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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

28
Ago17

Pequeno-almoço fora da cama


Sete da manhã.

 

O despertador toca arrancando-me do resquício de um qualquer sonho abstracto. Viro-me na cama e procuro entre o emaranhado de almofadas e lençóis os contornos do cara metade. Apenas encontro a memória do calor do seu corpo. Algures na minha mente entoa a recordação de que ele ia entrar ao serviço mais cedo do que eu. Maldito trabalho que nos roubava tempo fora da cama e nem nela permitia que nos reuníssemos.

 

Levantei-me e com os olhos ainda pesados desloquei-me até à sala. Ao entrar fui imediato brindado com uma orquestra de guinchos vinda das porquinhas, alegres por me ver ou talvez apenas desejosas de serem alimentadas. Ignorei-as e vi o Macaco José sentado no sofá. Ia jurar que o tinha levado comigo para a cama mas ali estava ele, um jovem macaco com um preocupante vício em séries do Netflix.

 

Ouvi barulho vindo da cozinha. Arrastei-me até lá e pela frincha da porta vi o cara metade vestido para sair manuseando com a sua habitual destreza uma faca de cerâmica. Cortava uma mão cheia de morangos num formato que não consegui perceber de imediato, pareciam estrelas - eram de certeza estrelas!

 

No meu rosto estampou-se um sorriso. Além de ainda estar em casa estava a preparar-me um pequeno almoço surpresa. Quis voltar para o quarto, afinal se não estivesse na cama a surpresa não iria ter tanto sabor, mas o meu corpo estava como petrificado seguindo-lhe os movimentos. Atacava agora um tomate, cortando-o em sumarentos gomos. O coração bateu-me mais forte, ele estava a preparar-me um daqueles pequenos almoços de hotel que eu tanto adoro, especialmente a combinação de tomate com pimento.

 

Como se tivesse ouvido o meu pensamento cortava agora em rodelas precisas um belíssimo pimento verde. Rapidamente terminou a tarefa e após uma rápida lavagem começou a cortar em palitos um par de cenouras. Torci o nariz, ele sabia que eu adorava snacks crudívoros mas habitualmente fazia questão de tirar a casca. Talvez tivesse lido algum artigo sobre mais um benefício escondido na casca da cenoura e não quisesse que eu fosse privado dele.

 

Esta divagação fez-me só perceber que ele se dirigia para o frigorífico quando já abria a porta. O que iria buscar? Talvez um fenomenal sumo de laranja acabado de fazer. Mas nas suas mãos apareceu uma couve enorme, à qual ele tirou três grandes folhas e após passar por água começou a esfarrapar com movimentos secos. Senti o meu estômago a contorcer-se. Um sumo verde. De certeza que ele me ia fazer um sumo verde, e por mais corajoso que fosse eu naquele momento queria a acompanhar as verduras uma bola de Berlim carregada de açúcar, uma torrada barrada múltiplas vezes com manteiga salgada, um bagel de salmão fumado a escorrer queijo creme. Não consegui controlar um reflexo de vómito e da minha boca saiu um som característico.

 

O cara metade parou e olhou para a porta.

Tinha-me denunciado.

Abriu-a e ao ver-me sorriu e deu-me um beijo.

 

Desculpa por ter estragado a surpresa - disse eu com um sorriso envergonhado.

 

Que surpresa? - nos olhos dele havia um brilho de dúvida - Desculpa mas já estou atrasado! Não te importas de dar o pequeno-almoço que preparei às meninas? E não te esqueças de comer algo também.

 

Deu-me outro beijo, pegou nas chaves e saiu.

Fiquei imóvel no meio da cozinha a ouvir o ranger do elevador afastando-se cada vez mais.

Levei um pedaço de morango-estrela à boca, na tentativa de camuflar o amargo que a inundava.

 

Se não me ponho a pau aquelas porcas roubam-me o marido!

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