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Triptofano

Como ser 20% mais feliz?

19
Nov17

A Alma em pedaços


Estes dias tem sido difíceis para mim.

 

Gostava que este blog fosse um registo leve e bem-humorado da vida, mas há situações que me tocam de uma forma mais profunda do que aquela que eu alguma vez gostaria de admitir.

E escrever é uma forma de fazer com que o balão dos sentimentos não me rebente na cara.

 

Hoje fui ao Hospital Fernando da Fonseca visitar a Dona A., a senhora que fazia as limpezas na loja onde trabalho.

De um dia para o outro, uma dor na zona abdominal levou-a a um internamento.

 

O diagnóstico foi mil vezes pior do que alguma vez podíamos pensar.

 

Nódulos no fígado e um tumor maligno na cabeça do pâncreas.

 

Quando o cancro aparece nesta zona, infelizmente o organismo já se encontra de tal forma comprometido que em vez de se fazer sofrer desnecessariamente a pessoa com sessões de quimioterapia, dá-se os melhores cuidados possíveis para se ir vivendo, ou sobrevivendo, sem dores e com algum conforto, conforto este que é muito relativo.

 

Quando soube que a Dona A. tinha sido internada e já não regressaria a casa quis ir logo visitá-la, mas os horários do trabalho não coincidiam com as horas da visita - tudo desculpas esfarrapadas eu sei, quando se quer mesmo faz-se por acontecer.

E passei esta semana com uma angústia no peito, sempre a pensar que estava a adiar algo que não deveria ser adiado, porque e se fosse tarde demais?

Se não a conseguisse ver uma última vez? Se não pudesse sentir o calor da mão dela contra a minha?

 

Hoje fui ao Hospital vê-la.

 

Tinha uma data de piadas ligeiras preparadas para a fazer rir.

Coisas sobre como ela podia voltar a fazer a limpeza da loja porque eu agora tinha uma dieta à base de flores por isso nunca mais ia empestar a casa-de-banho.

 

 

Na realidade estava a enganar-me a mim mesmo.

A assumir que a pessoa que eu ia encontrar era aquela que eu tantas vezes via no trabalho e na rua.

Só com a diferença de estar numa cama de hospital.

 

Entrei no quarto que me indicaram.

 

Com passadas largas dirigi-me ao fundo do mesmo, à procura da cama dela.

Até que alguém chama pelo meu nome. É a neta que com um sorriso aponta para a cama onde a Dona A. repousa.

E a minha alma fica em pedaços. Porque eu vi aquela mulher quando entrei. E pensei que era uma outra mulher qualquer, muito mais velha, tão mais fragilizada.

 

Quando sou forçado a perceber que aquela sombra foi há pouco tempo atrás a pessoa cheia de vida que conheci, choro para dentro.

Afinal estou ali para dar força, não para trazer mais tristeza ao ambiente envolto em penumbra.

 

Sinto que ela deixou de lutar, está apenas a sentir os minutos sucessivos a passarem pela sua existência.

Mas será que sente algo? Com as doses de morfina que lhe são dadas no soro tudo parece ficar mais turvo, como quando usamos óculos com uma graduação diferente da que precisamos.

 

A filha confirma-me os meus receios.

 

 

Apesar de ter forças a Dona A., recusa-se a levantar, a caminhar, muitas vezes a comer sequer. Passa a maior parte do tempo a dormitar, falando de uma forma quase inaudível.

 

Sento-me ao pé dela.

 

Tenho medo que não me reconheça. Ou que ache que eu não devesse estar ali.

Ela abre os olhos e eu inclino-me para receber o toque dos seus lábios na minha face.

 

Com uma força falsa na voz conto-lhe a piadola sobre a casa-de-banho. Ela dá um sorriso ligeiro.

 

Aperta-me a mão que tenho pousada contra o frio da grade da cama.

 

Puta de vida!

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