchido e havia sempre poucos voluntários para assegurar o bom funcionamento da linha. Entreguei-me à causa porque acreditei nela, porque sabia que aquela plataforma poderia realmente ajudar alguém.

 

Todas as segundas tínhamos reunião dos voluntários acompanhados por dois psicólogos que nos guiavam neste processo tão complicado que é ser fiel depositário da vida dos outros.

 

Foi numa destas reuniões que percebi que a maior parte dos que ligam não querem deixar de viver.

 

Simplesmente não querem continuar a viver da mesma forma.

 

Hoje ao recordar esta fase da minha vida lembro-me sempre dum telefonema que me marcou.

 

Uma senhora que ligou derrotada, a dizer que já não queria viver. Tentei com as ferramentas que me tinham dado mostrar-lhe que ela apenas queria viver de uma forma diferente daquela como vivia.

Respondeu-me que não havia outra forma, um dos filhos tinha morrido, o outro era toxicodependente, estava desempregada e era vítima de maus tratos pelo marido. Não existia outro caminho, outra solução. Fez-se silêncio. Não soube o que dizer. Do outro lado da linha as palavras também se esgotaram. A chamada desligou-se.

 

Olhei para o telefone mudo e chorei. De raiva de mim mesmo por não ter sabido dizer as palavras certas. De raiva com o mundo por ser tantas vezes um lugar tão ingrato.

 

Pão à Mesa

01.09.17, Triptofano!

Não queridos seguidores deste blog, este espaço não se converteu a um roteiro gastronómico. Simplesmente calhou na mesma altura ter a oportunidade de experimentar alguns sítios diferentes.

 

Lá na loja temos uma moça que está a fazer um estágio, e ontem foi o último dia dela.

Ora do que se lembrou a patroa?

De fazer um jantarzinho de despedida. Uma ideia extremamente amorosa aos olhos de todos menos dos meus, já que a minha conta bancária está a um suspiro de entrar em coma profundo. Como não tive coragem de dizer que não queria ir, já que todos os colegas com um sorriso pronto disseram que sim, que ideia extraordinária, restou-me fazer orações a todos os pais de santo para que se fosse comer ao Burguer King ou a uma roulotte de cachorros ali ao pé de São Pedro de Sintra.

 

Infelizmente as minhas preces não foram ouvidas e o local escolhido foi o restaurante Pão à Mesa com Certeza que fica no Príncipe Real, que apesar de não ser muito caro já iria fazer um rombo ao meu equilíbrio financeiro.

 

Mas rombo por rombo pelo menos que comesse bem e experimentasse coisas novas pensei eu. Já que era para gastar que valesse a pena!

 

Após mentalizar-me que iria fingir ser ligeiramente mais rico que sou nem que para isso tivesse de comer arroz com salsichas durante a próxima semana fiz algo que muita gente acha que é perda de tempo.

Fui passar a pente fino o menu que estava no site do Zomato. E fui ver os comentários também, tendo o cuidado de proceder a uma cuidadosa filtragem dos mesmos. Há pessoas que são do mais picuinhas que se pode imaginar e há outras que mesmo que se lhes sirva terra no prato vão dizer que foi a melhor experiência gastronómica da vida delas! Ao fim de meia hora de pesquisa já sabia o que ia pedir.

 

A minha escolha recaiu sobre:

 

Cappuccino de Camarão e Espuma de Alho

 

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Tinha lido que o camarão panado em pão panko era delicioso. Confere - pena que em vez de dois ou três só havia um, mas entende-se visto ser uma entrada. Muitos comentários diziam que o caldo era demasiado intenso sendo impossível de comer no final. Não achei nada disso, estava forte e apurado mas era totalmente comestível, com ou sem camarão. Fiquei foi com a ideia de que era caldo de pacote porque senti o sabor um quanto-nada artificial. E eu quando vou a restaurantes gosto que as coisas sejam feitas de raiz, além de terem mais alma possuem muito mais sabor. Agora quanto à espuma de alho, uma boa ideia mas não era bem uma espuma, eram resíduos de rebentação das marés contra as rochas na melhor das hipóteses.

 

Filetes de Polvo, Açorda de Coentros e Chips e Molho de Tártaro

 

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Era o prato que toda a gente falava bem e não desiludiu. Os filetes estavam espectaculares, e ou fui muito bem enganado ou eram mesmo de polvo e não de pota, como acontece em tantos restaurantes. A açorda estava de lamber os dedos e os chips que mergulhei no molho tártaro estavam estaladiços e bem temperados. A dose era substancial por isso mesmo os estômagos mais exigentes não iriam passar fome.

 

E foi neste prato que eu coloquei à prova o serviço do restaurante. Tinha lido que o puré de aipo era uma especialidade que fazia enaltecer um alimento muitas vezes ignorado.

Como o prato que escolhi não o trazia como acompanhamento resolvi perguntar se era possível trazerem-me um pouco para provar. O senhor que me atendeu, bastante atencioso disse que iria falar com o chefe para saber se era possível. E foi possível, o que eu não esperava era que trouxesse uma quantidade tão volumosa, e ainda pediu desculpa por só ter conseguido trazer aquela porção.

E o puré é mesmo assim qualquer coisa de outro mundo, aveludado no inicio, com um travo agreste no fim que parece que estamos a comer aqueles fios duros do aipo. Recomendo vivamente provarem este acompanhamento.

 

Leite Creme de Mel, Farófias de Limão e Crumble de Amêndoa

 

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Os comentários referiam que era uma sobremesa demasiado enjoativa.

E eu só tenho a dizer que da próxima vez que houver alguém que não conseguir comer tudo por estar enjoado chame-me que eu limpo o prato enquanto o diabo esfrega um olho. O leite creme queimadinho estava óptimo, o crumble dava um elemento crocante ao prato e as farófias de limão, ai as farófias de limão, posso dizer que me apaixonei? 

 

Na realidade, enjoativa era a sobremesa de chocolate, mousse de framboesa, gelado de ginja e nougat de frutos secos e chocolate que as minhas colegas comeram. Os pedaços de chocolate servidos eram demasiado maçudos e não tinham uma calda que os pudesse humedecer tornando a sua deglutição mais fácil. Mas o gelado de ginja era assim de bradar aos céus de tão bom que era. Só sei que quando voltar a este restaurante vou pedir meia caixa de gelado de ginja e mando o chocolate à fava!

 

 

Mas sabem qual foi a cereja no topo do bolo?

Aquele detalhe que fez com que a minha digestão fosse feita de forma muito mais rápida e alegre?

Foi o patronato que pagou o jantar a toda a gente! 

 

P.S. - Desculpem a qualidade das fotos mas além do telemóvel não querer colaborar comigo a quantidade de luz do espaço não era muita o que dificultou a captação fotográfica dos petiscos!

 

 

 

Pão à Mesa com Certeza Menu, Reviews, Photos, Location and Info - Zomato

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