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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

07
Set17

Memórias do Passado #1


Laos. Ano indeterminado. Algures entre 2011 e 2014. Confundo sempre as datas, as memórias estão lá mas não as consigo ordenar cronologicamente.

 

Viajei sozinho para a terra da meditação, ou pelo menos é assim que eu a sinto, dada a tranquilidade que emana de cada esquina e pelo número impressionante de monges que encontro a cada passo que dou.

 

Bebo um refresco de fruta feito numa velha liquidificadora numa banca de rua enquanto penso que talvez devesse deixar de ser saudável e apenas pedir o pecaminoso batido de oreo. Olho para as t-shirt estampadas com imagens de budas e pergunto o preço. Avisam-me que os tamanhos ali são diferentes, que o L que tenho na mão é demasiado pequeno, preciso dum XL, uma forma subtil de me chamar anafado. Experimento o L na mesma e percebo que os batidos de bolacha de chocolate precisam de ser eliminados da minha dieta.

 

Cruzo o olhar com outra viajante solitária que me sorri. Lembro-me dela na camioneta que nos trouxe aos solavancos até aquela pequena cidade. Trocamos um par de frases em inglês, descobrimos os planos um do outro, que basicamente se traduzem em não ter planos. Naquele país todos vivem calmamente, em busca do Nirvana, e a paz de espírito é palpável.

 

Conto-lhe que tinha lido algures sobre uma escola de elefantes, que gostaria de a visitar - afinal sempre tenho planos. Ela oferece-se para ir comigo, viajar sozinho é bom mas ter uma companhia também é uma experiência agradável.

 

Na escola recebem-nos com sorrisos. Descubro que tenho os músculos do rosto doridos de tanto sorrir desde que entrei em contacto com aquele povo. E fico feliz por isso.

Antes de nos levarem até aos elefantes ensinam-nos as palavras de comando. Frente, trás, esquerda, direita, parar, avançar! O meu cérebro capta metade das ordens, se depender de mim o meu elefante só vai saber andar para a frente e para a esquerda, estou tramado!

 

Chega a altura de conhecer os tão aguardados mamíferos. Como sou homem fico com o maior. Será que não sabem o que é igualdade de género? O elefante dobra o joelho e convida-me para subir para cima dele. Dizem-me para trepar agarrando-me à orelha. Impossível. Fico a meio caminho sentindo-me completamente inútil. No meio de risos os guias lá me ajudam empurrando-me pelo rabo até chegar ao topo do elefante. Sinto a minha dignidade ligeiramente beliscada.

 

O guia trepa agilmente para trás de mim. Agarra-se e diz-me que sou o responsável pela vida dele. Se já estava nervoso pior fico. Estou sentado directamente em cima do pescoço do animal, não há cá banquinhos nem coisa alguma onde me possa agarrar. O segredo é prender as pernas como posso à volta do pescoço do elefante e rezar para não cair. Pergunto se alguma vez alguém já tinha tido um acidente. Num sorriso o meu guia responde-me que sim, um turista uma vez caiu e foi preciso levarem-no de helicóptero para um hospital na Tailândia. Animador!

 

A marcha começa. Dou graças a Deus por ter umas pernas tão robustas devido a tantos anos de ginástica de trampolins. O elefante anda num passo vagaroso. Descontraio e passo a mão pela pele da sua cabeça, tão grossa e rugosa, povoada de pêlos mais resistentes do que os de qualquer vassoura existente. O meu guia tagarela comigo e faz-me um chapéu a partir de uma enorme folha de uma árvore que desconheço. Todo eu sou felicidade.

 

Sem aviso o elefante começa a andar mais depressa. Prendo novamente as pernas e todo eu tremo com o susto. Apetece-me dizer "Para!" mas não me lembro da palavra. O guia ri-se animado. Eu desejo ter um calmante no bolso. Relaxo, mesmo sem calmante, e começo a perceber melhor o ritmo do meu companheiro de caminhada. Pergunto se os elefantes são bem tratados. O guia deixa-se de rir e olha-me seriamente. Diz-me que aqueles animais são como família, que são protegidos dos ataques dos caçadores furtivos e que os passeios que proporcionam aos turistas são uma forma de angariar dinheiro de forma a poderem continuar a sustentar o projecto, que poucos ou nenhuns apoios recebe do Estado. Esclarecem-me que as correntes que possuem à volta do pescoço são para os prender durante a noite, para a própria segurança deles - acredito verdadeiramente que não me estão a dizer mentiras!

 

Olho para aquele animal majestoso e não consigo compreender como alguém pode sequer pensar em fazer-lhe dano. Nunca irei compreender o ser humano mas só desejo que aquele elefante viva feliz durante anos, respeitado e bem tratado.

Laos 2.jpg

 

Sou sacudido do meu pensamento por uma súbita curva à direita. Vejo um rio. Informam-me que os elefantes estão cansados e precisam de beber água!

Acredito na mentira até ao momento em que metade do animal está dentro do curso de água. Ao som dos comandos estridentes dos tratadores os elefantes enchem as trombas e deixam-me a mim e à minha colega de viagem totalmente ensopados. Olho para ela e vejo um sorriso igual ao meu estampado no seu rosto.

 

Quem diria que uma água tão turva poderia ser tão purificadora!

 

Laos1.jpg

 

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