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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

13
Out17

Highway


Tenho que confessar que fiquei felicíssimo pela adesão que o desafio O Leitor Decide teve, já que ultrapassou em muito as minhas expectativas. Só mostra que vocês que dedicam parte do vosso tempo a visitar o meu cantinho são assim espectaculares.

 

A foto vencedora com a grande maioria dos votos foi a número 2, onde podem visualizar a minha pessoa empoleirada numa vedação de metal, totalmente consciente de que se caísse ia perfurar pelo menos um rim, e o meu coordenador de projecto a vibrar com a minha performance agarrado ao varão.

 

Escolha n 2.jpg

 

Como vocês decidiram vou então partilhar a história por detrás deste registo fotográfico.

 

Já devem ter imaginado que esta foto foi tirada no Uganda.

No dia seguinte iríamos deixar a povoação onde tínhamos vivido quase dois meses para fazer uma pequena viagem pelo país antes de regressarmos aos nossos lares geográficos; por isso, eu e os restantes voluntários decidimos que nesse último dia deveríamos fazer uma festa de dimensões épicas para assinalar a nossa passagem por aquela região e também para celebrar todo o trabalho que tínhamos desenvolvido durante o nosso voluntariado.

 

Um dos locais que trabalhava connosco como tradutor teve a amabilidade de nos ceder um espaço que tinha a funcionar como bar para a nossa festa. O rapaz a quem todas as manhãs íamos buscar fritos para o pequeno-almoço (sim, foram tempos extremamente saudáveis) ficou encarregue de nos preparar frangos no churrasco.

Por isso já tínhamos local, já havia comida, só faltava a bebida.

 

Alguém nos disse que a uns kms de onde estávamos havia um local, chamado de Highway, assim a atirar para o ilegal, onde poderíamos obter álcool de fermentação caseira. Obviamente que se em Portugal nos propusessem ir a um local manhoso com pessoas que nunca tínhamos visto em lado nenhum buscar álcool fermentado sabe-se lá como nós mandávamos a pessoa dar uma curva. Como estávamos no Uganda alegremente entrámos no jipe, pegámos num saco de garrafas de água vazias, e fomos rumo à Highway.

 

Quando chegamos à fábrica ilegal de álcool, que não era mais que uma cabana de dimensões bastante modestas, percebemos que além de entreposto comercial também servia como espaço de degustação.

A nossa ideia era chegar, comprar e toca a andar, mas obviamente que a ideia de quem nos recebeu era totalmente diferente. Fomos sentados numa salinha, cheia de pessoas ligeiramente alcoolizadas, e deram-nas a beber o produto da casa - forte!!!

Tudo teria corrido pacificamente se um dos convivas não tivesse reparado na máquina fotográfica que levávamos connosco. Provavelmente ficámos sem exageros uma hora a tirar fotos uns dos outros, em todas as posições possíveis e imaginárias, até que de repente, uma das mulheres, com um gesto assim vagaroso, pega na blusa e faz questão de a tirar.

Nesse momento tremi, pensei que pronto as coisas iam descambar e íamos-nos envolver numa orgia sexual multi-étnica e eu sem a depilação feita, mas felizmente a jovem tinha outra blusa por baixo - afinal deveria ser a sessão fotográfica que lhe estava a fazer calor.

 

 

help.jpg

 

 

Depois de muito esforço fomos finalmente adquirir a bebida caseira que nos foi vertida nas garrafas de plástico que levávamos - já nos tinham avisado que era assim o procedimento. 

 

E o preço? Para terem a noção, convertido para euros, cada garrafa de litro e meio de bebida custou-nos aproximadamente vinte cêntimos. E como levávamos dez garrafas ainda nos ofereceram duas de graça. Um bom negócio atrevo-me a dizer.

 

A nossa sorte foi que nenhum de nós tinha lido a notícia que saíra dias antes sobre as bebidas caseiras feitas no Uganda - aparentemente tinham sido identificados alguns casos de cegueira permanente causada pela ingestão das mesmas....

