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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

02
Set17

Do outro lado da linha


Já não quero viver.

 

Infelizmente não consigo precisar quantas vezes ouvi esta frase, exactamente com estas palavras ou com outras similares.

 

Há cinco anos atrás resolvi dedicar parte do meu tempo a fazer algo que curiosamente me faz bastante confusão no meu dia-a-dia. Falar ao telefone! 

Mas esta era uma linha telefónica especial, porque do outro lado da conexão havia alguém triste, só, desesperado e muitas vezes no fim da linha.

 

Candidatei-me como voluntário à SOS VOZ AMIGA, "uma linha de apoio emocional que se disponibiliza a ajudar todos aqueles que se encontram em situações de sofrimento causadas pela solidão, ansiedade, depressão ou risco de suicídio". 

 

Quis ser parte do projecto porque também eu em certa parte da minha vida abracei o sofrimento, também eu achei que talvez já não houvesse estrada para caminhar. E percebi que às vezes basta uma palavra, um sorriso na voz para entendermos que não há apenas um trajecto, que nem sempre a ausência de sol nos impede de ver o futuro, muitas vezes é suficiente o luar.

 

Passei por várias fases de selecção, para compreenderem se eu tinha o perfil correcto para o trabalho e se o trabalho tinha o perfil correcto para mim. Tive que me despir em frente a estranhos, tal como muitos estranhos se desnudaram perante a receptividade dos meus ouvidos. Mas eles estavam escudados perante o anonimato; eu, sem máscaras nem refúgios, tive que mostrar quem era e quem nunca quis ter sido. Não foi fácil, mas não poderia ter sido doutra forma.

 

Iniciei-me na escuta - sim porque neste projecto o importante é escutar, o falar é secundário - com colegas voluntários mais experientes. Aprendi sobretudo o que deveria evitar fazer no decurso duma chamada. Dar conselhos, emitir juízos de valor, transmitir pena pela voz, nenhuma destas coisas faziam parte dum atendimento de excelência.

 

Após duas chamadas acompanhado iniciei-me ao telefone sozinho. E nunca senti solidão tão pesada em toda a minha vida. Apenas eu, num enorme apartamento antigo no centro de Lisboa, a fazer um horário compreendido entre as 20h e a Meia-Noite. Somente eu e o telefone, que não demorava muito tempo a tocar. Sempre que o aparelho dava sinais de haver alguém do outro lado da linha eu estremecia. Porque o barulho quebrava a solidão do meu silêncio. Porque eu nunca sabia o que estava do lado de lá.

 

SOS Voz Amiga Boa Noite. Era sempre assim que atendia o telefone. Não havia nomes, não existiam identidades. Eu era naquele momento apenas uma voz.

 

Cheguei a fazer 5 turnos numa semana. O horário da noite era o menos preenchido e havia sempre poucos voluntários para assegurar o bom funcionamento da linha. Entreguei-me à causa porque acreditei nela, porque sabia que aquela plataforma poderia realmente ajudar alguém.

 

Todas as segundas tínhamos reunião dos voluntários acompanhados por dois psicólogos que nos guiavam neste processo tão complicado que é ser fiel depositário da vida dos outros.

 

Foi numa destas reuniões que percebi que a maior parte dos que ligam não querem deixar de viver.

 

Simplesmente não querem continuar a viver da mesma forma.

 

Hoje ao recordar esta fase da minha vida lembro-me sempre dum telefonema que me marcou.

 

Uma senhora que ligou derrotada, a dizer que já não queria viver. Tentei com as ferramentas que me tinham dado mostrar-lhe que ela apenas queria viver de uma forma diferente daquela como vivia.

Respondeu-me que não havia outra forma, um dos filhos tinha morrido, o outro era toxicodependente, estava desempregada e era vítima de maus tratos pelo marido. Não existia outro caminho, outra solução. Fez-se silêncio. Não soube o que dizer. Do outro lado da linha as palavras também se esgotaram. A chamada desligou-se.

 

Olhei para o telefone mudo e chorei. De raiva de mim mesmo por não ter sabido dizer as palavras certas. De raiva com o mundo por ser tantas vezes um lugar tão ingrato.

 

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