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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

17
Ago17

Princesas com bebés às costas


Triptofano!

Há quase oito anos atrás realizei um dos maiores sonhos da minha vida. Fazer voluntariado em África. Quando a oportunidade surgiu deixei tudo e parti. Despedi-me mas na altura o mercado de trabalho ainda não estava saturado, vivia com os meus pais e não tinha nenhuma obrigação financeira. Não havia o medo do amanhã que hoje está mais presente.

 

Parti para o Uganda, país que antes nunca tinha sequer ouvido falar, mas que rapidamente descobri estar ainda a viver os pesadelos de um conflito armado que tinha como principal sadismo usar crianças soldado raptadas das suas casas a meio da noite. O governo incapaz de proteger todas os povoados da crueldade do ser humano criou campos de deslocados, mas infelizmente com condições sanitárias mínimas, o que levou a que muitos padecessem de doenças que podiam ser evitadas com uma barra de sabão, umas pastilhas para purificar água ou uma rede mosquiteira.

 

Lembro-me de que quando cheguei ao país era suposto estar alguém à minha espera. Mas naquele noite mais escura que a pele das pessoas não havia ninguém com um cartaz com o meu nome. Confuso no meio de tantos braços que me tentavam puxar para o pé de si duvidei se tinha tomado a decisão mais correcta ao ter vindo. Foi a única vez que me questionei sobre tal, porque a partir do momento em que a minha boleia chegou esbaforida dez minutos depois percebi que fazia todo o sentir estar ali.

 

Levaram-me a mim e a mais três voluntários para uma povoação no norte do país, perto da fronteira com o Sudão, onde as únicas pessoas brancas éramos nós e as figuras religiosas pintadas na parede da igreja local. Pelo ar surpreendidos das crianças ao nos verem tive quase a certeza que elas se questionavam se éramos anjos vindos do céu! 

 

A adaptação não foi fácil no início mas percebi que o ser humano consegue ajustar-se a qualquer situação. Passei dois meses a fazer as minhas necessidades agachado numa latrina, a ir buscar água a um poço para poder tomar banho às cinco da manhã porque se fosse mais tarde era comido pelas moscas da latrina adjacente, a viver sem a presença diária da televisão, da internet ou do telemóvel. A comer areia devido ao facto de a usarem aquando a moagem dos grãos de milho cuja farinha era a base da alimentação que tínhamos.

 

Mas percebi porque é que as pessoas falam com tantas saudades de África. Porque também eu fiquei com saudades do cheiro da terra molhada, dos risos abertos das pessoas, da vida simples e sem futilidades que levam. Percebi que para ser feliz preciso apenas de ser eu próprio, não de ter milhares de coisas que só me dão um conforto temporário. Vivi com muito pouco e esse muito pouco ainda me pareceu demasiado.

 

Fui para ajudar no que podia. Ensinaram-me a limpar feridas, aprendi um pouco da linguagem local para poder dar algumas informações sobre medicamentos, fiz trabalho de secretariado. Podia não saber fazer muito mas senti-me útil e as pessoas a quem espero ter conseguido ajudar olhavam-me com gratidão.

 

Mas o que me tocou mais foram as crianças. Pequenas guerreiras com um sorriso sempre presente. Mesmo quando vinham com queimaduras gigantes resultantes duma queda no fogo aguentavam estoicamente os tratamentos. Tive a certeza que se fosse comigo teria que gritar, chorar, mas elas com toda a força do seu ser mantinham-se serenas. 

 

Foi no Uganda que vi pela primeira vez princesas com bebés às costas. Aparentemente é costume países como o Canadá mandarem todos os anos quantidades enormes de roupas doadas para as populações de alguns países africanos. E muitas das crianças daquela região tinham recebido vestidos de princesas que envergavam com graciosidade ao mesmo tempo que encaixavam nas suas costas os irmãos mais novos! No primeiro dia que vi aquelas princesas de palmo e meio não consegui conter uma lágrima porque a graciosidade das vestes contrastava com a vida dura que aquelas crianças tinham, mas sempre com um sorriso no rosto.

 

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Ainda hoje me lembro com saudades do tempo que o Uganda carimbou em mim e ainda hoje as pessoas dizem que eu fui algo irresponsável. Na altura a homossexualidade era punida com a pena de morte e muitos achavam que não era másculo o suficiente para passar despercebido. Mas eu nunca deixei que os outros pudessem condicionar a vida que eu sempre quis ter!

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