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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

20
Set17

Doce Doce Doce


Quando dei a conhecer a minha decisão de última hora de viajar para S.Tomé e Príncipe várias pessoas disseram-me que tinha de levar doces para as crianças locais, era algo quase obrigatório de fazer porque o brilho nos olhos dos petizes era impagável.

 

Porém avisaram-me também para estar preparado para uma multidão em ponto pequeno a gritar Doce Doce Doce mal me vissem, com as mãos estendidas e os dentes batendo furiosamente na ânsia de mascarem uma pastilha Gorila. Fiquei ligeiramente preocupado porque o meu cérebro começou logo a imaginar hordas de crianças com baixos níveis de açúcar agarrando-me pelas pernas e exigindo-me rebuçados de mentol. Obviamente que nesta altura do campeonato já devia saber que quem conta um conto acrescenta um ponto, e que as coisas às vezes não são bem assim.

 

Fiquei renitente com a história de levar doces para os mais pequenos.

É agora que acham que eu sou uma pessoa com uma pedra no lugar do coração.

Mas desde que descobri que em Marrocos as crianças que pediam nas ruas eram alugadas para angariarem dinheiro para terceiros - e que o aluguer da criança era tanto mais caro quanto mais deficiência esta tivesse de forma a causar mais pena - jurei a mim mesmo que nunca mais daria dinheiro a uma criança.

 

Também no Senegal o guia me pediu para não dar dinheiro às crianças que davam flores aos turistas. Ganhando aquele dinheiro relativamente fácil os pais iriam colocar as crianças a dar flores todo o dia em vez de as mandarem à escola. O problema é que não se é pequeno e amoroso para sempre, e quando já não se consegue arrecadar dinheiro vindo dos turistas benevolentes vai-se fazer o quê?

 

É verdade que no caso das crianças de S.Tomé os doces são directamente para elas. E isso não irá afectar a sua ida à escola! No entanto resolvi na mesma não levar guloseimas algumas.

 

Quando cheguei ao Pestana São Tomé tive a certeza que a minha decisão tinha sido a mais acertada. Na secretária um pequeno documento pedia ao viajante que não oferecesse doces às crianças - em média as crianças de S.Tomé e Príncipe possuem 3 cáries dentárias e apenas uma minoria têm acesso a cuidados de saúde dentária! 

 

Provavelmente muitos estão a pensar que apenas um doce não vai fazer mal nenhum, e claro que não faz. Mas tal como nós muitas outras pessoas visitam estas maravilhosas ilhas e já imaginaram se cada turista oferecer uma gulodice a uma mesma criança?

 

Qual a solução então?

 

Oferecer coisas que sejam úteis para o desenvolvimento ou para a saúde dos mais pequenos. Lápis, canetas, blocos, escovas e pastas de dentes, tudo isto são coisas úteis e que deixam uma criança feliz.

 

No entanto o preferível é não dar directamente às crianças e sim a uma instituição que faça a distribuição consoante as maiores ou menores necessidades das mesmas.

 

A adopção desta prática evitaria outro problema que é o da doação aleatória, ou seja dar a uma criança apenas porque ela chegou primeiro, independentemente de ela ter mais ou menos necessidade que outras.

Além de que quando damos devemos ter a certeza que chega para todos os que ansiosamente tentam receber algo.

Já imaginaram o que eram estarem numa festa e um vosso filho ver todas as crianças a receber balões e quando chegasse a vez dele já não haver nenhum?

Agora visualizem visitarem uma roça onde funciona uma escola, e dezenas de crianças dirigirem-se para vocês para receberem algo que estão a distribuir, qual é o critério que vão usar na entrega? Quem tiver o ar mais giro? Quem esticar mais os braços?

 

Podem pensar que é um exagero da minha parte e que com este post pretendo dissuadir as pessoas de dar o que quer que seja, mas não. Somente gostaria que reflectíssemos nas consequências, positivas e negativas, de actos que para nós podem apenas estar cheios de boas intenções, mas que às vezes acarretam sérios problemas.

 

Só peço que se na mesma quiserem dar doces às crianças que se lembrem que nem os doces são pedaços de pão nem as crianças são pardais.

Atirar rebuçados em vez de os distribuir directamente na mão é basicamente deitarmos fora toda a humanidade que nos resta.

Choca-me mais ver certas atitudes dos turistas do que as condições singelas em que os locais vivem.

 

Apesar de todo o meu esforço de argumentação a minha mãe trouxe caramelos para distribuir pelas crianças.

Ontem encheu os bolsos decidida em trazê-los vazios.

Voltou espantada e um pouco desiludida.

Nenhuma criança lhe pediu Doce.

Apenas a brindaram com grandes sorrisos tímidos.

 

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