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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

10
Jan18

Ainda não chegaste. E já tenho saudades tuas.


A fazer jus ao célebre “lá para o final do ano”, colocámos em marcha, 3 semanas antes do final de 2017, alguns dos projectos que tínhamos planeado mas que ainda não tinham saído da gaveta.

 

Um deles, o mais denso, estudado e trabalhado desse ano referia-se ao facto de termos um cão – o Pistáchio.

 

Manda o teorema geral da assertividade que nos debrucemos sobre uma lista de tarefas, mais ou menos independentes, para levarmos esse projecto a bom porto, digamos, pasito a pasito. Por mais curso de preparação para a paternidade que as nossas porquinhas já nos possam ter dado, ter um cão é substancialmente diferente e exige prioridades diferentes. E, claro, qual lista, qual quê… vamos rumo ao desconhecido, querer tratar de tudo ao mesmo tempo.

 

O ímpeto foi o de visitar a União Zoófila de Lisboa. Se dúvidas levava, com dúvidas saí. Na recepção, a cargo da senhora responsável, reinou a absoluta desproporcionalidade com a missão nobre que prosseguem, repetindo o mantra de que “Todos os cães estão de quarentena…”. Não raciocinei no imediato. Apesar de ser um projecto nosso há bastante tempo, julgavam-nos mais uns que queriam oferecer uma prenda de Natal de última hora.

 

Não tinha mesmo percebido. Fiz questão de ver os animais que tinham naquele momento para adopção. Se a rispidez da senhora que nos recebeu se afigurava um travão natural para os nossos objectivos, a doçura com que todos os cães nos receberam, recompensou. Sim, bem sei que recebem todos com a mesma doçura. É a forma que eles têm de pedir, com amor, uma melhor condição de vida.

 

Andei. Andei muito. Muitos ladrares. Muitas boxes. Muita inquietude, da parte deles e da minha. Pisei muito cocó. De todas as densidades. E no fim saí com a alma cheia, mas com o projecto mais ou menos penhorado. “Voltem lá para Fevereiro”, balbuciou a dita senhora, arrasando-me.

 

Fiquei durante dias a pensar no Sancho (o da fotografia abaixo, à esquerda). E em Fevereiro. E no Sancho. E, de novo, em Fevereiro… E tinha a firme convicção de que não poderia ser assim.

 

IMG_20171216_144313.jpg

FOTO DO SANCHO

 

Por uma questão de timing, nesse sábado à tarde, já não poderia visitar a Casa dos Animais de Lisboa, uma vez que as adopções só funcionavam das 10h às 12h, aos sábados e quartas. A CAL constituía-se como uma alternativa ao nosso plano. Outras condições, outra formação, outras prioridades, era o que esperava encontrar.

 

Tinha (e tem!) de haver um click com algum dos animais. E eu só pensava no Sancho: 8 anos, artrite, medicação crónica diária. O projecto estava mais definido do que aquilo que eu julgava: já sabíamos o peso do cão que queríamos ter como companheiro, a altura, a idade aproximada, enfim, tudo. Mas, nitidamente, a União Zoófila estava fora do mapa de possibilidades.

 

Fomos, então, recebidos na CAL por um funcionário de extrema competência! Mostrou-nos todos os cães que – mais ou menos – encaixavam nos requisitos que tínhamos e ia partilhando todos os números de ficha destes animais para mais facilmente nos podermos dirigir aos serviços e pedir deles informações. Sabíamos que nesse dia, como combináramos, não era nossa intenção levar qualquer animal mas, somente, identificar o patudo com quem clickávamos. E clickámos.

 

E, entretanto, mais 3 ou 4 que nos foram mostrados fervorosamente. Não vou dizer impingidos para não ferir susceptibilidades, mas foram-no realmente. Miraculosamente, segundo o funcionário, nenhum dos cães para adopção tinha doenças. Doenças pulmonares, cardíacas, reumatológicas, renais, nada. Pensámos: será que a ausência exterior de sinais de doença indicam a boa saúde destes? E a saúde interna é despistada? Com que propriedade podem estes funcionários atestar da boa saúde dos animais? Questionámos ainda se o número de adopções devolvidas crescia após o Natal. Recebemos um encolher de ombros. Aparentemente, entendemos nós, é algo frequente de acontecer. O que não é normal é, sabendo desta situação, haver um encorajamento tão grande na adopção de animais sem minimamente acautelar-se o bem estar deles no seu futuro. Nós, por outro lado, estávamos dispostos a aguardar. E a responsabilidade na adopção? É só da nossa parte? Sabemos: o espaço e os recursos podem ser limitados, mas os animais não podem ser despachados, qual liquidação de stock.

 

Mas, ainda pensava nisto, e já tinha um outro cachorro que tinha acabado de ser trazido para meus braços, a pedir amizade eterna. E, de repente, mais 4 cachorrinhos aparecem-me no colo, acabados de dar para adopção, com uma subentendida urgência, partilhada nos gestos e na ansiedade de levarmos um cão… Que loucura! Tantas emoções juntas. 

 

Mas lá estava Ele a tremer de frio, com as suas manchas pretas e brancas, numa boxe, simpático e tímido o que Lhe ainda permitiu vir conhecer-nos. Sabemos agora que Ele, e 29 irmãos, foram recolhidos de uma casa de alguém que sofria do síndrome de Noé. Nesse dia trouxemo-lo na memória. Tínhamos feito click. Mas, como planeámos, tínhamos de ser fortes o suficiente para voltarmos sem nenhum amigo. Havia que preparar-nos.

 

IMG_20171217_102318.jpg

FOTO DELE

 

Já na semana passada, voltámos à CAL. Com o propósito de conhecer o registo deste nosso novo amigo e estar um bocadinho com Ele. Com a infelicidade de não sermos acompanhados pelo mesmo funcionário, a nossa percepção do espaço e da instituição mudou totalmente. Este, desta vez, já não se preocupou com os animais. Já não nos deu números de ficha. Disse, aliás, que não estava autorizado a fazê-lo (quando a primeira coisa que nos foi pedida, à chegada, era o número de ficha do nosso amigo). Não se mostrou disponível para nos ajudar a encontrar outro amigo, visto que Ele aparentemente tinha sido adoptado - e se tivesse apenas noutro local invisível aos nossos olhos sem saber que o procurávamos? Não se esforçou.  Assim, não é possível. Não foi possível.

 

Por sua causa, por vossa causa, deixámos este projecto pendente.

 

Ainda não chegaste e já tenho saudades tuas.

 

O Cara-Metade

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