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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

30
Set17

Projecto Casa Assombrada - O Internato


AVISO

O seguinte post está carregado de spoilers!

 

 

Porque é que insistem em cultivar ossos se nada nasce a partir deles?

 

Sexta-feira, onze da noite, algures em Sintra eu e mais cinco amigos entramos na casa onde decorre o mais recente projecto do Teatro Reflexo - O Internato.

 

Ao contrário da Casa Assombrada de Belas, onde o susto era rei e senhor, no Internato o objectivo é vivermos o medo. Descobrirmos que o medo não é apenas a ausência de luz ou a presença de barulhos esquisitos, são ideias, palavras, construções semânticas que o nosso cérebro transforma em aflições.

 

A experiência em si foi  positiva, porém longe de ser perfeita ou de ir totalmente ao encontro com as expectativas que eu tinha - quiçá o problema foi ter ido com demasiadas expectativas.

 

Os actores eram brilhantes, vestiram estupendamente os seus papéis e houve uma altura - aquando o encontro com os jovens rebeldes que iam explorar o Internato onde várias mulheres ao longo dos anos tinham sido mortas sempre com 17 facadas - que fiquei na dúvida se estava perante actores ou eram mesmo pessoas que tinham invadido o edifício sem a organização dar conta.

 

Os três momentos que destaco nesta experiência foram

 

~ A sala do Bingo ~

 

Marcado pela performance incrível da mulher de cadeira de rodas e boca ao lado, que com voz engasgada por saliva acumulada ditava os números do bingo para as outras personagens marcarem com feijões. Quando achamos que nada vai acontecer as luzes desligam-se, ela salta da cadeira, revela um fato justo prateado e qual acrobata salta por cima das cadeiras e bancadas enquanto bate nos armários mesmo ao lado dos nossos ouvidos e vocifera sílabas com voz satânica. Excepcional.

 

~ O jogo das escondidas ~

 

A meio da experiência ouve-se uma sineta e uma voz começa a contar. É altura do jogo das escondidas, onde devemos escolher um lugar para nos ocultarmos do cara de medo; se ele nos encontrar é o nosso fim. Encolhi-me debaixo de uma mesa, e há muito tempo que não me sentia tão aterrado. A pessoa sabe que é tudo encenação mas pensar que existe alguém à nossa procura que não sabemos o que nos irá fazer é assustador. Com um olho meio aberto e outro meio fechado vi uns pés que afastavam as cortinas da sala onde estava. Felizmente para mim não fui descoberto.

 

~ O quarto 17 ~

 

Onde vive o cara de medo. E onde se entende que o medo não é algo palpável, é muitas vezes uma construção neuronal. Quando aquela personagem se aproximou da minha cara, roçou a pele dele na minha, tocou com os seus lábios nos meus, verdadeiramente senti que a morte e o desespero invadiam todos os meus poros. Aliado ao cheiro inexplicável que apenas consigo classificar como caixão putrefacto pelo tempo e com os sussurros ao ouvido que me perguntavam como seria ver a pessoa que mais amava a decompor-se lentamente, este foi o momento mais impactante para mim. Ainda por cima o cara metade não quis vir e eu só pensava como seria ver a carne dele ser comida pelos vermes enquanto os ossos se quebravam em fragmentos pela acção do tempo. Tenebroso.

 

Agora porque é que a minha experiência não foi tão marcante como eu gostaria?

Primeiro a quantidade de pessoas que cada sessão leva é talvez exagerada. Ou as pessoas que calharam na minha sessão não eram as mais adequadas, muito conversadoras, não respeitavam os momentos dos outros, houve até a infeliz notícia que pela primeira vez neste espectáculo uma actriz foi agredida - de lamentar profundamente tal acção.

Mas tudo isto não é culpa da companhia, apenas menos boa sorte minha.

 

O que o Teatro Reflexo poderia melhorar era sim o fio condutor da história. Estarmos a subir e descer de um andar para o outro com escadas externas faz perder bastante tempo.

Isto tendo em conta que não há nenhum caminho intuitivo para seguir.

Começamos numa sala ao calhas, depois vamos para outra se não estiver ocupada, se está muita gente vamos para o andar de baixo, vemos duas ou três salas, voltamos a subir, enfim, a meu ver acaba-se por perder um pouco o ritmo e a atmosfera de medo.

O contacto com o exterior devia ser inexistente - compreendo que a logística do local possa não o permitir - e devia haver uma ordem na visita. Nem que se fizesse entradas de grupos mais pequenos de 10 em 10 minutos. Ou que se pagasse mais mas a visita fosse mais densa, que estivéssemos sempre em contacto com a história, que entrassem dentro do nosso cérebro e nos fizessem gritar com medo de sermos asfixiados pelos nossos próprios pensamentos.

 

Em suma, gostei da experiência mas num futuro preferia até pagar um pouco mais para ter algo mais exclusivo e que realmente desse um abalo maior aos meus alicerces.

Porque todos nós precisamos de vez em quando dum terramoto interior!

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