 

barris de bebida.jpg

 

Com as bebidas bem instaladas no jipe fomos em direcção ao último local que precisávamos de visitar antes da grande festa - a casa do alfaiate.

Uma semana antes, quando tínhamos pensado em fazer a celebração, achámos que seria muito mais interessante eternizá-la vestindo-nos com um traje típico do país. Só que parece que não há assim traje típico por aquelas bandas, ou pelo menos foi isso que nós compreendemos. Acabámos então por optar por umas vestes Nigerianas, que para a ocasião também funcionavam perfeitamente.

 

Roupas vestidas, adornos colocados, fomos a pé até ao local da festa.

Podem imaginar que a nossa cor de pele já nos diferenciava bastante dos restantes habitantes, agora aperaltados com trajes típicos africanos era virtualmente impossível alguém não reparar nas nossas pessoas.

 

A festa corria tranquilamente, o frango estava delicioso, a música tinha sido bem escolhida e aqui o vosso amigo Triptofano atacava com vontade uma caneca de bebida. Primeira caneca sem problemas, afinal tenho uma boa resistência ao álcool; segunda caneca, pronto confesso que não sei o que aconteceu, basicamente o meu cérebro entrou em piloto automático e todo o meu discernimento foi atirado para a sarjeta.

(In)Felizmente havia máquina fotográfica na festa por isso posso-vos mostrar o decorrer dos acontecimentos.

 

Aqui estou ainda mais ou menos estável.

 

inicio.jpg

 

Nesta altura já perdi qualquer vergonha que podia ter na cara.

 

Meio.jpg

 

 

Aqui estou mais que pronto para ir para casa.

 

FInal.jpg

 

 

Durante todo este processo foi tirada a foto que vocês escolheram - só que a história ainda não acabou.

Eu sei que o post está gigante mas é só mais um bocadinho, prometo.

 

Ora a certa altura comecei a dar conta de mim, olhei para o relógio e vi que eram duas da manhã, pelas minhas contas tinha entrado em estado couve por volta das onze, por isso havia um lapso de três horas na minha memória.

Olhei ao meu redor e vi os meus colegas a dançar em cima das mesas, felizmente éramos só nós, ou seja não havia grandes testemunhas do meu deplorável comportamento.

Até que olhei para a porta e vi umas vinte cabeças sorridentes de habitantes com os olhos cravados em nós. Basicamente as pessoas não entravam (afinal era uma festa quase privada) mas isso não as impedia de ver tudo.

Envergonhado puxei uma das raparigas do meu grupo e disse-lhe que estava cansado e queria ir para casa.

Ao que ela me respondeu que eu não podia estar cansado ao mesmo tempo que me prega um estaladão que me faz voar os óculos pela sala.

 

Aparentemente aquela festa era o derradeiro teste à capacidade de sobrevivência humana.

 

No dia seguinte, muito cedinho, estávamos ainda completamente ressacados, pegámos nas malas e fomos em direcção ao jipe.

O plano era abandonar a povoação e nunca mais ninguém ouvir falar de nós. Mas o destino é lixado, e quando estávamos todos prontos para arrancar a viatura não quis dar sinal de vida. Depois de muita insistência ligou-se para o mecânico que nos informou que só poderia resolver o problema no dia seguinte.

 

Agora visualizem o nosso Walk of Shame, enquanto percorríamos a povoação para comprar água e comida, com um ar de quem estava mais morto do que vivo, enquanto todos os habitantes se riam e apontavam para nós, debitando piadinhas sobre como éramos uns party animals e que os nossos movimentos de dança eram algo de transcendente.

 

dança.jpg

 

Foi nesse dia que aprendi que nunca devo fazer nada que não tenha a coragem de assumir, principalmente perante um grupo de Ugandeses risonhos.

 

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