Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

07
Fev18

Nota-se no meu rosto?


Para terminar o curso que frequentei na universidade é obrigatório fazermos seis meses de estágio, que podem ser divididos em seis meses em farmácia comunitária, ou quatro meses nesta e dois em farmácia hospitalar.

 

De forma a poder ter o máximo de experiência que me pudesse preparar para o mercado de trabalho resolvi experimentar as duas áreas, sendo que fiquei colocado na farmácia hospitalar da Maternidade Alfredo da Costa.

 

Foram dois meses muito enriquecedores, tendo aprendido como é que se preparam bolsas de alimentação parentérica, feitos rondas pelos serviços de neonatologia, dispensado medicamentos para o tratamento do cancro da mama e tendo entrado em contacto com a realidade da interrupção voluntária da gravidez.

 

Mas o que me custou mais foi a questão do HIV na gravidez.

 

A todas as mulheres grávidas é solicitado a realização de um teste para o conhecimento do seu estado serológico. No caso de ser positivo é imperativo começar a fazer tratamento imediatamente de forma a impedir a passagem do vírus para o feto, o que felizmente tem uma percentagem altíssima de sucesso, sendo que o risco de infecção mãe-filho é maior durante o parto em si, optando-se muitas vezes pela realização de cesariana ao invés do parto vaginal, de forma a diminuir esse risco.

 

Só que eu não estava preparado para lidar com esta situação. Não me prepararam na faculdade, e ali no hospital fiz apenas um atendimento acompanhado a uma grávida que já estava a ser seguida há alguns meses.

 

Foi por isso um choque quando me deixaram sozinho e disseram que tinha de receber uma gestante que ia levantar a sua medicação anti-retroviral.

 

Pensei que por mais inseguro que estivesse que acabaria por ser um atendimento relativamente fácil, a senhora já estaria dentro do assunto e acabaria apenas por ter de reforçar a adesão à terapêutica.

 

Mas não.

 

Aquela mulher que recebi naquele espaço impessoal manchado de tristezas tinha acabado de saber que era portadora de um vírus que nunca lhe tinha sido apresentado.

 

Senti o seu desespero, a sua ansiedade, o seu olhar que fugia por todos os cantos e evitava o meu.

 

A minha voz tremia-me porque inconscientemente estava a absorver todo o cataclismo sentimental que aquele ser humano sentado à minha frente transbordava.

 

Expliquei-lhe como era o tratamento, a importância de o fazer de forma correcta e os riscos que traria para ela e para o bebé se não o fizesse.

 

Não sei se reteve alguma das palavras que disse. 

 

Fitou-me.

 

Um olhar para além de triste.

 

Vai-se notar no meu rosto?

 

Fui apanhado de surpresa com a pergunta.

Ela voltou a insistir, se se ia notar no rosto dela, se as pessoas iam perceber que tinha a doença apenas por olharem para a sua face.

 

Assegurei-lhe que não, que a medicação tinha evoluído bastante, que apenas os antigos fármacos é que causavam alterações na fisionomia da face do doente.

 

Podia ter terminado a conversa por aqui.

 

Mas perguntei-lhe do que é que ela tinha medo, se receava a opinião de alguém caso soubesse.

 

Estou casada pela segunda vez - disse-me. Provavelmente apanhei a doença do meu primeiro marido, e se o meu companheiro actual descobre expulsa-me de casa e eu não tenho como sobreviver. Vou acabar a viver debaixo da ponte...

 

As palavras dela bateram-me de frente.

Por um lado sabia que era injusto outra pessoa estar a ser mantida na ignorância e a correr o risco de ser infectada por uma doença miserável, caso já não o tivesse sido.

Por outro era impossível não sentir o sofrimento daquela mulher, não compreender o desespero da sua atitude, não fechar os olhos à sua decisão egoísta.

 

A dualidade de sentimentos invadiu-me. Não soube mais o que lhe dizer. O silêncio que se criou entre nós os dois era palpável de tão denso que era.

 

Naquele instante soube que aquela conversa iria perseguir-me por muitos anos.

 

E sei que ela se apercebeu de tal. Notava-se no meu rosto.

21 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Follow

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D