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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

12
Jan18

Estaremos PrEParados?


A Profilaxia de Pré-exposição - ou PrEP para abreviar - da infecção por VIH no adulto, tornou-se com a Norma nº 025/2017 de 28/11/2017 uma realidade quase palpável em Portugal. E uma realidade legal, sem encomendas via Internet de produtos oriundos de outros países onde há poucas ou nenhumas certezas que aquilo que se está a tomar é aquilo que se pensa estar a comprar.

 

A PrEP, muito resumidamente, consiste na toma de terapêutica anti-retroviral por indivíduos seronegativos- a mesma que alguns indivíduos seropositivos tomam de forma a controlar a sua carga viral - de forma a impedir o contágio pelo vírus do HIV.

 

De momento, a Norma emitida pela Direcção Geral de Saúde, não dá livre acesso à utilização da PrEP. Apenas alguns grupos muito específicos irão ser abrangidos, como os trabalhadores do sexo, utilizadores de drogas injectadas, parceiros serodiscordantes em situação de preconcepção ou gravidez, indivíduos cujo parceiro está infectado por VIH mas não tem acompanhamento médico e não utiliza consistentemente preservativo, (...).

 

Visto levianamente, parece que encontrámos uma solução dourada para um dos maiores flagelos em termos de saúde pública das últimas décadas. Será possível erradicar a infecção do VIH através da profilaxia?

 

No entanto, existe sempre o reverso da medalha. E neste caso chama-se tenofovir disoproxil, uma das substâncias que se encontra na composição da PrEP.

 

O tenofovir, usado de forma continuada e prolongada, pode provocar o desenvolvimento de problemas a nível ósseo e renal.

 

O que significa que podemos manter os indivíduos livres do VIH mas há grandes chances de em 20, 30 anos assistirmos a um aumento dramático dos frequentadores de clínicas de hemodiálise.

 

Para os fervorosos defensores da PrEP, a utilização da mesma por parte dos trabalhadores do sexo é uma questão de saúde pública, já que vai evitar novas infecções.

 

Talvez aqui realmente se consiga travar um foco importante de infecção, já que muitas das campanhas de sensibilização junto deste grupo não surtiram os resultados pretendidos, pelo facto do preservativo ainda ser visto como um entrave a um desempenho laboral optimizado - não é incomum serem os clientes a exigirem que este não seja utilizado. É verdade que existe o preservativo feminino, mas nem todos os que se prostituem possuem uma vagina, e nem todos aqueles que o podem usar o sabem fazer da forma correcta - há relatos de preservativos femininos que ficaram colocados durante vários clientes, criando uma verdadeira sopa primitiva de infecções sexuais.

 

Porém, apesar de certamente haver quem fosse beneficiar desta profilaxia, os indivíduos deste grupo são maioritariamente pessoas de difícil adesão à terapêutica. Há alguns anos atrás fiz a dispensa da terapêutica anti-retroviral (TARV) a portadores de HIV - os que estavam envolvidos no mundo do sexo profissional eram sempre os mais complicados. Ou porque não tomavam a medicação todos os dias, ou porque dobravam tomas, ou porque apareciam no hospital um mês e depois desapareciam nos três a seguir.

 

A dispensa da PrEp a estes indivíduos, apesar de com as melhores intenções, pode ser infrutífera. Além que pode ocorrer outra situação - a venda no mercado paralelo, já que há quem a queira obter mas não esteja abrangido pela Norma.

 

A solução, pelo menos para evitar a possível venda ilegal, seria conceder de forma gratuita a todos a que a quisessem, como já acontece na Flórida?

 

Mas que custos isso teria para o Sistema Nacional de Saúde?

 

Imaginemos a seguinte situação. Temos um universo de 10 indivíduos, 1 deles está infectado com o vírus do HIV e 9 não. Se houver uma sensibilização perante todos os 10 sobre comportamentos de risco, sexo seguro, e o individuo seropositivo tiver a sua carga viral indetectável, temos uma situação controlada. O Estado paga uma caixa por mês de TARV e fica-se por aqui.

 

Agora se os 9 indivíduos seronegativos quiserem fazer PrEP? O Estado vai ter que pagar mensalmente 10 caixas de terapêutica anti-retroviral, apesar de apenas uma ser efectivamente para tratamento. E com mais indivíduos a fazerem TARV, aumenta a probabilidade das doenças ósseas e renais. E o Estado vai ter então entre mãos mais despesas - internamentos por fracturas, hemodiálises, (...).

 

Suponhamos agora que o Estado está cheio de dinheiro, e o montante disponível para a saúde é absurdamente alto. Quantas gerações é que teriam de tomar a PrEP de forma a conseguirmos erradicar o vírus? Uma? Duas? Três? Teoricamente chegaria a uma altura, em que se toda a gente tomasse, quando os indivíduos portadores do vírus falecessem, já não haveria nenhum canal de transmissão. Isto claro se o país fosse estanque. Se ninguém entrasse e ninguém saísse. Aí sim, podíamos ter sacrificado muitos ossos e muitos rins mas tínhamos a certeza que iríamos vencer a luta contra o HIV. Só que existe uma coisa chamada fluxos migratórios. E se os outros países, de todo o mundo, não fizerem o mesmo significa o quê? Que vamos estar a tomar comprimidos geração após geração, ad aeternum?

 

Outro cenário. O Estado está com os cofres a transbordar de euros e chega-se à conclusão que não há problema nenhum em tomar a PrEP durante décadas, até se descobriu uma nova substância que não tem efeitos secundários. 

 

Aqui estávamos perante algo quase utópico, mas aparentemente perfeito.

 

Só que e as outras doenças sexualmente transmissíveis? Não contam?

 

De há uns anos para cá as campanhas a apelar ao sexo seguro deixaram praticamente de existir. Aborda-se muito a questão do álcool e da condução, mas parece que a protecção sexual ficou esquecida num canto.

Será que foi pelo facto do HIV se ter tornado numa doença crónica - mas nem por isso menos estigmatizada - graças ao desenvolvimento de fármacos mais eficazes e menos tóxicos? Achou-se que já não era então preciso apostar nas campanhas de sensibilização?

 

Espanha debate-se com um aumento assustador do número de casos de sífilis. Em Inglaterra as farmácias foram englobadas numa rede de detecção de infecções por clamídia, uma infecção silenciosa que causa infertilidade feminina. 

 

Não é apenas o HIV que mata, que faz dano, que muda vidas. 

 

A PrEP não pode nem nunca poderá ser vista como um comprimido mágico que automaticamente nos faz atirar as responsabilidades para trás das costas. Que haja liberdade sexual, que se quebrem tabus e falsos moralismos, mas que haja consciência em defender a nossa integridade física e a dos nossos parceiros.

 

Que não seja uma nova pílula do dia seguinte, que apesar de ser um instrumento valiosíssimo em casos pontuais de imprevistos, ainda é usada por muitos como um banalíssimo método anti-conceptivo. Quantos não a compram mesmo antes de terem tido a relação sexual desprotegida - e o desconhecimento sobre efeitos adversos devido à toma recorrente da mesma continua a reinar, já que é tão fácil ir ao supermercado comprar uma.

 

Apesar da PrEP já ser quase uma realidade em Portugal ainda há muitas coisas que não se sabem, por exemplo, como é que vai ser distribuída, se a nível hospitalar ou da farmácia comunitária.

 

Seja o futuro como ele for, só espero que a indústria farmacêutica não encare a PrEP como uma nova galinha dos ovos de ouro. E que tenha em consideração os melhores interesses das pessoas, e não as veja apenas como uma forma fácil de ganhar dinheiro!

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