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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

08
Ago17

Um amigo para sempre


A primeira vez que o vi foi no IKEA. Eu e o cara metade tínhamos ido fazer umas compras quando demos com ele num monte de outros da mesma espécie. Escolhemos-lo porque nos pareceu que o seu sorriso era ligeiramente diferente, talvez fosse exactamente igual aos dos outros, mas para nós era único.

 

Colocámos-lo no carrinho, brincámos um pouco com ele, fizemos algumas piadas, até que o cara metade disse que se calhar não valia a pena levá-lo, já tínhamos tanta coisa em casa. Bati o pé, dali não saia sem ele. Tinha-o escolhido, ou talvez fosse ele que nos tinha escolhido a nós. Na realidade, sei-o agora, tínhamos-nos escolhidos mutuamente.

 

Precisávamos de um nome, sem um nome seria apenas mais um peluche sem identidade. José ficou, e nesse dia o macaco José entrou nas nossas vidas para nunca mais sair delas.

Ao princípio as pessoas acharam que estávamos a ficar loucos, esquizofrénicos talvez, porque o José começou a ir connosco para todo o lado. Falávamos com ele e consoante o papá que lhe emprestava a voz assim era a sua personalidade. Comigo tinha um tom mais doce, com o cara metade os palavrões fluíam mais facilmente (algo que nunca achei correcto num macaco de tão tenra idade), mas algo transversal era a sua paixão por gelado de banana com raspas de chocolate.

 

A pessoa que lhe deu vida, numa fábrica bem longe de Portugal, talvez nunca tenha pensado quanto o José iria viajar durante a sua vida. Já esteve dentro duma mala cheia de queijos mal-cheirosos vinda de França. Encontrou-se com os seus semelhantes no Senegal. Passou a passagem de ano no Algarve. E até a minha mãe que desgostava do macaco no inicio (dizia que ele tenha uma expressão triste) quando no último dia da viagem à Índia ficou a repousar no hotel na companhia dele, confessou-nos depois que tinha ficado horas a falar com o José. E que tinha percebido que afinal ele tinha o maior sorriso do mundo. Deixou de lhe trincar as orelhas para nos chatear. Mas ainda fica irritada quando dizemos que ela é avó do José. Não sou avó de macacos reclama ela na brincadeira.

 

O José dorme connosco, senta-se no seu "cagadeiro" a ver-nos cozinhar (chamamos "cagadeiro" a um suporte de parede para sacos que temos) e quando vai à casa da avó fica à mesa connosco, apesar de reclamar sempre por não haver o tal gelado de banana e chocolate. Serve de nosso confidente, regozija com as nossas alegrias, é mestre de Kung Fu e dá-nos uma bela sova quando dizemos idiotices, faz de juiz quando temos alguma quezília e é o nosso elo de ligação quando estamos realmente chateados e nenhum quer dar o braço a torcer e fazer as pazes.

 

Se inundarmos o nosso nariz no pêlo do José há uma mescla de cheiros ligeiramente estranha. Muito provavelmente devido aos tais queijos mal-cheirosos. Já pensámos em lavá-lo mas não queremos correr o risco de algo errado acontecer e perdermos o José. 

 

Eu sei que há muitos mais macacos à venda no IKEA, mas os sentimentos que colocámos no José não são descartáveis.

 

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