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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

04
Set17

Rapaz com Metal no Pescoço


Triptofano!

[havia humidade naquela parede]

 

 

Naquele dia eu era uma amálgama de sonhos e escoriações.

 

 

Tens um relógio muito bonito.

 

Qualquer que fosse o relógio que tivesse iria ser muito bonito. Qualquer que fosse o casaco, o corte de cabelo, o sorriso, o tom pálido da pele, o desapontamento expresso no olhar, haveria de ser sempre muito bonito.

 

Tens um relógio muito bonito.

 

Nem sabia porque usava relógio. Um relógio apenas nos mostra os segundos de vida que perdemos, os minutos que pensamos usar com sabedoria, as horas em que nos remetemos à ilusão de sermos algo útil nesta existência.

 

Será que existimos perante os olhos de quem não nos conhece.

 

O futuro não precisava de ponteiros sonolentos de relógios. Ia chegar independentemente de nós chegarmos ou não a ele.

 

Gosto dos pêlos nos teus braços.

 

Os homens mais velhos eram assim. Gostavam sempre de algo, dos pêlos dos braços, do comprimento do pescoço, do sujo amarelo dos dentes, do cabelo oleoso que pingava, havia sempre algo de que gostavam.

 

As pessoas que se acomodam incomodam-me.

 

Aos homens mais velhos incomoda-lhes andarem com outros da mesma idade. É-lhes estranho ver um corpo igual ao deles, os mesmos defeitos, as mesmas marcas do tempo, a mesma realidade a que tentam fugir. É como se se observassem a um espelho impossível de quebrar, um reflexo multiplicado em cada esgar, em cada orgasmo, em cada manifestação sonora de prazer. Uma realidade espelhada e multiplicada que se entranha, que faz encarar a realidade de frente, os mesmos defeitos, as mesmas marcas do tempo a que tentam fugir.

 

Não se confia num rapaz com metal no pescoço.

 

Os homens mais velhos não se acomodam. Não se acomodam ao corpo, à idade, à maturidade, à realidade. Procuram outros corpos que sejam um passado deles próprios para se acomodarem a um lugar ocupado na cama, a um beijo todas as manhãs, a um passado reflectido no futuro.

 

Não se confia num rapaz com metal no pescoço.

 

As pessoas que se acomodam incomodam-me.

 

No primeiro encontro os homens mais velhos ainda não se acomodaram a mim. Ainda não procuram o espaço vazio que o meu corpo deixou na sua cama, o vácuo do beijo que não lhes dei de manhã. Ainda não acordam a meio da noite excitados masturbando-se a pensar no passado reflectido nos seus futuros.

No primeiro encontro são donos de si próprios, donos das suas roupas, do seu carro, da sua casa. Mostram-me tudo com a voracidade de quem atingiu o que queria atingir, mostram-me tudo como se quisessem dizer que não precisam de mim, que sou acessório de um capricho, mais uma peça de colecção indistinta.

 

Os homens mais velhos são todos velhos

 

No primeiro encontro não colocam música a tocar para abafar o vazio da paixão acostumada, não correm para o calor da cama para fazerem sexo debaixo dos lençóis porque no corredor faz muito frio, não se sentam no sofá a mostrar-me as fotos da família, das viagens, da ex-mulher.

 

Não gosto das mulheres

 

Não gosto dos homens

 

Da primeira vez exploram-me a boca com as suas línguas ávidas e pontiagudas, remexendo em cada canto, sugando-me toda a minha existência para darem consistência à deles. Não se importam com o frio do chão do corredor, com o desconforto da alcatifa da sala. Remexem-me o corpo com mãos agitadas, tocando em cada recanto, ávidas de consumação. Sentam-me no seu colo para sentir a rigidez do seu pénis, para me provocarem o calor das minhas coxas, puxando-me o cabelo em direcção às suas bocas, aos seus mamilos, aos seus umbigos. Escorrem-me o corpo com as mãos ávidas,

 

Não se confia num rapaz com metal no pescoço.

 

surpreendem-se com algo que não era suposto estar ali. Uma das bolas do meu piercing ressalta pelo chão. Paro o frenesim daqueles corpos que se roçam no meu, e procuro na imensidão solitária da alcatifa aquela parte de metal que se soltou de mim.

Os homens mais velhos são solícitos, procuram comigo, vão buscar algodão e álcool para me desinfectarem os pedaços incompletos de mim, tornam-me uno de novo. Ficam fascinados por me terem ali tão diferente dos rapazes mais novos a que se acomodaram a ter, todos um reflexo uns dos outros e todos eles um reflexo do passado projectado no futuro dos homens mais velhos.

Puxam-me outra vez para eles, evitam-me o pescoço, ainda não estão acostumados

Àquela parte de mim que se solta

 

Os homens mais velhos são todos velhos

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